Retrospectiva 2020: Grosjean protagoniza cena do ano na F1 e deixa grid como herói

Alívio cômico? Romain Grosjean sai da Fórmula 1 com a última impressão de ser absolutamente invencível

Até o começo de dezembro, muita gente diria que Romain Grosjean deixava a Fórmula 1 como um demitido qualquer, que recebeu o bilhete azul e deixaria poucas saudades. Isso se alguém ficasse saudoso do antigo colega. Mas o fim do ano ofereceu algo muito maior. O acidente que quase matou Grosjean transformou o piloto francês numa espécie de símbolo: o dos sucessos da luta pela vida dos pilotos profissionais. Assim, Romain deixa a Fórmula 1 com os contornos de figura invencível.

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O que aconteceu, os leitores provavelmente lembrar bem, foi um acidente na primeira volta do GP do Bahrein. Na noite barenita, uma manobra do piloto da Haas fez com que tocasse Daniil Kvyat e fosse em direção ao guard-rail. O carro bateu com enorme força e se arrastou e se tornou uma bola de fogo. A bandeira vermelha imediata completou o momento apavorante.

Demorou pouco entre a cena do incêndio e as imagens de Grosjean sendo amparado pelos membros do carro médico, mas pareceu pequena eternidade dentro das circunstâncias. As imagens seguintes, com o piloto aparecendo de dentro da bola de fogo, atrás do guard-rail varado e destruído pelo carro #8, foram algumas das mais fortes já vistas.

David Purley sinaliza pedindo ajuda para salvar Roger Williamson (Foto: Reprodução/Reddit)

É irresistível colocar duas situações lado a lado. No GP da Holanda de 1973, Roger Williamson sofreu um furo de pneu, perdeu o controle do carro e capotou. O carro, um March, parou de ponta cabeça. Williamson não se machucou gravemente com o impacto, mas o carro pegou fogo e, com o cockpit para baixo, não conseguiu sair do carro. David Purley viu o acidente, encostou seu bólido e correu desesperado em direção ao acidente. Tomou um extintor de incêndio e usou até o fim no carro. Buscou mais, não havia. Sinalizou para outros pilotos pararem também, mas a impressão era de que Purley pedia ajuda para salvar o próprio carro, não uma vida de outro piloto. Ninguém mais parou.

Mesmo com a ajuda de Purley, os fiscais não puderam se aproximar e efetivamente trabalhar para salvar o piloto. Não tinham roupas corta-fogo, treinamento ou o bastante em termos de extintor. Purley contaria mais tarde que ouviu Williamson gritando de dentro do carro. Quando os bombeiros chegaram e interromperam o incêndio, Roger Williamson sufocara até a morte. Tinha 25 anos.

Aqueles anos 1970 apresentaram o começo de um movimento mais firme sobre o aumento da segurança dos pilotos nas pistas do mundo. Os circuitos, em si, foram tornados bem mais seguros para espectadores após a grande tragédia de Le Mans, em 1955, mas os pilotos ainda estavam à deriva. Entre 1970 e 1979, mais de uma década de pilotos e fiscais morreram em eventos oficiais e não-oficiais da Fórmula 1. A luta pela segurança, encampada inicialmente por Jackie Stewart, ecoada por Niki Lauda e assumida como regra com o passar dos anos, entendia que aquilo não podia continuar.

A chocante imagem do carro de Grosjean partido ao meio (Foto: AFP)

Os esforços tiveram efeito óbvio. Desde 1980, menos de uma dezena de pessoas morreu em eventos oficiais do Mundial de Fórmula 1 – cinco deles, pilotos. Mas os esforços continuam ano após ano, década atrás de década, porque o aperfeiçoamento da segurança é parte da evolução. Assim como as pessoas se divertiam com lutas de homens contra leões em determinado momento da história, assistir pessoas encarando a morte o tempo inteiro numa caixa de metal mais rápida que o juízo permite pode ter sido parte do encantamento do esporte a motor em algum momento da história. Mas a história, às vezes, tem de ficar apenas nos livros. O mundo avança e o passado não tem mais lugar.

Se você quiser ver a luta de um humano contra um leão por puro delírio sanguinário no século XXI, isso te faz um pária. Precisa ser o mesmo para quem quer saciar o desejo de entretenimento com a morte alheia nas pistas.

O fato de Grosjean ter saído praticamente ileso, apenas com queimaduras nas mãos e um tornozelo contundido, de uma batida tão violenta como a da Sakhir, é a aprovação dos diferentes procedimentos de segurança postos em estudo, discussão e prática ao longo das últimas décadas. A segurança da bolha de sobrevivência, intacta mesmo após batida e incêndio; as roupas do corpo, das mãos e dos pés, e o capacete, extremamente úteis contra impactos e fogo, que permitiram ao francês resistir por mais de 30 segundos dentro do carro em chamas e sair por conta própria; os procedimentos de segurança, com o carro médico no grid de largada junto aos bólidos e chegando ao acidente apenas alguns segundos após a batida.

Se apenas um destes aspectos não agisse perfeitamente como o esperado naquele momento, Grosjean provavelmente estaria morto.

Mesmo com tudo isso, entretanto, é quase certo que Grosjean teria sido vítima falta do acidente do Bahrein antes da temporada 2018. O halo, proteção de cockpit que entrou em cena em 2018 e foi tão escorraçado por questões tão superficiais quanto a estética, manteve o cockpit protegido e a cabeça intocada quando o carro o varou o guard-rail e foi dividido em dois. Em outros tempos, sem o halo entre o corpo e a barreira de metal, o desfecho teria sido muito diferente.

Mas os procedimentos estavam todos aperfeiçoados, felizmente, e o halo funcionou. Marion tem um marido, Sacha e Simon vão aproveitar o pai por muito tempo. A história é de alívio e com final feliz.

Grosjean teve uma década de Fórmula 1, foi a dez pódios e cometeu, sim, uma pá de erros. Viveu longas sequências em que parecia deslocado da atividade de piloto do mais alto nível. Tudo isso para dizer que a imagem definitiva da carreira não será o acidente na Bélgica 2012 ou o algum dos pódios. Será a figura de Romain deixando o fogo, imaculado.

A queimadura na mão, mas tudo OK (Foto: Reprodução)

A vida do francês é a fotografia do sucesso da busca da Fórmula 1 por segurança ao longo do último meio século e que precisa continuar, porque nunca termina. O retrato da invencibilidade de Romain o fará companhia para sempre.

A morte de Roger Williamson é inesquecível por gritar sobre tudo que havia errado, mas a sobrevivência de Romain Grosjean é impossível de deixar para trás por todos os motivos corretos. É bom que os acidentes inacreditáveis, ainda possíveis na F1 contemporânea, terminem diferente daqueles de outros tempos. Os pilotos têm chance de ir para casa depois deles.  

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