Williams ressalta nova filosofia ao colocar empresa à venda: “Está na hora da mudança”

Claire Williams, chefe-adjunta da equipe fundada pelo pai, Frank Williams, não citou nomes, mas revelou que está impressionada com “a qualidade dos potenciais investidores”. A dirigente inglesa vê um novo horizonte na Fórmula 1 com o teto de gastos que vai ser adotado a partir de 2021

Em um gesto extremo de luta pela sobrevivência, a Williams, dona de nove títulos do Mundial de Construtores e 114 vitórias na Fórmula 1, anunciou recentemente uma nova estratégia de mercado que pode culminar até mesmo com a venda de toda a empresa, incluindo a histórica equipe, e até o seu desaparecimento do grid. O prejuízo financeiro registrado no ano passado e a decadência refletida com a falta de resultados — em 2019, por exemplo, a Williams marcou somente 1 ponto, graças a Robert Kubica no GP da Alemanha —, motivou a mudança de uma filosofia que era a grande marca do time de Grove: a de ser sempre uma empresa familiar.

Na esteira da revelação do layout definitivo para o FW43, carro de George Russell e Nicholas Latifi para a temporada 2020 da F1, que vai se iniciar com a disputa do GP da Áustria no próximo dia 5 de julho, Claire Williams concedeu uma entrevista à revista britânica Autocar. E disse que passou a considerar a venda meses antes da decisão vir à tona semanas atrás.

“Começamos a conversar sobre a necessidade de novos investimentos no ano passado, antes que o vírus estivesse no horizonte. Decidimos que, se quisermos ser ambiciosos em nossas pretensões novamente, precisaremos de apoio além do que poderíamos arrecadar do fundo de premiação ou de patrocínio da F1”, explicou a filha de Frank Williams e chefe-adjunta da equipe.

“Nosso desejo principal é encontrar o melhor resultado para a equipe. Se isso significar uma venda completa, tudo bem. Se isso significar a venda da maioria [das ações] como um caminho para uma venda completa, que assim seja. Ou se isso significar que alguém queira entrar e trabalhar ao nosso lado, fantástico! Provavelmente, poderíamos juntar os fundos para continuar, mas já fazemos isso há tempos. Está na hora da mudança”, reforçou.

Claire Williams aposta em novos tempos para a Williams com uma possível venda (Foto: LAT/Williams Racing)

Independente da venda parcial ou total da Williams para um novo investidor, Claire enxerga novos bons horizontes para a equipe em razão das amarras financeiras que a Fórmula 1 prevê a partir de 2021 com a adoção do teto orçamentário. No ano que vem, cada escuderia vai ter uma limitação de gastos em, no máximo, US$ 145 milhões (ou R$ 794,4 milhões).

“A situação atual é completamente mexida por conta das novas regras. E, curiosamente, a aposta foi aumentada ainda mais pela forma como o coronavírus afetou a todos nós. Nos reunimos para perceber que precisamos fazer um trabalho melhor, criando paridade no esporte e reduzindo custos”, destacou.

“Até agora, ser independente não fazia muito sentido. Mas acreditamos, e felizmente os novos administradores [da F1], que fazer o seu próprio projeto e engenharia não deve ser uma desvantagem”, complementou Claire, reforçando uma característica marcante da Williams, na comparação, por exemplo, com Haas, Alfa Romeo e Racing Point, que recebem mais peças de Ferrari e Mercedes, respectivamente.

Quando questionada sobre quem já se interessou em comprar a equipe, Claire disse que não poderia citar nomes por questões contratuais, mas se disse “impressionada com a qualidade dos potenciais investidores”.

Em relação à temporada que está prestes a começar, a dirigente entende que o FW43 “é muito mais sólido” que o carro do ano passado. Entretanto, o discurso é bastante cauteloso porque a britânica entende que, no momento, ainda é difícil saber se a Williams vai sair do fundo do grid. Na visão de Claire, competir em pé de igualdade contra Haas e Alfa Romeo já “seria um bom começo”.

Por que a Williams está à venda?

O anúncio sobre a revisão estratégica veio na esteira de números bastante desfavoráveis para o grupo. A Williams registrou queda de receita considerável, caindo de £ 176,5 milhões (R$ 1,19 bilhão) registrados em 2018 para £ 160,2 milhões (R$ 1,08 bilhão) no ano passado. Na operação da F1, a Williams caiu de £ 130,7 milhões (R$ 883,5 milhões) em 2018 para £ 95,4 milhões (R$ 644,9 milhões) no ano passado, com prejuízo total de £ 10,1 milhões (R$ 68,2 milhões), na comparação com o lucro acumulado de £ 16 milhões (R$ 108,1 milhões) em 2018.

O novo plano estratégico conta com a anuência do diretor-executivo Mike O’Driscoll, do diretor financeiro Doug Lafferty, do conselheiro-geral Mark Biddle e da chefe-adjunta da equipe, Claire Williams. 

