F1

Prévia: de luto por Bianchi, F1 faz na Hungria prova isolada no verão europeu

Sete dias depois da morte de Jules Bianchi, os pilotos e equipes da F1 estão reunidos em Budapeste na preparação para o GP da Hungria. Uma corrida tradicional que deve reafirmar a superioridade da Mercedes sobre as demais — a não ser que a rara previsão de chuva se confirme e, como no ano passado, proporcione alguma surpresa
Warm Up / RENAN DO COUTO, de São Paulo
 Piloto da Mercedes, Nico Rosberg também compareceu ao funeral de Jules Bianchi (Foto: AP)
Cada um tem sua maneira de lidar com a morte. Uns preferem ficar reclusos, pensando sozinhos no que aconteceu. Outros precisam ocupar a mente fazendo seja lá o que for. O povo da F1 terá de conviver com a segunda opção, neste fim de semana, em Budapeste, com a realização da 30ª edição do GP da Hungria.
 
É uma etapa que acontece em um momento estranho. A F1, pela primeira vez em 21 anos, chora a morte de um piloto titular após um acidente em uma corrida. Poucos dias depois, se reúne no Hungaroring para um novo GP. O show não pode parar, dizem. Cedo ou tarde, é preciso virar a página.
F1 ainda chora a morte de Jules Bianchi (Foto: Marussia)
O que torna mais esquisito ainda o ambiente para o GP da Hungria é que se trata de uma corrida isolada no meio do verão europeu. O GP da Inglaterra foi há três semanas, o GP da Bélgica será daqui a um mês. O cancelamento do GP da Alemanha que provocou tamanho hiato na agenda.
 
Coincidentemente, a corrida é justamente no circuito que viu um dos acidentes mais graves das últimas duas décadas na F1, o de Felipe Massa em 2009 — outro piloto que, assim como Bianchi, tem Nicolas Todt como empresário. Enfim.
 
Sem nos esquecermos de Bianchi, agora é preciso torcer por um fim de semana tranquilo, sem sustos, e com uma grande corrida. É o que a F1 precisa para começar a seguir em frente.
Lewis Hamilton é quem mais domina o Hungaroring na F1 atual (Foto: Getty Images)
Vamos à pista
 
Hungaroring é um circuito que divide os fãs da categoria. É travado, lento, há quem diga que é Mônaco em formato de autódromo. Difícil de se ultrapassar, portanto. Por isso tudo, muita gente não gosta. Ao mesmo tempo, muita gente gosta.
 
Sim, é verdade, muitas corridas modorrentas já aconteceram na quente Hungria. Muitas corridas boas também já aconteceram. Peguem a última década, por exemplo: as vitórias de Button na chuva em 2006 e em 2011, a briga de Vettel com Webber em 2010, a disputa entre Hamilton e Räikkönen em 2012, a primeira vitória de Hamilton pela Mercedes em 2013 e o triunfo de Ricciardo no ano passado.
 
Aliás, a previsão é de chuva para os três dias do fim de semana. Caindo nos ‘horários certos’, ela pode embaralhar o grid e apimentar a divisão de forças. Também há outro alerta nos sites de meteorologia: para temperaturas extremamente altas. As máximas podem superar os 35ºC.
 
Em que isso tudo implica? Não no favoritismo da Mercedes, em uma ou outra condição. As Flechas Prateadas sempre serão as principais candidatas à vitória, ainda mais com Hamilton dominando o traçado húngaro. Mas o forte calor também pode favorecer a Ferrari, como foi no GP da Malásia. E como ocorria com os carros da Lotus desenhados pelo mesmo James Allison em 2012 e 2013.
Por incrível que pareça, Sebastian Vettel jamais venceu o GP da Hungria (Foto: AP)
Na disputa pelo título, o território é de Hamilton, que vem embalado por uma vitória em casa. São 17 pontos de vantagem para Rosberg em um circuito em que ele já venceu em 2007, 2009, 2012 e 2013. No ano passado, largou dos boxes depois do incêndio em seu carro na classificação, mas ainda assim se recuperou e terminou em terceiro, deixando Rosberg fora do pódio.
 
Como em Mônaco, as duas equipes da Renault também tendem a crescer. E, quem sabe, até a McLaren Honda — embora os últimos resultados não deem motivo para tal otimismo quanto às chances de Fernando Alonso e Jenson Button. O melhor resultado da Red Bull foi o quarto lugar de Daniil Kvyat em Monte Carlo, e a Toro Rosso se empolgou de vez em Silverstone, apesar da perda de rendimento na corrida. “Pode ser uma das nossas melhores corridas”, afirmou Max Verstappen.
 
