Promotor diz que cancelamento do GP do Brasil é “inaceitável” e já considera ir à Justiça

Ao GRANDE PRÊMIO, Tamas Rohonyi revelou que há uma 'batata quente' entre FIA e FOM e que, embora avisado, espera uma justificativa plausível para a não realização da corrida da Fórmula 1

A notícia do cancelamento da edição 2020 do GP do Brasil não foi bem digerida pelo promotor do evento, o húngaro Tamas Rohonyi. Responsável direto pela operação do acontecimento mais importante do calendário brasileiro no esporte a motor desde 1980, o proprietário da International Publicity foi ouvido pelo GRANDE PRÊMIO no último fim de semana e deixou claro o seu descontentamento com o Liberty Media, que justificou os efeitos da pandemia do novo coronavírus nas Américas para cancelar não somente o GP do Brasil, mas também as etapas dos Estados Unidos, México e Canadá neste ano. Tamas entende que a justificativa não é força maior. Pelo contrário, que é um “argumento inventado” pelos dirigentes norte-americanos e, por isso, não descarta até mesmo ir aos tribunais.

Pouco depois da oficialização do cancelamento do GP do Brasil, o GRANDE PRÊMIO procurou a assessoria do evento se havia recebido a comunicação oficial por parte da FIA. Na ocasião, a resposta foi negativa. Um dia depois, entretanto, o retorno da entidade foi positivo, revelou Tamas. “Entrou, agora entrou”. O húngaro deixou claro também que Jean Todt, presidente da Federação, não quer envolvimento com o imbróglio.

“Eu perguntei à FIA se devemos considerar essa carta de cancelamento como válida e a resposta que me deram é que, se a FOM quer cancelar, eles não têm nenhuma objeção. Ficou uma coisa de ‘é, mas não é’. Jean Todt é uma pessoa extremamente inteligente e já enxergou as eventuais consequências deste cancelamento e quer distância”, disse Rohonyi.

O promotor foi perguntado, então, sobre quem é, na sua interpretação, o responsável pelo cancelamento da prova. É aí que Tamas revelou que há uma ‘batata quente’ entre a FIA e a FOM   — Formula One Management.

TAMAS ROHONYI; F1; F1 2019;
Tamas Rohonyi é o promotor do GP do Brasil de F1 (Foto: Nathalia de Vivo/Grande Prêmio)

“Ainda está em aberto. Eu consultei alguém que é expert da legislação da própria FIA — e esta pessoa não é brasileira —, e no entendimento dele, quem pode cancelar um evento que foi colocado no calendário pelo Conselho Mundial só pode ser o Conselho Mundial, ou seja, nem passaria pelo presidente da FIA”, explicou.

“Agora, o que a FIA diz é o seguinte: se a FOM cancela o contrato com um promotor, ela eliminou a condição necessária para um evento permanecer no calendário. É como se alguém tirasse a bola do campo [de futebol] e o juiz falasse: não tem jeito porque não tem bola”, disse.

Pandemia “não é força maior” para cancelamento “inaceitável”, diz Tamas

Os números oficiais divulgados pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo refletem índices altos relacionados à pandemia do novo coronavírus na capital paulista, mas com queda nas últimas semanas. Ao todo, o município registra 176.190 casos positivos para Covid-19, com variação semanal em queda de 11,5%. Já o total de vidas perdidas é de 9.156. Contudo, na comparação com a última semana, o índice é 24,5% menor.

Em termos de números globais e absolutos, o Brasil só está atrás dos Estados Unidos como o país que mais registra casos de Covid-19 no mundo: 2.287.475, com mais de 85 mil mortes. Nos EUA, são 4.148.705 infectados e cerca de 146 mil vidas perdidas, de acordo com dados do último sábado publicados pela Universidade Johns Hopkins.

Tanto Estados Unidos quanto Brasil e até mesmo o México — com 385.036 infectados e 42 mil mortos até o último fim de semana — são governados por presidentes que adotaram política negacionista diante do novo coronavírus. E o Canadá, mesmo registrando números absolutos menores que os outros países da América — 115.400 infectados e 8.927 vidas perdidas —, também teve seu GP de F1 cancelado em 2020.

