Opinião GP: FIA estraga F1 ao priorizar entretenimento ao invés do esporte

Uma vez mais, a FIA se colocou no centro das atenções e não por um bom motivo. A entidade parece esquecer de seu dever de zelar pelo esporte e segue dobrando a aposta por um novo Abu Dhabi 2021. Ao escolher o entretenimento, a direção de prova destrata a Fórmula 1, que também joga contra si mesma. O que aconteceu no GP da Austrália entra para a história como um dos capítulos de maior vexame da categoria rainha

HÁ DUAS SEMANAS, quando a Fórmula 1 tentava explicar a razão pela qual Fernando Alonso teve o pódio de volta após uma punição, a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) se viu nos holofotes. Agora, novamente a direção de prova ofusca a disputa em pista e assume um papel que não lhe pertence. E pior, a maior categoria do automobilismo parece também não se importar em virar uma atração bizarramente recreativa. Em nome do espetáculo, tudo é permitido, sem qualquer explicação ou segurança. O que aconteceu no GP da Austrália foi desastroso e joga luz sob a credibilidade de quem deveria zelar pelo esporte e tratá-lo como tal.

Desde que os norte-americanos do Liberty Media assumiram a Fórmula 1 no fim de 2016, a maior categoria do esporte a motor passou por uma enorme transformação. Ganhou popularidade, viu o calendário crescer exponencialmente, atingiu números expressivos de audiência e fez dinheiro. “O Mundial poderia ter até 32 GPs, porque todo mundo quer um“, disse o CEO Stefano Domenicali outro dia. Em paralelo, o grupo também mudou a mentalidade de quem regulamenta o campeonato. Internamente, criou junto à FIA a ideia de que o Mundial precisa, sobretudo, entreter. E quando morreu Charlie Whiting e sua notória conduta, ali se abriu também a chance para isso. Inicialmente no papel de Michael Masi, agora sob a batuta solitária de Niels Wittich, a direção de prova segue perdida e hesitante.

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E mais: as desastrosas decisões que foram tomadas ao longo da corrida em Melbourne serviram para mostrar que, sim, a Fórmula 1 está mesmo disposta a dobrar a aposta e viver um novo Abu Dhabi 2021.  A sequência de ações da etapa australiana são a evidência máxima. A prova entrou para a história como a primeira com três bandeiras vermelhas. Só que ninguém entendeu a razão para tamanha interferência. O vencedor na Austrália, Max Verstappen, classificou as medidas como “uma bagunça, uma confusão”, enquanto Fernando Alonso disse que “foi uma surpresa”. George Russell, presidente da associação dos pilotos, falou em “decisões totalmente desnecessárias“. Por aí só dá para se ter uma ideia do fiasco.

Na volta 6 da corrida, Alex Albon perdeu a traseira da Williams e estampou o muro, jogando detritos no asfalto. Imediatamente, o carro de segurança surgiu à frente do pelotão, como deveria ser. “Fiquei surpreso com todas as bandeiras vermelhas, para ser honesto”, falou Alonso após a corrida. “A primeiro foi por causa da Williams na curva seis, mas passamos por lá com o safety-car. Havia um pouco de cascalho, mas nada muito ruim na pista. Mas nunca sabemos no carro o que está acontecendo. Aparentemente, uma barreira não foi instalada corretamente.”

O caso é que a F1 já viveu inúmeras situações semelhantes no passado, mas era importante pontuar isso: o que estava acontecendo. Mas é o fim da corrida australiana que desperta questionamentos. Na 53ª passagem, Kevin Magnussen bateu a Haas, espalhando pedaços de carro, placas e ainda deixou um pneu pela pista. O dinamarquês conseguiu encostar o carro em uma área segura, mas era preciso limpar o local. Houve aqui uma demora em chamar o SC inicialmente. E o recurso da bandeira vermelha pareceu mais compreensível do que com Albon, ainda que haja sentimentos opostos. O bicampeão da Aston Martin disse: “Provavelmente perguntaremos em Baku qual foi o motivo da segunda paralisação. Sei que houve um pedaço de pneu e detritos na primeira reta, mas o carro em si estava dentro da curva quatro, então me senti bastante seguro.”