Tudo isso serve de alerta para a Williams: em Mônaco, o time já tirou seu “fim de semana de folga”. Não pode se dar ao luxo de tirar outro. A equipe vem da melhor sequência no ano e sabendo que essa etapa pode ser mais complicada — o mais normal é voltar a mostrar a força que teve na Áustria e na Inglaterra apenas na Bélgica e na Itália.
 
Mesmo assim, as muitas atualizações introduzidas no FW37 desde o GP do Canadá mantém a animação de Massa. “Geralmente, um circuito desses não seria bom para o nosso carro, já que é mais de baixa. Porém, com tantas novidades que conseguimos para o carro e o tanto que evoluímos nas últimas provas, acho que devemos ter mais um final de semana muito competitivo”, assegurou.
A Williams fez frente à Mercedes no GP da Inglaterra, mas não sabe se fará frente à Ferrari na Hungria (Foto: AP)
Para a Sauber de Felipe Nasr, diante do desempenho do C34 nas últimas semanas, não dá para criar grandes expectativas a não ser capitalizar em cima do que o fim de semana apresentar. Em Silverstone, isso não foi possível. O brasileiro quebrou antes mesmo da largada, e Marcus Ericsson perdeu um décimo lugar praticamente garantido depois que a chuva começou a cair.
 
A programação volta a ser a das etapas disputadas na Europa continental: treinos livres às 5h e às 9h (de Brasília) na sexta e às 6h no sábado. Também no sábado, classificação às 9h, e, no domingo, corrida às 9h.

Um minuto de silêncio será feito em homenagem a Bianchi 15 minutos antes da largada da 10ª etapa do campeonato.

Prognóstico do GRANDE PRÊMIO
1 44 LEWIS HAMILTON ING MERCEDES
2 6 NICO ROSBERG ALE MERCEDES
3 5 SEBASTIAN VETTEL ALE FERRARI
4 77 VALTTERI BOTTAS FIN WILLIAMS MERCEDES
5 3 DANIEL RICCIARDO AUS RED BULL RENAULT

RAPIDINHAS...
1) Com certeza, um GP tradicional: esta será a 30ª edição do GP da Hungria, disputado pela primeira vez em 1986. Naquela ocasião, inclusive, viu uma memorável ultrapassagem de Nelson Piquet sobre Ayrton Senna que valeu a vitória. Apenas 12 GPs foram disputados mais vezes que o da Hungria.
 
2) Falando em tradição, muito se diz que a F1 está trocando pistas históricas pelos circuitos do Oriente Médio e do Extremo Oriente. Mas como ficaria um calendário de 20 corridas só com os circuitos que mais receberam corridas, já imaginaram? Seria assim: Monza (64), Mônaco (62), Silverstone (49), Spa-Francorchamps (47), Nürburgring (40), Montreal (36), Hockenheim (34), Interlagos (32), Zandvoort (30), Hungaroring (29), Ímola (27), Suzuka (26), Barcelona (25), Buenos Aires (20), Kyalami (20), Melbourne (20), Watkins Glen (20), Indianápolis (19), Red Bull Ring (18) e Magny-Cours (18).
 
3) Você se lembra que… a ida para a Hungria em 1986 marcou, para a F1, a ‘queda da Cortina de Ferro’? Hoje, a categoria também corre na Rússia, outra nação europeia que viveu sob um regime comunista no século passado.
 
4) Os anais do GP da Hungria podem ganhar, neste ano, um novo recordista: Lewis Hamilton. O bicampeão está empatado com Michael Schumacher com quatro vitórias no país
 
5) O histórico dos brasileiros é bom: Ayrton Senna venceu três vezes, Nelson Piquet, duas, e Rubens Barrichello, uma. Felipe Massa, no entanto, não pode dizer o mesmo: seu melhor resultado foi um quarto lugar em 2010. Ele venceria em 2008, não fosse a quebra do motor Ferrari na antepenúltima volta…
 
6) Os outros pilotos em atividade que já venceram na Hungria são Jenson Button (2006 e 2011), Fernando Alonso (2003), Kimi Räikkönen (2005) e Daniel Ricciardo (2014).
 
7) Curiosamente, as vitórias de Button e Alonso foram suas primeiras na F1. Assim como Heikki Kovalainen também venceu pela primeira vez na categoria no Hungaroring, em 2008.
 
8) Em termos de poles, Michael Schumacher ainda está bem à frente de Hamilton: sete a quatro.
 
9) Pois é, Sebastian Vettel nunca triunfou em Hungaroring: de todos os 24 GPs que o tetracampeão disputou, ele só não venceu na Hungria (oito tentativas), Áustria (duas), Rússia e França (uma).
 
10) Mas Vettel pode fazer história mesmo se não vencer neste fim de semana: se marcar 15 pontos a mais que Fernando Alonso, igualará o espanhol como o maior pontuador da história do Mundial de F1. Alonso tem 1768 pontos desde que estreou em 2001. (Foto: Beto Issa)