Retrospectiva 2020: Ricciardo puxa Renault. Mas nem pódio apaga ano medíocre de Ocon

Após um 2019 extremamente decepcionante, a Renault, com Ricciardo e Ocon, recuperou-se com o melhor ano desde que retornou ao grid da Fórmula 1 como equipe oficial

A Renault é para valer! É uma afirmação muito séria a ser feita, mas 2020 mostrou um ano de acertos da fábrica francesa desde que regressou à Fórmula 1 como equipe de fábrica. O motor e o carro se encontraram, o resultado na pista foi visível e o duelo de meio de pelotão foi encorajador para o futuro. A interrogação agora é do que será a fase Alpine comandada por Fernando Alonso e que terá Esteban Ocon mantido nos quadros.

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O leitor que começa a ler este texto de retrospectiva e recebe algo como um desejo de boas-vindas logo no primeiro parágrafo pode até se assustar. Afinal, a Renault não ficou com o quarto lugar do Mundial de Construtores em 2018? Melhor que o 2020, então, certo? Não.

Bom, por partes. Sim, é verdade que a classificação final de 2018 foi melhor que a de 2020. Olhemos, entretanto, para algumas particularidades daquela campanha. A Renault foi batida por Mercedes, Ferrari e Red Bull, normal. A maior rival do meio do pelotão era a Force India, que vinha sendo a quarta força da F1 nos anos anteriores. Mas 2018 foi um ano especial: a crise financeira no time anglo-indiano era brutal e terminou num redemoinho contido apenas com a venda da equipe para o consórcio de Lawrence Stroll – antes disso, chegou a ficar em administração judicial. Com isso, a Force India perdeu os pontos que havia conquistado até aquele meio de temporada. Sim, é verdade, juntando a pontuação pré e pós venda, a Renault ainda venceria por 11 pontos. Considerando a situação, pouco.

A McLaren seguia em estado de letargia absoluta e não era capaz de ser competitiva, tão pouco a Toro Rosso, com um de seus piores carros da última década. A rival real pelo quarto lugar? A Haas! Com orçamento apertado, sem grandes patrocínios e toda a estrutura que afundou nos anos seguintes, com a mesma chefia e pilotos. Com 122 pontos e nenhuma corrida terminada entre os quatro primeiros, a Renault foi nada mais que regular e bastante enfadonha.

2020 foi totalmente diferente. A Ferrari caiu num buraco, verdade, mas conseguia ao menos duelar no meio do pelotão, enquanto a AlphaTauri era outra postulante firme daquele trecho do grid. McLaren e Racing Point eram as grandes rivais: os ingleses com a estrutura do ano passado, onde evoluíram agressivamente enquanto a Renault se afogava; a ‘Mercedes rosa’ com seu desenho de monoposto desenhado à imagem do carro campeão do ano anterior. A briga era complicada.

Daniel Ricciardo teve o tão aguardado primeiro pódio da Renault (Foto: Renault)

E, então, uma surpresa: o carro era bom e o motor se apresentou bastante potente. Além disso, o que fez tudo cintilar em amarelo vivo foi o desempenho de Daniel Ricciardo. Mesmo com o anúncio, ainda antes da temporada atropelada pela pandemia do novo coronavírus, de que sairia para a McLaren em 2021, o australiano estava no auge de seus poderes. Após um 2019 apagado, deixou na pista e nos boxes tudo aquilo pelo que a Renault assinou enormes cheques no fim de 2018.

Ricciardo tirou tanto que se pôs na quinta colocação do Mundial de Pilotos, com 119 pontos. Perceba que Daniel, sozinho, ficou a três pontos de igualar a marca da equipe no quarto lugar de 2018. Tirando o abandono por superaquecimento de freios na Áustria e corridas complicadas no GP dos 70 Anos e na Catalunha, foi aos pontos em todas as outras 14 corridas. E buscou algo que a equipe ainda não tivera desde o renascimento, em 2016: o pódio. Bancou a aposta com o chefe Cyril Abiteboul: um pódio do piloto, uma tatuagem da chefia. O dia chegou no GP de Eifel, em Nürburgring, e foi reforçado no GP da Emília-Romanha, Ímola.