Na visão de Rohonyi, no entanto, o argumento de que a pandemia do novo coronavírus foi a justificativa para o cancelamento dos eventos não é válido.

“Não, absolutamente não. Os contratos de Fórmula 1 só têm uma única cláusula que permitem o cancelamento, e isso para proteger os dois lados, que é a chamada força maior. Ou seja, é para um acontecimento que está totalmente fora de controle das partes. No caso da Fórmula 1, se um avião cai trazendo os carros ou se um autódromo é inundado, obviamente é um caso de força maior porque não há o que fazer. Fora disso, não existe nenhuma justificativa”, afirmou.

Jean Todt “quer distância” desse cancelamento, diz Tamas Rohonyi (Foto: FIA)

“E o cancelamento foi ‘justificado’ porque as equipes estão muito preocupadas – não todas, mas cinco delas – com a situação aparentemente perigosa na cidade de São Paulo. Isso é inaceitável porque o contrato que nós temos não diz que a FOM traz pelo menos 16 carros caso eles queiram vir. Se uma ou outra equipe não quer vir, que não venha, ninguém pode forçá-la, mas isso não é força maior”, reiterou Tamas, que foi além ao descrever a pandemia como “um raciocínio inventado” pelo Liberty Media para cancelar os eventos da F1 nas Américas em 2020.

“Todo o comportamento dos dirigentes atuais da F1 soa um pouco difícil de entender. Eles negociaram por muito tempo com Nürburgring para ter corrida lá; de repente, pararam de negociar. Aí anunciaram uma corrida na Rússia. A Rússia está numa situação pior que a do Brasil. Anunciaram que vão para a Espanha, que está com problema. Anunciaram Portugal, que está na lista do governo britânico para não se visitar. Então há um comportamento muito pouco coerente”, alegou.

Para o promotor do GP do Brasil, a razão para a não-realização dos GPs dos Canadá, México, EUA e Brasil não tem relação com a pandemia. “Não é segredo que o verdadeiro motivo para o cancelamento das corridas nas Américas é meramente financeiro. São provas caras. Quanto custaria hoje contratar sete cargueiros, Boeing 747? Comparado com o ano passado, é quase o dobro. São custos elevados e eles não querem gastar. Então o raciocínio acaba sendo inventado, sim”, complementou.

Por fim, quando questionado sobre quais ações a empresa responsável pela organização do GP do Brasil vai tomar a partir do cancelamento da prova, Tamas é claro: o imbróglio pode parar nos tribunais.

“O que podemos fazer é simplesmente tomar uma posição de que não concordamos com o cancelamento e que as condições apropriadas existem na cidade de São Paulo. Na semana passada, já foram permitidas corridas em Interlagos, dentro de certas precauções e seguindo o protocolo da FIA, então, francamente, é inaceitável. E legalmente, nós ficamos numa posição muito difícil porque temos um contrato com a prefeitura para fazer a prova. Então tem de haver uma definição clara de que de fato não vem para cá, com uma justificativa, e se esta não for aceitável, só nos resta questionar em juízo. Não tem escolha”, concluiu.

GOSTA DO CONTEÚDO DO GRANDE PRÊMIO?

Você que acompanha nosso trabalho sabe que temos uma equipe grande que produz conteúdo diário e pensa em inovações constantemente. Mesmo durante os tempos de pandemia, nossa preocupação era levar a você atrações novas. Foi assim que criamos uma série de programas em vídeo, ao vivo e inéditos, para se juntar a notícias em primeira-mão, reportagens especiais, seções exclusivas, análises e comentários de especialistas.

Nosso jornalismo sempre foi independente. E precisamos do seu apoio para seguirmos em frente e oferecer o que temos de melhor: nossa credibilidade e qualidade. Seja qual o valor, tenha certeza: é muito importante. Nós retribuímos com benefícios e experiências exclusivas.

Assim, faça parte do GP: você pode apoiar sendo assinante ou tornar-se membro da GPTV, nosso canal no YouTube