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F1 2023, GP da Austrália, Kevin Magnussen, Haas
Kevin Magnussen quebrou a suspensão sozinho e causou bandeira vermelha tardia no GP da Austrália

“E o carro de segurança é para esse tipo de coisa. Para nós, talvez tenha sido uma opinião diferente, mas a FIA é a única com todas as cartas na mesa, então, nesse tipo de situação, confiamos neles”, completou.

Verstappen também opinou: “Simplesmente não entendi por que precisávamos dessa segunda bandeira vermelha ali. Se você tivesse um carro de segurança e depois uma largada normal, não teríamos todos esses eventos e ainda teríamos uma chegada normal. Então eles mesmos criaram esses problemas.”

De fato, a sanha por entreter até o fim e evitar que a corrida termine sob safety-car, algo profetizado por Masi, acabou por afundar de vez o GP da Austrália. Após a interrupção por conta de Magnussen, houve uma segunda relargada. Neste momento, todo mundo mexeu nos carros, colocou pneus mais macios e partiu para o ataque final, restando apenas duas voltas para o fim.

Só que, assim que as luzes se apagaram, foi um caos: Verstappen e Hamilton se salvaram, mas Alonso sofreu um toque de um desastrado Carlos Sainz, que enterrou a boa prova que fazia. Pierre Gasly, também em grande dia, tentou desviar do tumulto e acabou acertando o companheiro de equipe, Esteban Ocon. Mais atrás, houve outros incidentes, com Sergio Pérez, Logan Sargeant e Nyck de Vries. Virou uma terra arrasada, e nova bandeira vermelha.

E aqui, de novo confusão. A direção de prova da FIA simplesmente levou mais de 30 minutos para decidir o que fazer: a corrida terminaria atrás do safety-car. Os níveis de loucura aqui foram atualizados. Há ainda outro aspecto: porque a relargada acabou invalidada, a classificação anterior passou a valer. Portanto, Alonso ficou com o seu pódio, mas a dupla da Alpine perdeu pontos preciosos porque os dois carros foram destruídos, Sainz foi punido por ter sido considerado culpado pelo toque no compatriota.

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Relargada caótica do GP da Austrália teve quatro abandonos e muita confusão no fim (Vídeo: Sky F1)

Não deixa de ser irônico também o seguinte cenário: na busca pelo show, foram três bandeiras vermelhas para que a prova acabasse com o safety-car. Ainda, não dá para não associar tudo isso ao que aconteceu em Abu Dhabi em 2021. Quando Masi decidiu interpretar de forma livre o regulamento, acabou com um campeonato grandioso, apenas para apimentar a disputa e evitar um anticlímax. Agora, ainda que cumprindo as regras, a FIA faz exatamente o mesmo.

No fim das contas, a sensação é de que a direção de prova não sabe como usar os recursos que possui e a responsabilidade que tem. Por exemplo, é necessário interromper a corrida a cada incidente, principalmente quando o safety-car ou virtual podem resolver a situação? O quanto mais a F1 está disposta a pagar em nome do espetáculo?

É ótimo que a FIA se siga o regulamento, mas é ainda melhor usar o bom senso. A corrida poderia muito bem ter sido encerrada com o safety-car e ainda entregar um show único de ter os três melhores pilotos do grid em um pódio de 11 títulos mundiais. É tão ruim assim ver o esporte prevalecer?

Fórmula 1 faz um recesso forçado de quatro semanas, por conta do cancelamento do GP da China, e retoma a temporada 2023 entre os dias 28 e 30 de abril, com o GP do Azerbaijão, nas ruas de Baku.

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