Opinião GP: Vitória tinha de ser de Leclerc em Spa. Que também expôs falha da Ferrari

Por mais doloroso que seja e por tudo que aconteceu, a vitória no GP da Bélgica tinha de ser de Charles Leclerc. O jovem monegasco encarnou a verdadeira homenagem a Anthoine Hubert e humanizou a Fórmula 1. Já em termos técnicos, a maneira como o triunfo foi construído também ajudou a expor o maior ponto fraco da Ferrari

O MOMENTO NÃO foi dos melhores, o clima não era nem para corrida, na verdade, mas Charles Leclerc se encheu de força, como fez há alguns anos depois de perder o pai, e foi à pista para vencer. Conquistou uma primeira vitória na Fórmula 1 cheia de simbolismo. Mas também triste, ofuscada pelo assustador e mortal acidente de Anthoine Hubert no sábado. Ainda assim, o monegasco só se permitiu desabar quando estacionou o carro vermelho no parque fechado. E chorou. Pela vitória e pela perda do amigo Anthoine – o francês morto um dia antes em Spa-Francorchamps, era da mesma ótima geração de pilotos da França como Pierre Gasly e Esteban Ocon. Os quatro cresceram juntos desde o kart, dividiram quartos, refeitórios, equipes, pistas e pódios. Hubert estava no primeiro campeonato que Charles disputou na vida. Havia uma ligação não só de amizade, mas de cuidado e torcida. O abraço emocionado na mãe e no irmão de Hubert e consolo do chefe Mattia Binotto, logo depois das homenagens antes do apagar das luzes no grid de largada, apenas jogaram uma luz sobre tudo que estava em jogo, do presente e do passado. Portanto, acima de tudo, o triunfo do GP da Bélgica tinha de ser de Charles.
 
Ninguém mais poderia erguer aquela taça neste fim de semana. E Leclerc sabia disso e ficou claro no pedido feito por Gasly poucas horas antes da largada: “Ganhe essa por Anthoine.”
Charles Leclerc se emociona ao abraçar mãe de Anthoine Hubert (Foto: LAT/Twitter)
A conquista também premiou o melhor piloto da Ferrari até o momento na temporada. É bem verdade que Sebastian Vettel está na frente na tabela de pontos, mas o dono do carro #16 teve atuações mais fortes, combativas, esteve mais perto de vencer ao menos em duas claras oportunidades antes deste domingo, já largou da pole-position três vezes em 2019 e foi ao pódio outras seis vezes. Questionou ordens de equipes, aprendeu rápido com os vacilos e cometeu menos erros que o tetracampeão. Vitória merecida, pois.
 
Leclerc também se torna agora o mais jovem piloto a vencer com a Ferrari em toda a história da F1, o que somente comprova o acerto da esquadra de Maranello em promovê-lo tão rapidamente após apenas uma temporada no Mundial. 
 
Só que o triunfo não foi tão fácil como fez parecer o desempenho na classificação. Leclerc foi velocíssimo durante os treinos livres e a definição do grid, conquistando a pole-position. Colocou quase 0s8 em cima do companheiro Vettel – que errou em todas as voltas rápidas –, mas também essa foi a diferença para a Mercedes de Lewis Hamilton e Valtteri Bottas. Dada a grandiosa velocidade de reta da SF90, esperava-se um passeio e uma dobradinha neste domingo. Não aconteceu. 
 
E isso é um problema. A verdade é que a esquadra italiana sofreu para vencer e quase reviveu o drama do GP da Áustria. Porém, mesmo com uma performance aquém do esperado no fim de semana belga, Vettel foi quem decidiu a favor de Charles em um papel agora de escudeiro. Só que isso por si só já levanta um questionamento sobre os pontos fracos dessa Ferrari. 
Charles Leclerc contou com a ajuda de Vettel para vencer (Foto: Beto Issa)
Desde os treinos livres de sexta-feira, havia a preocupação nas garagens vermelhas quanto ao ritmo de corrida e ao comportamento dos pneus. Afinal, o time de Maranello não foi capaz de imprimir o mesmo desempenho dos rivais prateados e ficou mais próxima da performance da Red Bull. Então veio o domingo. O pole Leclerc manteve a liderança depois da largada e conseguiu abrir uma distância confortável para Sebastian e Hamilton.
 
Só que aí o inglês endureceu a disputa e passou a imprimir um ritmo mais forte, pressionando o tetracampeão. Aliado a isso, a Ferrari precisou lidar com a queda brusca de temperatura durante a tarde belga. O clima bem mais frio do que nos dias anteriores afetou os carros italianos, que enfrentam dificuldades crônicas para gerar temperatura dos pneus. Por isso, foi notado um grande desgaste da borracha, principalmente no caso de Vettel.
 
A tática de um pit-stop serviu para todos. O momento da parada é que acabou selando alguns destinos. Com os compostos macios mais desgastados na primeira parte da corrida, Seb precisou ir aos boxes muito antes dos adversários diretos. Voltou mais atrás, mas foi capaz de andar rápido. Quando o líder Leclerc e o então segundo colocado, Hamilton, foram aos pits, Vettel ascendeu à ponta.
 
Mas não conseguiu sustentá-la por muito tempo. Os pneus médios não funcionaram a contento no carro vermelho e foi aí que a Ferrari tomou uma decisão certeira: pediu a troca de posições entre Seb e Charles na 27ª das 44 voltas da prova. Neste momento, Hamilton já se aproximava perigosamente da dupla. Com Leclerc a salvo e abrindo vantagem na liderança, o alemão segurou o inglês por quatro voltas antes de parar de novo. Esses giros acabaram sendo decisivos para a perseguição de Lewis. Se Vettel não cedesse a posição naquela hora, a vitória certamente cairia nas mãos de Hamilton, dada a melhor performance com os pneus médios. 
Charles Leclerc precisou segurar Lewis Hamilton na parte final da corrida (Foto: AFP)
Uma vez mais, o pentacampeão se apresentou de forma precisa e veloz. Foi tirando a diferença rapidamente, mas faltaram voltas para a ultrapassagem. Ainda assim, Charles cruzou a linha de chegada apenas 0s9 à frente do #44. 
 
A verdade é que para vencer com uma dobradinha neste domingo os italianos precisavam de um pacote perfeito. Passou longe disso. E pior: ficou nítido também que a Ferrari realmente só pode ser levada a sério em uma pista que tiver longos trechos de alta velocidade – retas, especialmente. Uma nova chance de vencer surge logo no próximo fim de semana. Depois disso, a ordem natural da F1 volta ao normal, com uma Mercedes que cuida melhor dos pneus e tem um carro mais equilibrado. A vitória em Spa é motivo de alívio para os ferraristas, mas é apenas paliativo e pouco diante da concorrência. 

A próxima etapa do Mundial de F1 acontece já no próximo fim de semana com a disputa do GP da Itália, no icônico circuito de Monza. O GRANDE PRÊMIO acompanha tudo AO VIVO e em TEMPO REAL.

O Opinião GP é o editorial do GRANDE PRÊMIO que expressa a visão dos jornalistas do site sobre um assunto de destaque, uma corrida específica ou o apanhado do fim de semana.

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