Retrospectiva 2020: Hamilton marca ano com protestos e força Fórmula 1 a debater racismo

Lewis Hamilton é o maior vencedor da história da Fórmula 1 — assim, ninguém tem mais voz que ele, e por isso ele cravou o racismo como assunto obrigatório dentro da categoria

Esporte é política. Pronto, a frase já abriu este texto, então quem não consegue compreender tal fato, já abandonou a leitura. A quem ficou, é preciso reiterar: desde que inventado, o esporte é um componente da política — e, desde sempre, um dos em que suas nuances são mais expostas. Na Fórmula 1, a falta de pilotos negros em sua história é uma nuance das mais lamentáveis. Por isso, quando Lewis Hamilton trouxe o assunto racismo durante toda a temporada 2020 para a pista da maior categoria do automobilismo mundial, ele fez política. Das melhores. Mas é só o início.

Ele não vai parar, ele não vai desistir. Hamilton já deixou claro que a FIA e a F1 podem tentar coibi-lo, mas que vai seguir dando luz ao que crê ser o correto. Não ser racista não basta: é preciso ser antirracista. E a Fórmula 1, predominantemente branca, precisa fazer mais.

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Lewis Hamilton se engajou na luta contra o racismo neste ano (Foto: Mercedes)

A motivação para o heptacampeão do mundo fazer mais e mais, é claro, vem também do tamanho que conquistou: com sete títulos, quem irá tentar barrá-lo? Mas, muito além disso, vai da noção de mundo que Hamilton tem. Ele sabe que policiais invadiram a casa de Breonna Taylor e a mataram sem motivo; ele sabe que um policial assassinou George Floyd de forma puramente covarde; ele sabe que não são casos isolados. Hamilton acompanha seus iguais sofrerem todo dia, e sabe que tem voz que ecoa por todos os cantos do planeta.

Além das ações de fato, muito do que Hamilton pode fazer vai do visual. Levantar o punho cerrado, como os Panteras Negras, suar camisetas com mensagens, se ajoelhar antes de cada corrida e trazer consigo outros pilotos que têm noção de como é importante apoiar a luta – e expor os tantos outros que se recusam a ajudar, fazendo apenas papel de figurante e entregando seu caráter verdadeiro.

Por isso, uma das provas do tamanho de Hamilton é conseguir mudar a cor da Mercedes: a famosa flecha de prata foi preta em 2020, e assim seguirá para o ano que vem – mesmo que Valtteri Bottas consiga reclamar até disso.

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A Mercedes trocou de cor em 2020 – e em 2021, também (Foto: Mercedes)

Toto Wolff, em coletiva com participação do GRANDE PRÊMIO, deixou claro que está ao lado de seu piloto: “Quando o movimento Black Lives Matter começou, após os acontecimentos nos EUA, nós sentimos que era uma boa oportunidade também nós mostrar a nossa luta contra o racismo.”

“As Flechas de Prata sempre foram uma marca dos carros da Mercedes, mas nós decidimos mudar porque isso é muito importante para nós e está muito perto do nosso coração. Quer dizer, mostrar o quanto estamos comprometidos com isso.”

“Não é algo de uma vez, mas algo que nunca fizemos antes, com as pinturas dos carros de preto, e isso é uma mensagem para o mundo que se você quiser mudar, você pode mudar. E que qualquer coisa que possa fazer contra o racismo, você deve fazer. Estamos muito alinhados com Lewis nisso”, completou Wolff.

Aliás, nem importa que, talvez, as pessoas na Mercedes não comprassem a briga por um piloto de qualidade, talento menores. Hamilton existe e manda e desmanda – porque dá resultado. Ou seja: ele pode.

E ele não precisa mandar diretamente: o debate se tornou obrigatório no esporte – inclusive no GRANDE PRÊMIO, diversas vezes durante o ano -, porque tudo que Hamilton faz é assunto. Então não há fuga para a F1. Ela precisa abrir espaço e, ao menos, assumir seus erros – ou melhor, incapacidade – do passado e da atualidade. Se vai corrigi-los, é uma outra discussão, mas é impossível negar que a categoria nunca fez nada.

Isso passa por seus dirigentes, e pela bolha que a F1 vive: o mundo dos ricos, sem noção das dificuldades do mundo real. Quando Hamilton fala e/ou age, ele expõe tal falta de conhecimento, mas nem sempre do jeito ideal. Qual o lado problemático? Quando pessoas antiquadas como Bernie Ecclestone resolvem palpitar, mostrando que nunca fizeram questão de abrir seus horizontes.

Ou quando personagens irrelevantes, como Vitaly Petrov, ressurgem das cinzas para mostrar que os ratos seguem vivos por aí. E destilam ódio contra causas LGBTQ+ e negras. Bem, ao menos Hamilton vai lá e as coloca no lugar: o vazio, o nada, a semi-inexistência. Que se calem.

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A Fórmula 1 não pode mais se isolar completamente do mundo: não adianta dizer que meritocracia existe, ou que a maioria em suas pistas e autódromos ser formada por brancos é acaso. O maior vencedor de sua história é negro. E o maior vencedor de sua história diz que precisa de mais espaço. A F1 precisa baixar a cabeça e ouvir. E agir – de acordo com o que Hamilton quer. Ele esá certo.

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