Retrospectiva 2019: Errática e sem comando, Renault patina e tem futuro incerto

A Renault abriu 2019 cheia de ambição por conta da milionária contratação de Daniel Ricciardo, mas fechou a temporada com resultados pífios, exceção feita a um brilhareco no GP da Itália, e até ameaçada pela Toro Rosso no Mundial de Construtores. Sob a gestão do fraco Cyril Abiteboul, a Renault vive ainda a incerteza sobre seu futuro, que não está garantido na F1 depois de 2020

Anunciada de forma surpreendente ainda em 2018, a contratação de Daniel Ricciardo foi uma amostra da ambição da Renault para o futuro na F1 e indicava que a equipe de Enstone lutaria nesta temporada não apenas para manter o patamar de quarta força do grid, mas também tentar se aproximar mais do ‘trio de ferro’ formado por Mercedes, Ferrari e Red Bull. Mas a versão 2019 da Renault foi o puro creme do fracasso e, exceção feita ao brilhareco no GP da Itália, foi uma das grandes decepções do ano.
 
Mesmo com uma dupla ‘cascuda’ formada por Ricciardo e Nico Hülkenberg, a escuderia aurinegra não teve um grande carro, foi superada de longe pela McLaren, quase perdeu o quinto lugar do Mundial de Construtores para a Toro Rosso e ainda, sem resultados, tem seu futuro incerto após 2020. O pífio desempenho ao longo do ano deve ser colocado na conta do seu principal dirigente, o falastrão e ineficaz Cyril Abiteboul.
 
Com amplo poderio financeiro por ser uma equipe de fábrica, a Renault não economizou para dar um passo à frente em 2019. Ao tirar Ricciardo da Red Bull, ofereceu o terceiro maior salário da F1, somente inferior ao de Lewis Hamilton e Sebastian Vettel. O australiano chegou para receber cerca de € 20 milhões (R$ 92 milhões na cotação atual), de acordo com o ‘Business Book GP’ por temporada, enquanto Hülkenberg ficou com € 8 milhões (R$ 36,8 milhões), também uma bela grana. Mas o exemplo da McLaren da ‘era Fernando Alonso’, de altos salários, mas de carro ruim e pouco confiável e gestão ineficiente, foi seguido à risca pela Renault.
A Renault saboreou o amargo gosto do fracasso logo no início da temporada (Foto: Twitter)
Os testes de pré-temporada mostraram a Renault em um bom caminho, não somente pelos tempos aferidos em Barcelona, mas também pela confiabilidade mostrada pelo novo R.S.19 ao completar 959 voltas nas duas sessões na Catalunha, número inferior somente ao que foi alcançado por Mercedes e Ferrari.
 
A temporada em si, na Austrália, foi de sentimentos mistos para a Renault. Na classificação em Melbourne, Hülkenberg e Ricciardo ficaram fora do Q3 por pouco mais de 0s1, com a dupla sendo superada pela Racing Point de Sergio Pérez. Na largada, outro revés: correndo em casa, Ricciardo errou ao passar pelo trecho de gramado ao lado da reta, danificou o carro e abandonou voltas depois. Mas Hülkenberg entregou um resultado razoável ao terminar a prova na sétima posição.
Comandada por Cyril Abiteboul, a Renault teve um 2019 decepcionante na F1 (Foto: Renault)
A dura realidade foi encarada pela Renault a partir do GP do Bahrein e da pior forma: com seus dois pilotos perdendo chances de somar bons pontos nas voltas finais em razão de quebras de motor quase simultâneas. Talvez um dos mais azarados da F1, Hülkenberg estava em sexto quando viu a unidade de potência francesa abrir o bico. Segundos depois, foi a vez de Ricciardo abandonar. O motor — grande pivô do divórcio entre a Renault e a Red Bull no ano passado — voltou a deixar Hülkenberg na mão no GP da China, enquanto Ricciardo marcou seus primeiros pontos na temporada ao finalizar o GP 1000 da F1 em sétimo lugar.
 
Após as seis primeiras etapas, o desempenho da Renault era pífio: somente 14 pontos e oitava colocada no Mundial de Construtores, só à frente da Alfa Romeo e da zerada Williams. O cenário de crise já se desenhava pelos lados de Enstone.
O GP do Canadá foi um raro momento positivo para a Renault em 2019 (Foto: Renault)
Era preciso reagir, e com urgência. De certa forma, graças a um bom pacote de atualizações aerodinâmicas, o GP do Canadá marcou um momento diferente para a Renault, sobretudo com Ricciardo. Figura onipresente no top-10 desde o início dos treinos livres no Circuito Gilles Villeneuve, o australiano surpreendeu ao colocar o carro #3 na quarta posição do grid de largada, façanha que foi ainda maior por ter deixado para trás as Red Bull de Max Verstappen e Pierre Gasly e também a Mercedes de Valtteri Bottas.
 
