Opinião GP: Ferrari e Mercedes se deixam ser humilhadas e são parte do marasmo da F1

É bem verdade que há uma discussão sobre a qualidade das corridas em 2023 na F1. O regulamento, de fato, não engrenou e há uma série de decisões erradas da chefia da categoria que só piora o cenário. Mas é também inegável o papel de Ferrari e Mercedes. As duas maiores equipes do grid estão em dívida e têm um peso grande na falta de competitividade do campeonato

UMA SEMANA ATRÁS, a discussão era em torno da qualidade das corridas da Fórmula 1 2023 e o papel das decisões atrapalhadas de quem comanda a maior categoria do esporte a motor. Sete dias depois, o cenário, obviamente, ainda é o mesmo, mas há de se colocar na balança também o peso de Ferrari e Mercedes na disputa do campeonato 2023, frente a uma Red Bull excelente — e aqui também dá para citar a Aston Martin. Embora o salto de desempenho não a coloque na briga direta contra os taurinos, é certo dizer que a equipe inglesa faz mais e melhor que as duas estrelas do grid. Portanto, a dupla também é responsável pelo marasmo que o Mundial atravessa neste momento.

É preciso falar primeiramente da Ferrari. Assim como a esquadra austríaca, a escuderia italiana também teve uma ótima interpretação do regulamento no ano passado. O carro vermelho surpreendeu pelo equilíbrio e performance em pistas mais seletivas, que demandavam maior eficiência aerodinâmica. Mas todo esse acerto acabou em decisões equivocadas da engenharia de Maranello, da chefia, no papel de Mattia Binotto, e também nos erros de pilotagem. Charles Leclerc não soube lidar com a pressão da disputa do título, enquanto Carlos Sainz demorou para se adaptar ao novo carro. Por isso, a Ferrari se viu cedo fora da briga e teve de assistir a ascensão e vitória de Max Verstappen e os energéticos.

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Ao fim de 2022, ficou claro que algo tinha de mudar. Binotto caiu. Para o seu lugar, a equipe trouxe Frédéric Vasseur, francês que comandava a Alfa Romeo/Sauber e que já havia trabalhado antes com Leclerc. É bem verdade que o dirigente não teve grande envolvimento na concepção do projeto da SF-23, mas é dele a responsabilidade pelo desenvolvimento. Vasseur vem fazendo uma série de mudanças dentro da fábrica, e isso demanda tempo, é evidente. No entanto, há situações que necessitam de atitudes mais contundentes.

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O chefe da Ferrari apressou as atualizações, por exemplo. A equipe levou uma série de elementos novos para Miami — uma pista muito singular para testes de novidades, tanto que ninguém seguiu os italianos, com exceção da parceira Haas. Talvez por isso nada tenha funcionado a pleno. Na real, a escuderia volta para a Itália de mãos vazias e com mais perguntas do que respostas. O ritmo de corrida foi muito ruim, negando aos dois pilotos a condição de disputa. Não é exagero dizer que o time deixa os Estados Unidos como a quarta força do campeonato. E ainda sem conhecer o próprio carro e como fazer para que o modelo se torne rápido.

Também é importante colocar aqui a performance da dupla de pilotos. Leclerc se mostra ainda irritado com a equipe, insatisfeito e errático. Só neste fim de semana foram dois acidentes e um prejuízo considerável. Charles poderia ter ameaçado a Red Bull ao menos em classificação, mas nem isso foi possível. Ao longo da corrida, se viu mais tempo atrás da Haas de Kevin Magnussen do que em uma disputa real. Vai muito mal, de fato.

“Temos muito trabalho a fazer, muito. Temos um carro em que os pneus só funcionam bem em uma janela estreita. Quando você está em condições ideais, a sensação é muito boa, mas assim que você sai, fica muito difícil”, resumiu Leclerc após a prova, para logo lançar a realidade assustadora da Ferrari.

“É muito complicado entender a nossa situação. Na classificação, estamos na frente e temos como lutar, enquanto na corrida não podemos fazer nada além de aceitar ser ultrapassado pelos outros para administrar bem o pneu e tirar o máximo proveito do que tem no momento”, completou.

Acompanhe os melhores momentos do GP de Miami (Vídeo: F1)

Sainz também brigou com os pneus, embora tenha tentado se defender. Porém, tomou punição por excesso de velocidade nos pits. É um vacilo menor, mas ainda assim um vacilo. E isso tem sido uma tendência dentro da Ferrari. Pequenos e grandes equívocos, que a afastam de qualquer possibilidade de brilhar.

Dito isso, Fernando Alonso tem razão quando cutuca os italianos. E nem é bem pelo vácuo na luta contra a Aston Martin diretamente, mas pela ausência geral.

E se a Ferrari amarga decisões atrapalhadas e apressadas, a Mercedes é quase inexplicável. Depois de vencer oito Mundiais de maneira consecutiva — sendo alguns deles em um nível tão alto de excelência que chegava a assustar —, a insistência em um projeto claramente errado fica difícil de defender. É inconcebível o que acontece em Brackley.

O conceito do zeropod não funcionou no ano passado. Mostrou sinais de alguma melhora, mas é uma configuração limitada, de pouca margem para manobra. A prova é o modelo atual, que tem a mesma linhagem. Como os ferraristas, os engenheiros da Mercedes também não entendem muito bem esse W14, que se mostrou um fiasco desde os primeiros testes no túnel de vento. Mas por que, então, seguir nisso? De novo, sem defesa.

As declarações do chefe Toto Wolff são quase cômicas e sempre teatrais. “É a falta de compreensão do que está errado que torna esse carro tão desagradável. Não é um bom carro”, disse após a decisão das posições de largada. “Existem problemas em todos os lugares, com o desempenho básico do carro e a falta de entendimento dos problemas dele. É inaceitável”, emendou.

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A corrida em Miami colocou George Russell e Lewis Hamilton em condições melhores que a classificação. Ambos mostraram um ritmo forte durante a prova. Mas a impressão que fica é que isso só foi possível pela qualidade dos dois, que conseguem driblar a inabilidade do carro. Só que até isso tem limites. Wolff parece ter perdido um pouco da alma com a fase que a equipe atravessa. No entanto, ele também é parte do problema sendo a única pessoa que pode tomar uma decisão.

Agora, tanto a equipe alemã quanto a italiana apostam suas fichas nas grandes atualizações que estão programadas para o GP da Emília-Romanha, apenas o sexto da temporada e que acontece daqui a duas semanas. É uma jogada arriscada, porque nada garante um salto de qualidade imediato. Mas é preciso que se faça algo com alguma competência, porque, por enquanto, ambas estão sendo humilhantemente esmagadas por essa Red Bull que apenas fez o trabalho correto.

E se duas das maiores equipes do grid — de todos os pontos de vista — não são capazes de construir carros competitivos, há algo muito errado. E aí não é culpa do regulamento. Tem outro nome.

Fórmula 1 retorna daqui a duas semanas com o GP da Emília-Romanha, sexta etapa do calendário. O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades da temporada 2023 AO VIVO EM TEMPO REAL.

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