Saída da Honda escancara dificuldade de atrair montadoras e deixa F1 no divã

A saída da Honda é notícia ruim para a Red Bull, mas ainda pior para a Fórmula 1. A categoria volta a ver que não atende desejos da indústria automotiva, que gamou em carros elétrico e não se importa muito com o V6 Turbo. Depois de mexer no regulamento aerodinâmico, é crucial pensar em novas unidades de potência

A Fórmula 1 viveu semanas de tranquilidade e otimismo nos últimos tempos. A assinatura do novo Pacto de Concórdia trouxe a sensação de estabilidade, o que indicava a categoria uma categoria indo na direção certa. Só que isso já virou coisa do passado: a Honda anunciou que sua saída do certame em 2021, o que revive um clima indesejado. Afinal, o que a categoria precisa fazer para voltar a ser uma boa para as grandes montadoras?

O motivo para essa pergunta fica claro ao analisar a situação da Red Bull, orfã de motor com a saída da Honda. É que restam três possíveis parceiras, e nenhuma delas é realmente boa. Mercedes e Ferrari não vão dar motor para uma rival direta por vitórias e pódios, enquanto a Renault significaria reviver dramas de um divórcio conturbado em 2017. A saída natural seria buscar uma nova montadora disposta a entrar na F1, mas não aparece ninguém realmente disposto a embarcar nessa aventura. As unidades de potência são caras e, como a própria Honda mostrou, leva tempo até o investimento dar retorno.

Sem a Honda, a F1 fica com apenas três fornecedoras de motor (Foto: Reprodução)

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Se é ruim para a Red Bull, imagine para a F1 como um todo. Temos um princípio de crise global que vivemos em 2020. A pandemia do coronavírus atingiu essencialmente todos os setores da sociedade, mas foi ainda mais duro para os de transportes. No caso, incluindo o automotivo e principalmente o de carros de luxo. O sonho de ver uma gigante como a Volkswagen, mesmo que através de Audi ou Porsche, ficou ainda mais distante.

Algum leitor mais atento poderia argumentar que a F1 atraiu, sim, uma montadora. Afinal, a Aston Martin entra no grid em 2021. Isso é verdade, mas não da forma como se imagina. A marca britânica tem um envolvimento de fachada, que serve mais como marketing do que necessariamente um envolvimento técnico. Basta olhar para o novo diretor-executivo da marca britânica, Lawrence Stroll, e fica claro o que está acontecendo com a Racing Point. Em outras palavras, o motor da equipe atualmente rosácea segue Mercedes, já que não há projeto de desenvolver algo próprio.

Sem sequer interesse claro de uma possível nova fornecedora de motores, a F1 fica posta contra a parede. É que apenas três marcas desenvolvendo unidades de potência é um número perigosamente baixo. Basta apenas uma de Mercedes, Ferrari ou Renault tomar uma decisão tão surpreendente quanto a da Honda que a categoria inteira começa a se aproximar de um colapso. Dá para tocar um campeonato com três motores, mas não dá com dois. Basta uma olhada para os momentos mais saudáveis do certame que se percebe uma grande diferença. Um exemplo claro é o começo dos anos 2000, quando Toyota, BMW e Cosworth também davam o ar da graça.

A nova preocupação surge após 12 meses de movimentos da F1 para criar um campeonato mais atraente. A reformulação do regulamento técnico foi anunciada em agosto de 2019, incluindo aerodinâmica simplificada para criar disputas mais acirradas na pista. Era a chance ouro para implementar novos motores, mas ficou decidido por manter os V6 Turbo e fazer mudanças apenas em 2026. Isso tudo é um bom começo, mas é pouco. E talvez tarde demais.

A F1 não entra em colapso, mas precisa ficar alerta (Foto: Racing Point)

O problema com a geração atual de motores é óbvio e foi percebido pela Honda: não há uso prático para um V6 Turbo fora da F1. É uma configuração híbrida, mas que não atende aos desejos da indústria automotiva. O comunicado da marca japonesa citou “uma transformação que acontece uma vez a cada século”. Não é necessário ser profundo conhecedor do mercado para entender que se fala da popularização de carros elétricos. É verdade que o coronavírus é um fator importante do ponto de vista financeiro, mas esse mudança de foco viria cedo ou tarde. A FIA e o Liberty Media precisavam agir rápido para acompanhar os novos anseios, mas falharam nisso.

Se não é para ter motores elétricos, que a F1 fosse ao menos barata. Desenvolver um motor pouco útil seria perdoável se os custos não fossem estratosféricos. Quem consegue isso é a Indy: a categoria americana também usa V6, mas sem traquitanas como ERS, MGU-K ou MGU-H. Foi suficiente para atrair… a Honda. A marca japonesa está na categoria há anos e, um dia após a saída da F1, renovou parceria para além de 2023.

É simbólico, mas é um tanto coincidência: a Honda da Indy não é a mesma da F1. A operação americana é via Honda Power Division, a HPD. Em outras categorias, é via Honda Racing. Em outras palavras: as pessoas por trás da saída da F1 não são necessariamente as mesmas por trás da permanência na Indy. De um jeito ou de outro, a categoria americana vive momento promissor. Não há grande envolvimento de montadoras, incluindo aí também a Chevrolet, mas o modelo atual se mostrou sustentável e próspero.

O aviso está dado para a F1. Por mais que idas e vindas sejam parte do ciclo natural de montadoras no automobilismo, é hora de estancar a sangria e garantir estabilidade. A categoria teve muito mais idas do que vindas em anos recentes, o que é a receita para o desastre. Já passou da hora de FIA e Liberty Media agirem e mudarem o panorama, ao invés de esperar por uma solução mágica. É hora de nadar ou afundar.

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