F1

Para bem e para mal, GP do Bahrein se desenha em corrida de uma volta no duelo Ferrari × Mercedes

Charles Leclerc conquistou uma pole-position que diz muito sobre ele e sobre o acerto da Ferrari em promovê-lo tão jovem. Mais do que isso, a pole é uma resposta ao que aconteceu na Austrália. Só que também é uma ameaça ao delicado equilíbrio ferrarista. O rumo da temporada pode ter o pontapé inicial mesmo neste domingo, e isso vai depender muito dos primeiros metros da corrida. E a premissa vale também para a Mercedes

Warm Up / EVELYN GUIMARÃES, de Curitiba

O GRANDE PRÊMIO definiu como “contundente” a pole conquistada por Charles Leclerc no Bahrein, neste sábado (30). E foi mesmo. O jovem monegasco dominou o treino livre 3 e também a classificação. Não cometeu erros e soube tirar o máximo de uma SF90 melhor acertada e assombrosamente rápida em reta. A posição de honra veio acompanhada do recorde da pista e de uma pilotagem primorosa. Em uma primeira análise, pode-se dizer: Leclerc provou que é forte o bastante para uma briga direta com os adversários dos italianos. Ou seja, foi uma resposta ‘contundente’ ao que aconteceu no GP da Austrália. Como é contundente também a posição de força que tem agora, bem como o acerto que a própria Ferrari teve em promovê-lo a titular tão jovem.
 
Dito isso, é necessário entender também o que a performance do monegasco implica para o campeonato a partir deste domingo. Isso porque vai obrigar a equipe vermelha a tomar uma decisão, que não poderá mais voltar atrás. A pole de Leclerc pode, sim, mudar os rumos da temporada e é, também, uma ameaça a delicado equilíbrio nas garagens ferraristas. Em Melbourne, a chefia se recusou a permitir que Charles passasse Sebastian Vettel porque achou desnecessário – verdadeiramente, a preocupação é com a cabeça do alemão. Neste domingo, no entanto, o que está em jogo é uma vitória e não mais um top-5. Um triunfo categórico, uma dobradinha, pode significar um duro golpe na concorrência.
Charles Leclerc, a joia da Ferrari (Foto: Ferrari)
Mattia Binotto já disse que “quem estiver na frente, vai permanecer na frente”, depois de ser sido perguntado sobre aquilo que todos pensaram quando Charles surgiu na ponta. De fato, é um sinal de inteligência da Ferrari permitir que seus pilotos decidam suas vidas na pista. Por isso, os primeiros metros do circuito de Sakhir serão tão importantes depois que as cinco luzes se apagarem. Quer dizer, mais do que se preocupar com a Mercedes, Leclerc e Vettel também vão travar um duelo velado, que pode começar a decidir seus papeis em 2019. E antes de qualquer coisa, Seb precisa dar o troco. Os dados serão lançados ali no grid.
 
A esquadra alemã, de outro lado, precisou desesperadamente do ‘modo festa’ para garantir não só a segunda fila, mas mostrar que está à espreita, apenas aguardando um vacilo dos rivais. O ‘botão mágico’, aquela força extra que só o motor alemão tem no Q3, salvou do vexame um carro manhoso e sem velocidade de reta. Lewis Hamilton foi bravo o suficiente para se colocar ali em terceiro, 0s3 atrás das Ferrari e à frente de Valtteri Bottas. O líder do campeonato acompanhou o ritmo, assegurando o quarto posto. Ainda que a ordem seja atacar desde o início, a equipe prata também tem seus fantasmas. Hamilton está a 8 pontos do finlandês e precisa responder à vitória do colega. Já Bottas tem como prioridade seguir na ponta, para evitar qualquer chance de cair como segundão. E o que a Mercedes faz? Como a Ferrari, aqui tudo também vai depender da largada. E o pit-wall terá papel decisivo.
 
Em termos de estratégia, as duas equipes, pelo que foi apresentado em termos de simulação de corrida nos treinos livres, possuem um equilíbrio interessante. Enquanto a Ferrari é muito forte com os pneus vermelhos, a Mercedes foi ligeiramente melhor com os amarelos. A Pirelli fala em uma variedade de táticas para a corrida, envolvendo os três compostos. A mais simples delas é um primeiro stint com os C4 vermelhos do Q2 por 15 voltas, e o pneu duro para o restante da corrida. Ou dois pit-stops com o uso de dois conjuntos de médios. Hamilton foi capaz de andar por 20 voltas em um ritmo muito forte com os amarelos. O inglês, aliás, é o único dos quatro primeiros que tem jogos novos de pneus duros, médios e macios. 
Lewis Hamilton também não quer deixar o parceiro vencer novamente (Foto: Mercedes)
Portanto, temos um campeonato de muitos lados aí na frente. 
 
Max Verstappen é um lobo solitário neste cenário, infelizmente. Em condição normal, não tem como entrar nessa briga. Mas há um jeito: a arma é a esperteza da Red Bull em estratégia e no melhor aproveitamento quando o acaso dá as caras. E o Bahrein é pródigo nisso. Ainda, o holandês tem à disposição dois jogos novos de pneus médios, o que lhe dá espaço para diversas estratégias, dependendo da briga entre Ferrari e Mercedes. O elo frágil aí é Pierre Gasly. O francês não tem desculpas desta vez. Na Austrália, a equipe austríaca até justificou a má posição pelo momento em que mandou o jovem à pista. Hoje não. Pierre começa pressionado, ainda mais pela colocação atrás de Alex Albon, da Toro Rosso.
 
E falando no pelotão intermediário, Kevin Magnussen teve atuação também primorosa ao colocar a Haas na sexta colocação, a menos de 0s1 de Verstappen. Se seguir nessa tocada, será um adversário de peso, assim como Carlos Sainz, com essa surpreendente McLaren. A Renault ficou devendo nessa, enquanto Kimi Räikkönen fez o que se espera com a Alfa Romeo. 
 
A Racing Point e a Williams fecham o grid. A primeira ainda tem certo potencial a explorar. A segunda está totalmente perdida.