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F1

Saída de Ricciardo reflete falta de crédito na Renault. E culpa é toda de Abiteboul

Daniel Ricciardo aproveitou a primeira chance em uma vaga competitiva para se pirulitar da Renault. Um duro golpe para a equipe de Enstone, que fica praticamente sem ter opção de um grande nome para substituir o australiano. A não ser que Fernando Alonso tope voltar para o lugar onde foi mais feliz, mesmo tendo de lidar com a gestão errática de Cyril Abiteboul

Grande Prêmio / FERNANDO SILVA, de Sumaré
O anúncio da saída de Daniel Ricciardo da Renault para a McLaren, oficializado na última quinta-feira (14), foi tão surpreendente quanto a contratação do australiano pela equipe anglo-francesa há quase dois anos. Entretanto, se naquela época o piloto mais sorridente do grid assumiu o risco de uma mudança de ares ao sair de um lugar seguro e conhecido, a Red Bull, para um projeto que parecia ser promissor a longo prazo, desta vez Ricciardo refletiu a falta de crédito neste mesmo projeto ao pular do barco na primeira chance que teve.
 
Escanteado pela Ferrari e ainda sem um lugar definido para correr a partir de 2021, Sebastian Vettel deixou claro, segundo publicações como a ‘Auto Motor und Sport’ e ‘Blick’, que não há meio termo: só fica na F1 se tiver a chance de correr na Mercedes. Ou seja, a Renault não é uma opção para o tetracampeão. Assim, a equipe de Enstone se vê numa situação um pouco constrangedora: ninguém (no que se refere a um piloto vencedor) a quer.
 
A série ‘Drive to Survive’ mostrou para todo o mundo o modus operandi de Cyril Abiteboul. O engenheiro francês, que foi alçado a comandante do projeto da Renault na F1, jamais se mostrou merecedor do cargo que ocupa desde 2016. Muito além do jeito fanfarrão, Abiteboul peca pela falta de eficiência e não passa confiança aos seus comandados. 
A saída de Daniel Ricciardo reflete a falta de crédito na Renault, chefiada por Cyril Abiteboul (Foto: Renault)
As mudanças constantes nas duplas de pilotos (foram cinco entre 2016 e 2019: Kevin Magnussen e Jolyon Palmer em 2016; Nico Hülkenberg e Palmer na maior parte de 2017; Hülkenberg e Sainz entre o fim de 2017 e 2018 e, por fim, Ricciardo e Hülk em 2019) e também no corpo técnico refletem a falta de fé numa filosofia que, no fim das contas, nunca se provou totalmente acertada.
 
Acostumado à estrutura de uma equipe vitoriosa e de uma gestão rígida comandada por Christian Horner e Helmut Marko, Ricciardo só deixou a Red Bull para defender a Renault porque via que, em Milton Keynes, não havia mais como dividir a atenção com Max Verstappen, o escolhido dos taurinos para voltar ao topo da F1. Por isso, Daniel apostou num projeto de longo prazo, mas logo percebeu que estava numa barca furada.
 
Sem um carro bom o bastante para andar à frente da McLaren e liderar o pelotão do meio, Ricciardo vivenciou poucos bons momentos no ano passado com as performances alentadoras nos GPs do Canadá e da Itália, onde faturou um quarto lugar que nem ele acreditou. Muito pouco para quem chegou a peso de ouro (contrato de € 20 milhões por temporada), com potencial de campeão do mundo, mas sem nunca ter um equipamento à altura da sua capacidade.
 
Não é segredo que Ricciardo almejava um lugar na Ferrari. Lugar que acabou ficando com Sainz, um piloto mais jovem (25 anos, contra 30 do australiano) e, portanto, com mais margem para evoluir. Mas, de alguma forma, o australiano acabou se dando bem em meio à semana insana da F1 e garantiu um lugar mais competitivo que a Renault ao fechar com a McLaren, que entrega um ambiente bem mais leve e vai contar com um pacote ainda mais competitivo no ano que vem com o motor Mercedes.
 
