Todt se diz contra venda de chassis, elogia parceria “inteligente” entre Haas e Ferrari e cita revolução na Williams

Em entrevista coletiva no último fim de semana na Áustria, o presidente da FIA se disse contra o conceito de carros clientes, mas entende que alternativas como a que tem sido implementada pela Haas, que estreará na F1 ano que vem como parceira da Ferrari, são salutares ao esporte. Jean Todt criticou a postura de marcas envolvidas com a categoria, que justificam com “motivos falsos” suas ameaças de saída do grid

Sem papas na língua, Jean Todt deu uma coletiva de imprensa de pouco mais de meia hora durante o fim de semana do GP da Áustria, em Spielberg. O presidente da FIA se mostrou contrário ao conceito de carros clientes, ideia que voltou a surgir com força nos últimos tempos, mas que vem sendo rejeitada por muitas equipes do grid. Por outro lado, o dirigente francês elogiou esforços em conjunto da Ferrari com a Haas, time norte-americano que fará sua estreia na F1 em 2016. E mandou um recado às equipes intermediárias do grid: a Williams é o grande exemplo de escuderia que renasceu depois de anos no limbo do esporte.

Em maio, o Grupo de Estratégia da F1 abriu um estudo para verificar a viabilidade da adoção de carros clientes. Mas a ideia foi rechaçada por equipes como Sauber e Force India, por exemplo. O discurso dos times foi endossado por Todt. “Eu odeio carros clientes. Acho que a fascinação da F1 está em você ter sua assinatura. Grupo A, Grupo B é legal, mas em categorias distintas”, disse.

Todt também concordou com Toto Wolff, chefe da Mercedes, ao elogiar o trabalho em conjunto feito pela Ferrari com a Haas. A escuderia norte-americana, consagrada na Nascar, fará sua estreia na F1 em 2016 e terá o suporte da Ferrari no desenvolvimento do seu carro, além de entregar o motor V6 turbo.

Jean Todt deu seu recado às marcas que ameaçaram deixar a F1 recentemente (Foto: Getty Images)

“Se pudermos encontrar uma maneira de facilitar o acesso a certas tecnologias e desenvolvimentos, não sou contra isso, em absoluto. Acho que eles têm sido bem inteligentes, e esta é a única coisa que eu posso dizer. Os dois lados têm sido bem inteligentes. Esta é uma interpretação das regras, mas contanto que você siga as regras, é bom”, declarou o dirigente.

“Então é por isso que às vezes você acaba tendo uma interpretação distinta. Uma vez que você o avalia, então é preciso decidir se vai reforçar ou modificar o regulamento. Como a Ferrari, só posso dizer que, no momento, tem sido um acordo inteligente”, elogiou.

No entanto, Todt agiu como Pôncio Pilatos e ‘lavou suas mãos’ sobre os esforços que a FIA poderia empregar para manter as equipes na F1. Para o presidente, é preciso haver planejamento, o que é muito mais importante que o dinheiro em si.

“Não está nas minhas mãos. Éramos muito favoráveis à permanência da Manor, odeio ver alguém sair. Para mim, foi uma decepção ver a Caterham saindo da F1. Talvez eles subestimaram a F1. As pessoas pensam: ‘vamos lá, nós temos dinheiro para fazer isso’. E na verdade, não é assim”, analisou. “A competição é muito difícil, muito dura, e ser competitivo é muito complicado. Quando você é competitivo, se manter competitivo é difícil. É por isso que é injusto dizer que as coisas têm sido fáceis para a Mercedes. Eles têm feito um grande trabalho, é a única coisa que posso dizer.”

Todt citou como exemplo de boa gestão a Williams de Felipe Massa, que renasceu para a F1 em 2014 (Foto: Getty Images)

Da mesma forma, Todt entende que não está ao seu alcance trabalhar para que construtores possam continuar na F1. “Espero muito que a Lotus, Force India, Renault, Manor possam ficar, mas não está em minhas mãos. O que é injusto é o que eles dizem. Eles conhecem como é a F1, eles sabiam quando aceitaram um acordo que não lhes era favorável em relação aos outros, é este o custo da F1.”

“Acho que é injusto. Diria que são ‘motivos falsos’ para explicar o por que de você não estar feliz, o por que você quer sair, por que você não pode ficar. Eles podem ter suas razões, mas ao menos poderiam dizer: ‘Quero vencer, não posso vencer, estou saindo’. O Pacto da Concórdia dura entre sete e oito anos. Você assinou o acordo, então é preciso respeitar o acordo.”

“Se pudermos apenas tentar nos adaptar a algumas coisas que são facilmente realizáveis, todos nós devemos discutir sobre isso e fazer uma proposta. Não estou dizendo que desisti, mas espero que possamos descobrir isso e, em seguida, as pessoas devem agir como jogadores melhores ou melhores perdedores e dizer: ‘Ok, está decidido, estou empenhado e não vou ameaçar ninguém. Meu desafio é ter a certeza de que vou fazer melhor da próxima vez”, declarou.

Um dos grandes exemplos para Todt de um time que soube dar a volta por cima sem precisar de uma quantia absurda de dinheiro é a Williams, que empreendeu uma grande revolução organizacional e voltou ao rol das líderes da F1 no ano passado depois de anos no limbo.

Todt disse que Caterham fracassou porque subestimou a F1 (Foto: Glenn Dunbar/LAT Photographic)

“Pegue uma equipe como a Williams: eles estavam longe há dois anos, e acho que eles simplesmente decidiram reconsiderar sua equipe e sua estrutura organizacional. Não acho que eles aumentaram substancialmente seu orçamento, eles simplesmente fizeram um trabalho melhor", destacou o francês, voltando a falar que o dinheiro nem sempre é o que mais pesa numa estrutura tão complexa da F1, citando indiretamente a Toyota, que saiu da categoria no fim da década passada.

“Evidente que o dinheiro é importante, mas não é apenas isso. Você tem montadoras de grande porte que estiveram na F1, colocaram muito dinheiro em oito ou dez anos e eles não venceram nenhuma corrida. É por isso que eles ficaram desencorajados e saíram. Claro que você não vai investir muito dinheiro se não estiver vencendo, então isso é desencorajador”, concluiu.

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