Retrospectiva 2020: Ferrari cai em desgraça com pior motor da F1 e passa vergonha

A Ferrari teve a pior temporada 40 anos de Fórmula 1. Não foi capaz de vencer e terminou o ano em uma fraca sexta colocação. A crise em Maranello se fez, e o campeonato foi marcado por um projeto ruim, erros de estratégia e operação, além da falta de liderança

“Não posso aceitar mais um ano como esse”. A frase foi dita por Mattia Binotto, o chefão da Ferrari, ao fazer um balanço da estranha temporada que acabou em Abu Dhabi, há pouco menos de duas semanas. A sentença dá uma boa ideia do fracasso que foi o campeonato dos italianos em 2020. A Scuderia não vivia uma temporada na Fórmula 1 tão ruim desde 1980. Naquela ocasião, o time vermelho terminou apenas na décima colocação. De lá para cá, a tradicional equipe até atravessou crises profundas, mas nunca mais enfrentou uma condição tão sofrível como a de agora. De tão complexa, pareceu nem ter fim.

Em um ano atípico por conta dos efeitos devastadores da pandemia, a Ferrari precisou lidar com um projeto que se mostrou desastroso desde o primeiro instante. A SF1000 – modelo que ganhou esse nome em referência às 1.000 corridas na F1 que a esquadra comemorou no GP da Toscana – apresentou defeitos crônicos no chassi e no pacote aerodinâmico, mas o que tornou mesmo a vida dos ferraristas mais difícil foi a unidade de potência.

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Em 2019, a equipe havia desenvolvido um motor forte e potente, mas que acabou investigado por irregularidades. Mesmo sem conseguir provar as violações da Ferrari, a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) puniu os italianos por meio de um acordo secreto, após o fim da temporada. Ninguém jamais explicou os termos desse acerto, mas o fato é que a esquadra de Maranello sofreu uma acentuada queda de performance, não foi capaz de vencer ou reagir.

Ainda, o impacto desse tratado com a entidade máxima do esporte deixou o time com o pior motor do grid, o que também afetou as duas parceiras: Alfa Romeo e Haas, que também viveram um ano para esquecer.

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Sebastian Vettel enfrentou uma temporada difícil em 2020 (Foto: Reprodução/F1)

Só que como desgraça pouca é bobagem, a Ferrari também pecou por escolhas equivocadas. E a primeira delas talvez tenha sido a decisão de que não renovaria o contrato de Sebastian Vettel para 2021, antes mesmo do campeonato ter início – inclusive assinou com Carlos Sainz na sequência do anúncio sobre o tetracampeão. E ao dizer que não queria mais os serviços do alemão, acabou também por tirar a motivação e o interesse do piloto. Outras dificuldades enfrentadas pela Scuderia foram com relação à operação em pista e estratégia, além da nítida falta de liderança do chefe Mattia Binotto, que precisou reorganizar todo o setor técnico da equipe, impondo mais responsabilidade aos departamentos de aerodinâmica, chassi e motor. Apesar da nova hierarquia, nenhum nome chave foi demitido.

Por muitas vezes, Binotto tentou tampar o sol com a peneira, buscando convencer de que a Ferrari não estava em crise, que era apenas uma má fase. Só que a cobrança pelos resultados ruins só crescia. Depois de um começo de temporada até animador, na Áustria, a equipe sofreu com o abandono duplo na segunda passagem pelo circuito dos energéticos, se recuperou na Hungria, foi ao pódio na Inglaterra e depois atravessou uma fase sem pontuar, para então ter desempenhos apenas regulares até a Turquia. Mas tudo isso marcado por erros de táticas e falhas dos pilotos também.

Por outro lado, mesmo diante de dificuldades em obter velocidade de reta e equilíbrio em curvas – a primeira corrida da temporada, na Áustria, ficou muito claro, por meio das câmeras on-boards, que os dois pilotos tinham enorme trabalho para manter o carro na pista, para fazer curva, até –, a esquadra vermelha foi capaz de apresentar alguns brilharecos de desempenho, especialmente com Leclerc.

O monegasco subiu no pódio em duas oportunidades nas quatro primeiras corridas do ano. Na primeira no Red Bull Ring, aproveitou toda a confusão da corrida austríaca para cruzar a linha de chegada na segunda posição. Na Inglaterra, cuidando bem dos pneus, foi terceiro. O jovem piloto ainda mostrou grande performance em classificação. Mesmo com um carro que perdia muito em velocidade final, Leclerc foi capaz de voltas espetaculares, para colocar a Ferrari mais à frente no grid. Talvez o mais impressionante tenha sido em Sakhir, no rápido anel externo, em que cravou o quarto melhor tempo do Q3.

A verdade é que Charles provou em 2020 que é digno da confiança da Ferrari e que pode, sim, liderar a equipe, como parece ser o plano dos italianos, que o tem sob contrato até 2024. O piloto de 23 anos se apresentou resiliente e focado, entregou resultados importantes, mesmo com um carro difícil. E ofuscou Vettel, ao terminar a temporada com 65 pontos a mais que o companheiro, na oitava posição do Mundial de Pilotos.

Para a corrida 1.000 de sua história, a Ferrari voltou ao passado e escolheu uma pintura mais escura para celebrar o feito (Foto: Ferrari)

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Já Seb enfrentou mais problemas para se adequar à SF1000. Em classificação, tomou de 13 x 4 de Leclerc, sendo o melhor resultado em grid o quinto lugar. Foram apenas três aparições no Q3, enquanto o colega de Ferrari disputou 11 vezes a fase final da sessão que define as posições de largada. Em corrida, Vettel só foi ao pódio na Turquia – aliás, a corrida em Istambul, em um circuito escorregadio e traiçoeiro, mostrou um dos únicos pontos fortes do conjunto italiano: o melhor trato com os pneus. Foi o melhor fim de semana da Scuderia no ano. Leclerc completou a prova em quarto, apesar de um erro na volta final.

Só que a temporada foi tão cruel com o alemão, que por vezes se viu em brigas com a Alfa Romeo e a Williams.

Portanto, mesmo diante dos esforços dos dois pilotos, essa irregular Ferrari não teve fôlego para entrar em uma batalha mais intensa no pelotão intermediário, apesar dos pódios. A equipe teve problemas para desenvolver o pacote aerodinâmico, chegou a trazer um novo assoalho e outras mudanças nas asas, mas o estrago já estava feito. Dessa forma, a Scuderia teve de se contentar com a sexta posição entre os Construtores, com 131 pontos. Na ferrenha briga do bloco do meio, só venceu mesmo a AlphaTauri. Alfa Romeo e Haas sequer tiveram chance, também prejudicadas pelo fraco do motor ferrarista.

A reestruturação foi importante, mas os frutos provavelmente só serão conhecidos em 2021, quando o time terá a oportunidade de trabalhar melhor com a unidade de potência. A esperança italiana de um ano mais competitivo também mora no rejuvenescimento a dupla de pilotos, com a chegada de Sainz, que fez ótima temporada com a McLaren.

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