F1

Retrospectiva F1 2018: Verstappen brilha, Ricciardo deixa cena e Red Bull vive como Fantasma da Ópera

A temporada 2018 foi um tanto quanto solitária durante boa parte. Mercedes e Ferrari estavam uma prateleira acima, enquanto o resto das equipes estava ao menos duas prateleiras abaixo. Para subir ao pódio e vencer corridas – foram três vitórias no ano – a equipe precisou contar com o brilho individual dos pilotos ou momentos em que o conjunto chassi e motor Renault embalou o suficiente aos domingos para abalar as estruturas do status-quo da F1
Warm Up / PEDRO HENRIQUE MARUM, do Rio de Janeiro
 Max Verstappen (Foto: Getty Images/Red Bull Content Pool)
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Como é a vida de um fantasma? Há quem diga que fantasmas não têm vida, já que estão, por definição, mortos. Mas essa é a regra e, como todo mundo sabe, para cada regra existe uma exceção. Nesse caso, a Red Bull. Um fantasma por quase todo um campeonato em que esteve bem abaixo de Mercedes e Ferrari, mas foi extremamente superior ao resto do pelotão, a Red Bull foi o fantasma da F1. Às vezes pego na pista por um brilhareco de um dos seus pilotos, uma confusão ou em raros momentos em que, como o Fantasma da Ópera, deixou as catacumbas para assombrar na pista. Ou no palco.
 
Durante o curso do Mundial 2018, os lugares naturais da Red Bull eram o quinto e o sexto. Nunca menos que isso, mas algumas vezes mais. Na China, por exemplo, a fraqueza do treino classificatório se transformou em força do domingo. Em Mônaco, ao contrário, o time dos energéticos controlou todo o fim de semana. Nas duas oportunidades, vitórias de Daniel Ricciardo. 
 
Para quem começara o ano como Patinho Feio da disputa pelo título, a Red Bull somava as mesmas duas vitórias que Ferrari e Mercedes e começava a sonhar com o “e se…”. 107 pontos contra 178 da Mercedes e 156 da Ferrari não parecia tão inglório, bem como os 72 pontos que colocavam Ricciardo no terceiro lugar do campeonato, atrás dos 96 de Sebastian Vettel e dos 110 de Lewis Hamilton.
Daniel Ricciardo (Foto: Xavi Bonilla/Grande Prêmio)
O que a dupla da Red Bull conseguia era beliscar os lugares deixados por alguns dos quatro pilotos das rivais mais poderosas. Além das vitórias, Ricciardo chegou a mais um top-4 – na Austrália – nas seis primeiras corridas. Max Verstappen conseguira apenas o terceiro posto na Espanha. O grande problema até aí e que freava a possibilidade de entrar na disputa era o número de abandonos.

No Bahrein, os dois já haviam tido problemas elétricos e mecânicos nas três primeiras voltas; depois, no Azerbaijão, os dois disputavam a quarta colocação com vigor e trocavam de posições diversas vezes quando, na 40ª volta, Ricciardo tentou ultrapassar novamente após perder a posição no pit-stop e a defesa de Verstappen causou uma batida que tirou ambos da prova. Christian Horner ficou nervoso e obrigou sua dupla de pilotos a pedir desculpas para os funcionários da Red Bull. Depois, publicamente, disse que se tratava de algo “inaceitável”.
 
Nas três provas seguintes ao GP de Mônaco, a dupla da Red Bull seguiu mordiscando o top-4 insistentemente. Verstappen fez três pódios: P3 no Canadá, P2 na França e vitória na Áustria, após classificar em quinto e ver a Mercedes sofrer o primeiro abandono duplo por motivos mecânicos desde que voltou à F1, em 2010. Ricciardo também seguiu bem e descolou P4 duas vezes, mas abandonou na Áustria com problema no exaustor. 
 