A corrida reservou uma performance bastante sólida de Ricciardo, naquela que, até então, era a sua melhor atuação na temporada. Natural ter sido superado por Verstappen e Bottas, mas o sexto lugar no Canadá sugeriu o início de um novo e bom momento no ano.
 
Mas o que parecia ter sido um ponto de virada foi mais uma exceção no ano ruim da Renault, que chegou até a despontar com chances de arrancar seu primeiro pódio desde que voltou à F1 como equipe, mas naufragou no mar de azar de Hülkenberg, que errou em um momento capital no asfalto traiçoeiro de Hockenheim. O desfecho apagado e zerado no GP da Hungria, o último antes das férias de verão, fez com que a equipe de Enstone terminasse a primeira parte do ano somente em sexto no Mundial, com 39 pontos, milhas atrás da McLaren, com 82, superado pela Toro Rosso, com 43, e ameaçado até pela Alfa Romeo, então com 32.
 
Às vésperas do retorno da F1 para o segundo semestre, a Renault deu outro passo para reafirmar a sua ambição em voltar a ser grande na categoria. Depois de três anos, resolveu dispensar Hülkenberg para trazer sangue novo em 2020: Esteban Ocon. Em acordo costurado com a Mercedes, o francês assinou por duas temporadas para formar uma dupla de muito talento com Ricciardo. Hülk acabou sem vaga no grid do Mundial na próxima temporada.
Esteban Ocon foi contratado para substituir Nico Hülkenberg a partir de 2020 (Foto: Renault)
A volta das férias tinha tudo para ser desafiadora para a Renault por conta do déficit de potência do motor em circuitos de alta velocidade. Ricciardo ficou longe dos pontos depois dos incidentes no início da corrida, mas Hülkenberg salvou alguns pontos para terminar em sétimo. Mas ninguém, nem mesmo o mais fanático torcedor da equipe anglo-francesa, poderia esperar uma grande performance uma semana depois, em Monza.
 
Foi o melhor momento, de longe, da Renault na temporada. Em determinados estágios no fim de semana, a equipe teve o terceiro carro mais rápido, condição que Ricciardo e Hülkenberg mantiveram no treino classificatório. Depois de um incrível P2 de Hülk no Q1, a dupla da Renault garantiu a terceira fila do GP da Itália com Ricciardo em quinto e Nico em sexto. Excelente resultado mesmo levando em conta a punição imposta a Max Verstappen por troca de motor, com o holandês sendo relegado ao fim do grid.
A Renault garantiu seu melhor resultado conjunto desde que voltou à F1 no GP da Itália (Foto: Renault)
A grande performance dos carros aurinegros foi repetida na corrida. Com uma combinação que contou com um raro ótimo motor nas retas de Monza, grande atuação dos seus pilotos — sobretudo Ricciardo — e o erro que fez Sebastian Vettel ficar fora até da zona de pontuação, a Renault alcançou seu melhor resultado conjunto desde que voltou à F1 como equipe: quarto lugar para Daniel, seguido pelo seu companheiro de equipe. 22 pontos em um único fim de semana. Uma jornada muito bem-sucedida, algo que surpreendeu até mesmo Alain Prost — nomeado como CEO da Renault na F1 neste ano, mas que jamais se repetiu na temporada.
 
O restante do 2019 para a Renault foi de boas apresentações de Ricciardo, sexto colocado nos GPs do México e do Brasil, enquanto Hülkenberg já parecia estar mesmo em clima de despedida. Mas o pior para a escuderia de Enstone nem foram os resultados, bem inferiores aos da McLaren e da Toro Rosso, que subiu ao pódio. Fato é que Clotilde Delbos, CEO interina da montadora, revelou que o projeto da marca na F1 vai passar por uma profunda revisão interna, de modo que a permanência no esporte depois de 2020 é incerta.
 
Com investimentos maciços, um comandante pra lá de contestado e resultados pífios desde que voltou à F1, a Renault corre o risco de, mesmo oferecendo polpudos salários a seus pilotos, sair novamente de cena da categoria, algo até recorrente na história da montadora no grid, de idas e vindas. O que não condiz em nada com a história gloriosa da marca diamante é justamente a passagem murcha e repleta de fracassos que caracteriza a gestão sob responsabilidade de um dirigente que parece, dia após dia, nada ter a acrescentar para que a Renault volte a viver dias grandiosos na F1.

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