Em comunicado, a Williams Grand Prix Holding (WGPH) confirmou a revisão estratégica que pode culminar com a venda da empresa como um todo. “O conselho da WGPH está realizando uma revisão de todas as várias opções estratégicas disponíveis para a companhia. As opções que estão sendo consideradas incluem, entre outras, a captação de novo capital para os negócios, a alienação de uma participação minoritária no WGPH ou a alienação de uma participação majoritária no WGPH, incluindo uma venda potencial de toda a empresa”.

“Embora ainda não tenham sido tomadas decisões sobre o resultado ideal, para facilitar as discussões com as partes interessadas, a companhia anuncia o início de um processo formal de venda. A companhia não recebeu nenhuma abordagem no momento deste anúncio e confirma que está em discussões preliminares com um pequeno número de partes em relação a um possível investimento na companhia”, acrescentou. 

F1 2020 Williams FW43
A Williams mostrou o layout definitivo do FW43 para a temporada 2020 da F1 (Foto: Williams)

“Não há certeza de que uma oferta vai ser feita, nem quanto aos termos em que qualquer oferta seja feita. O conselho do WGPH se reserva ao direito de alterar ou encerrar o processo a qualquer momento. E, se o fizer, fará o anúncio apropriado. O conselho do WGPH também se reserva ao direito de rejeitar qualquer abordagem ou encerrar discussões com qualquer parte interessada a qualquer momento”, frisou a empresa. 

Mike O’Driscoll atribuiu a queda brutal na renda da equipe como reflexo natural da falta de competitividade mostrada nas pistas nos últimos anos. “Os resultados financeiros de 2019 refletem o recente declínio na competitividade da operação na F1 e redução consequente na receita de direitos comerciais. Claro que a temporada da F1 em 2020 foi interrompida em razão da pandemia da Covid-19, e isso vai ter um impacto na nossa receita de direitos comerciais neste ano. A equipe também enviou uma notificação para encerrar a relação com seu parceiro, a ROKiT, e seu patrocinador-máster, a ROK Drinks”. 

“Em comum com muitos outros negócios, tomamos medidas extensivas para abrandar [a crise], incluindo um período prolongado de férias para grande parte da nossa equipe. À medida em que esta terrível crise global recua, todos na Williams Racing estamos ansiosos pelo começo da nova temporada”, completou o executivo.

Claire lembrou que um dos mais tradicionais sobrenomes do esporte a motor pode desaparecer da F1, mas ressaltou que a decisão busca manter a competitividade do grupo e, mais além, garantir os empregos dos funcionários. “Ainda é muito cedo para traçar hipóteses sobre do que pode ou não ser chamada a equipe. Acho que a família Williams certamente vai querer ver o nome Williams na F1. Isso não significa que essa equipe não vai seguir competindo nos próximos anos. Isso, para nós, é garantir o futuro da nossa equipe e garantir um futuro de sucesso para a geração de investimentos internos”.

A dirigente salientou que a decisão não foi diretamente motivada pelos efeitos causados pela pandemia. “Não há um fator chave que conduza essa questão. Obviamente, tomamos medidas nos últimos meses para garantir que colocamos a Williams na melhor posição possível financeiramente. E, portanto, competitivamente. E isso é mais uma etapa deste processo. Nenhum fator-chave pode ser atribuído a isso. Há vários fatores que nos levaram a tomar essa decisão”. 

“O que Frank sempre fez é garantir que ele coloque a equipe, os negócios e nossos funcionários em primeiro lugar. E é isso o que estamos fazendo agora. Da mesma forma, Frank sempre quer ser o mais competitivo possível. E uma das principais razões pelas quais estamos fazendo isso é atrair investimentos internos para a equipe para que possamos capitalizar primeiro as novas regras, que vão entrar em vigor a partir de 2021, e colocar essa equipe na melhor posição possível para ser bem-sucedida. E, no fim das contas, isso é tudo o que importa para nós”, complementou. 

A companhia, fundada como equipe de corrida, nasceu em 1977 pelas mãos de Frank Williams e Patrick Head. Desde então, faturou nove título mundiais de Construtores e sete de Pilotos, os primeiros já em 1980, no grande ano de Alan Jones. Ao todo, a lendária equipe britânica acumula 114 vitórias, sendo a terceira maior vencedora da história da F1 (atrás da Ferrari, com 238 triunfos; e da McLaren, com 182). 

Após anos de recuperação entre 2014 e 2016, a Williams voltou a se ver em situação financeira dramática nos últimos tempos, passando a ficar dependente do dinheiro de pilotos pagantes, como Lance Stroll e Sergey Sirotkin. Perdeu o patrocínio da empresa de bebidas Martini ao fim de 2018. Para o ano seguinte, fechou contrato com a chinesa ROKiT. A equipe marcou somente 1 ponto no campeonato de 2019 por conta do décimo lugar de Robert Kubica no GP da Alemanha.

Em 2020, ano terrivelmente afetado pela pandemia da Covid-19, a Williams manteve George Russell, com a bênção da Mercedes, e recorreu novamente a um piloto pagante ao trazer o canadense Nicholas Latifi, filho do bilionário Michael Latifi, para o lugar de Kubica. 

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