O problema na Áustria iniciava um périplo para o australiano. Contando da prova na casa da Red Bull em diante, foram quatro abandonos nas seis provas seguintes – cinco nas dez seguintes – quase sempre por questões que nada tinham a ver consigo e sua maneira de pilotar. 
Max Verstappen (Foto: Getty Images/Red Bull Content Pool)
No meio dessa sequência, logo depois da F1 entrar de férias de meio de temporada, um anúncio-bomba: Ricciardo, que tinha contrato até o fim de 2018 e já falava da aproximação de um acordo de renovação, anunciou: estava indo para a Renault no fim do ano. Como Max Verstappen tinha contrato renovado, a Red Bull estava na pista para mais um nome – que era evidentemente Pierre Gasly, embora o suspense tenha sido mantido por algumas semanas. 

Enquanto Ricciardo tinha enormes dificuldades com o motor exatamente produzido pela Renault, Verstappen via as coisas de forma totalmente diferente. O último abandono dele no ano veio na Hungria, última prova antes do recesso. Nas nove corridas finais do ano, jamais ficou fora do top-5. Foi quinto colocado duas vezes e subiu ao pódio em incríveis sete oportunidades. Venceu no México pelo segundo ano seguido e tinha nas mãos a vitória no GP do Brasil até o acidente que virou briga posterior com o rival Esteban Ocon. 
 
Max deu um gosto como nunca antes do que pode fazer pela Red Bull caso não tenha um carro vencedor. E não é difícil fazer uma conexão entre esse crescimento na consistência do holandês e o anúncio da saída de Ricciardo, até hoje uma pedra constante no sapato de Verstappen. Agora, soberano na equipe terá Gasly como um companheiro que, embora talentoso, ainda é visto como um segundo piloto. Uma opção emergencial para tapar o buraco deixado por Ricciardo. Gasly não subiria, ao menos por enquanto, não fosse de outra forma.
 
O começo das duas vitórias não se repetiu na metade do campeonato em que Ricciardo anunciara a saída da Red Bull. Fez apenas dois quartos lugares: no Japão, Brasil e Abu Dhabi. Embora tenha, sem qualquer sobra de dúvida, pilotado melhor que isso. 
Max Verstappen e Esteban Ocon (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)
Ricciardo avistou algo que ainda era motivo de negação para bastante gente: Verstappen é visto pela equipe como o piloto que tem mais chances de levar o time à terra prometida.Talvez não toda a equipe, que certamente é mantida mais honesta pela corrente de Christian Horner. Mas o lado de Helmut Marko, o guru dos pilotos energéticos, certamente põe suas fichas e atenções em Verstappen.

Agora, as fichas estão lançadas para os dois, que durante dois anos e meio de parcerias trocaram bons e maus momentos quase que sempre. Verstappen espera um carro campeão da Red Bull, enquanto Ricciardo parte para uma Renault que pretende seguir a toada de crescimento dos últimos três anos até, quem sabe, vencer corridas na F1. Se der certo, o australiano tem tudo para ser o capitão do projeto – seu companheiro será Nico Hülkenberg que, apesar de certamente um piloto muito acima da média e que dará desafio a Daniel, ainda não possui sequer um pódio na F1 e não tem o talento natural de Verstappen.
 
Para a Red Bull, a ficha é simples: trabalhar ao lado da Honda de forma a ressaltar as forças do motor japonês da nova parceira. Ninguém duvida que o chassi da equipe austríaca é campeão, mas para dar o próximo passo é necessário ajudar a fornecedora de motores a produzir um conjunto que também seja capaz de levantar troféus. 
 
A Red Bull precisa ter a capacidade de transformar a Honda a fórceps. Precisa tirar do bolso a identidade da campeã que provou ser num passado não tão distante e bagunçar o status-quo dominado por apenas poucas poderosas. Precisa, numa comparação entre famosos personagens franceses, largar o Fantasma da Ópera e se comportar mais como Jean Valjean.