A McLaren, é bom lembrar, só começou a reagir neste último fim de década quando tomou a decisão de dispensar Éric Boullier, dirigente francês que, como Abiteboul na Renault, não mostrava condição de comandar uma grande equipe. A transição em Woking começou no meio de 2018 com Gil de Ferran e Andrea Stella e foi concluída com as chegadas, no ano seguinte, de Andreas Seidl e James Key, que liderados por Zak Brown, formam um time estruturalmente bem montado e muito mais forte.
 
A Renault, mesmo com o dinheiro que ainda dispõe por ser uma equipe de fábrica, precisa tomar decisão semelhante. Abiteboul já provou não ser o homem talhado para voltar a levar o time de Enstone de volta aos seus melhores dias. A postura birrenta ao sequer agradecer Ricciardo por ter aceitado mudar de equipe e pelos serviços prestados neste período de contrato é mais uma amostra de que lhe falta capacidade e até grandeza para liderar a marca francesa.
 
Se há certeza de que Ricciardo já não confiava mais no projeto da Renault, a dúvida é se o piloto tem informações sobre uma possível retirada da marca da F1 e, por isso, tenha apressado uma nova mudança de ares. O futuro da equipe aurinegra já havia sido colocado em xeque pela sua gestão ainda no ano passado, na esteira da prisão do seu antigo presidente, o franco-brasileiro Carlos Ghosn.
 
No último fim de semana, em entrevista à ‘Auto Motor und Sport’, o chefe da Renault se mostrou otimista sobre o futuro, mas deixou claro que não há como garantir se a equipe vai seguir na F1.
Retorno de Fernando Alonso abriria possibilidade para volta de Flavio Briatore à Renault (Foto: Instagram)
“Estou em contato regular com a direção, que tem muito trabalho agora com a crise. Eles entendem a situação em que nos encontramos e estão atentos a todas as negociações. Sei que já passou muito tempo, mas recebi muitas notícias positivas durante o inverno. Os testes de pré-temporada, em Barcelona, foram muito animadores. No dia do cancelamento do GP da Austrália, anunciamos nosso novo patrocinador-máster. Ainda acreditamos que a F1 é importante para nosso marketing. Ainda somos uma equipe jovem. Não devemos esquecer disso. Mas temos objetivos a médio e longo prazo”, reforçou.
 
Se a Renault continuar além de 2020, só há um piloto confirmado por enquanto, o jovem Esteban Ocon. Trata-se de um nome com grande futuro pela frente, mas que ainda não tem o estofo necessário para liderar uma equipe de fábrica que sonha em voltar a ser grande. 
 
Sem chance de trazer um competidor de peso dentre os que estão em atividade na F1, Abiteboul e Alain Prost têm três saídas: ou investem em algum jovem da Academia, como o dinamarquês Christian Lundgaard ou o chinês Guan Yu Zhou; ou promovem o regresso de Hülkenberg; ou então trazem um piloto que está louco para voltar ao grid: Fernando Alonso.
 
O bicampeão jamais fechou definitivamente as portas para um retorno ao Mundial. Ao contrário, sempre deixou nas entrelinhas seu interesse em regressar. Claro que tal interesse está atrelado a ter um carro competitivo e capaz de torná-lo novamente um dos protagonistas da F1. Mas se Ricciardo, um piloto ainda em atividade, no auge da forma, abriu mão de continuar em Enstone, por que Alonso abraçaria um projeto incerto simplesmente para estar na Fórmula 1?
 
Mesmo que Alonso volte, o grau elevadíssimo de exigência que costuma impor às equipes que integra levantaria um grande ponto de interrogação sobre a relação com o próprio Abiteboul. A não ser que uma eventual chegada de Fernando abra as portas para outro nome polêmico, porém com muito mais peso que Cyril e um histórico vencedor na própria Renault: Flavio Briatore.
 
As cenas dos próximos capítulos vão ser decisivas para o futuro da Renault na F1. E não é exagero considerar que a decisão sobre a continuidade ou não passa diretamente pelo único piloto que levou a marca francesa (duas vezes) ao título mundial.

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