“Voltamos [como equipe de fábrica] em 2016. [O pódio] demorou um pouco, sofremos muitas críticas. Mas mostramos compromisso com o esporte, também a capacidade de progredir e, finalmente, de chegar a essa posição. É claramente é um momento emocionante, uma sensação muito boa”, disse Abiteboul. “Esse pódio não é o objetivo final da nossa jornada na F1, até porque uma montadora quer mais do que isso, mas é importante ter o primeiro. Esse primeiro pódio é um momento especial”, disse o chefe Cyril Abiteboul após o primeiro pódio.

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“É importante ter em mente que crescemos enormemente [em funcionários]. Muitas das pessoas que passaram a fazer parte da equipe são jovens que nunca tiveram a emoção de vencer ou de ir ao pódio. Precisamos disso. Precisamos que eles viciem em sucesso para que se desenvolvam mais, para que tenham mais sucesso”, arrematou.

Ricciardo foi tudo o que se esperava. Consistente, rápido e ótimo nas ultrapassagens, forte no desenvolvimento e o rosto de relações públicas da fábrica. Tão forte que foi, agora Ricciardo vai para a McLaren e cria um problema para Fernando Alonso, que assumirá sua vaga em 2021. O bicampeão, aos 40 anos, terá de andar tanto quanto Daniel mesmo num carro feito para o australiano numa temporada em que os bólidos terão modificações limitadas, por conta a revolução de 2022. A corrida fantasma de Alonso contra Ricciardo será uma das atrações do ano vindouro.

“Acho que não há dúvidas em relação ao progresso do time neste ano. E isso é muito crédito de Daniel, que claramente liderou a equipe e tem por trás dele um grupo de pessoas e de mecânicos e engenheiros que estão fazendo um trabalho extraordinário. Daniel é um grande embaixador, um líder para a equipe. Ele, claramente, foi instrumental para as mudanças que fizemos no ano passado, quando tivemos um ano decepcionante. Somos muito diferentes do que éramos há dois anos e meio”, admitiu Abiteboul após a última corrida do ano.

Ocon celebra o primeiro pódio na F1, com a Renault, no anel externo de Sakhir (Foto: Renault)

Por outro lado, é difícil saber o que pensar de Esteban Ocon. De volta ao grid após uma temporada de ausência, o francês era tido como um dos grandes talentos da nova geração e acabou, indubitavelmente, ficando para trás na linha sucessória da grandeza. Numa temporada em que Pierre Gasly, Charles Leclerc, Lando Norris e George Russell, para ficar em alguns, tiveram alguns momentos dignos de celebração, Ocon foi opaco.

Para o grande público até as lembranças da grande exibição no anel externo de Sakhir, que também rendeu pódio para si, e da classificação surpreendente na chuva do GP da Estíria acabam passadas para trás. O que fica, então? O fato de ter andando atrás de Ricciardo o ano todo.

É um tanto quanto injusto que se lembre dos problemas de Ocon, com ano também assolado de questões de confiabilidade da Renault, e se esqueça os piores momentos dos outros. Mas por que acontece do mesmo jeito? Talvez pela falta de carisma geral de Esteban, que não conta com uma fandom para si como os Mosqueteiros da Twitch.

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O juri ainda está a avaliar a passagem de Ocon pela Renault. Primeiro, porque foi uma estreia em ano tão complicado; depois, pelo fato de Ricciardo estar absolutamente inspirado ao longo do ano. Ocon não teve vergonhosos erros, simplesmente não rendeu tanto quanto o companheiro. Por isso, a comparação dele com Alonso em 2021 será tão fundamental para a sequência de sua carreira. Curioso é que Ocon mais pontos em 2020 que os dois pilotos do quarto lugar de 2018, Nico Hülkenberg e Carlos Sainz. E é facilmente argumentável que foi melhor neste ano que Sainz naquele. Que se note, então, como o espanhol, dois anos mais velho, cresceu com tempo para amadurecer e o trabalho no lugar certo.

Agora, a Renault entra em nova fase. A divisão esportiva se torna Alpine de vez, rebatizada e sob nova direção. O presidente Jérôme Stoll já está fora, mas tudo indica que Abiteboul continuará. Resta saber se, diferente de 2019, a equipe consegue aproveitar as fundações de um ano bem-sucedido para crescer de vez.

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