Fim da linha para Massa é relato de relação em que amor platônico nunca virou química

A Fórmula E fez Felipe Massa se sentir desejado novamente, e o piloto retribuiu o carinho. Mas o fogo nunca ardeu quando as partes de uniram

Se você é um adulto no mundo, certamente já conheceu um daqueles casais que se dava bem, até se amava, o carinho era real, mas faltava química. Alguma coisa parecia disfuncional ou fora de lugar. E, apesar de todo bem-querer, um não é você, sou eu, depois, as duas pessoas seguiram caminhos distintos na vida. Talvez você até tenha feito parte de um relacionamento assim. Nem toda a vontade do cosmos pode completar um cubo mágico quebrado, não há motivo para sentir vergonha. Assim foi a relação entre Felipe Massa e a Venturi/Fórmula E nos últimos dois anos.

Antes de começar a desenvolver, sejamos claros: o anúncio feito pela Venturi no momento em que a bandeira quadriculada foi flamulada hoje, em Berlim, abriu para o público aquilo que ficava cada vez mais suspeito: haveria mudanças. Mas Massa não está fora da Fórmula E, pode ser que essa experiência continue de alguma maneira. O que chegou ao fim foi o período de Felipe com a Venturi.

Massa ainda estava na F1 quando a Fórmula E pediu que fosse convidado para testar o carro da Jaguar. O flerte era claro. A categoria queria um dos nomes mais reconhecidos da F1 nos 15 anos anteriores, vice-campeão mundial, nome de liderança reconhecida entre os pares, história imensa na Ferrari. Claro que queria. Tudo isso fez bem a Massa, cortejado após anos em que foi quase maltratado na Ferrari e olhado de lado na Williams quando o carro se afastou dos arredores do pódio.

“Quando eu o ouvi dizendo [que a FE era um dos alvos], mandei um WhatsApp e falei que deveríamos nos encontrar”, contou Alejandro Agag, presidente da categoria, ao jornal espanhol ‘El Confidencial’, ainda em 2016. “Eu amaria que ele viesse para cá. Na realidade os times escolhem seus pilotos, mas eu iria adorar que alguém com tamanha qualidade viesse para a FE”, confessou.

Os planos foram adiados quando Nico Rosberg correu para anunciar aposentadoria da F1 após o título daquele ano. Uma surpresa que mexeu em diferentes lugares, com vários profissionais. A Mercedes tirou Valtteri Bottas da Williams, que já tinha assinado com Lance Stroll e toda a grana nos bolsos de seu pai, teve de recorrer ao brasileiro que fora carinhosamente dispensado.

Pouco mais de um ano depois e um campeonato final da F1 para a conta, assinou com a Venturi. Foi até uma surpresa, afinal, tratava-se de um grande nome da F1, daqueles que a Fórmula E ainda não fora capaz de seduzir fora de seus próprios sonhos de várias noites de verão. A Venturi? O time fizera 72 pontos e o sétimo lugar do Campeonato de Equipes naquela temporada. Massa, residente de Mônaco, queria ficar perto de casa e foi atraído pela monegasca Venturi.

Depois de anos rodando o mundo para trabalhar até no dia a dia, há que se entender quando alguém se enamora da ideia de ir ao trabalho e voltar algumas horas depois sem precisar encarar aeroportos e afins.

Massa era desejado de novo e tinha um desafio energizante. A Venturi manteve Edoardo Mortara, que estreava no ano anterior, e, com a nova geração de carros, trouxe também a chefia de Susie Wolff. Era uma nova Venturi, montada para mais sucesso.

O desempenho de Massa ao longo desses dois anos é chover do molhado. Mortara foi bastante superior no começo da jornada 2017/18, mas Massa pontuou melhor na segunda metade do campeonato e deu a impressão de que a curva de aprendizado já atingira o topo: a hora era de estabilizar. O que se viu no campeonato 2019/20 foi diferente. Massa marcou três míseros pontos dos 44 da Venturi, pior que no primeiro ano, embora o desempenho seja visivelmente superior à equipe mambembe daqueles tempos.

Sim, é verdade que o desempenho até se apresentou em pequenos lapsos, sobretudo nessa chuva de corridas em Berlim, mas jamais vieram acoplados dos pontos. Os erros, afinal, também se mostraram.

Massa é um piloto de grande carreira e história mais que suficiente para ser lembrado nos círculos do esporte a motor durante décadas. E será, certeza. Mas aquele carinho da Fórmula E, aquela gana de tê-lo por perto que ele retribuía abertamente, terminaram em muito filme espanhol na Netflix. Faltou a química que todos esperavam.

Pode ser que ele fique na categoria. Se for esse o caso, novas páginas serão escritas, agora em novos quartos, outro país, fábrica diferente. O trabalho, daí por diante, será fazer o fogo arder.

Stoffel Vandoorne venceu! (Foto: Mercedes)

STOFFEL VANDOORNE, vencedor

“Corrida incrível! Tivemos a corrida perfeita. Não fomos ameaçados – Seb sempre esteve perto, mas sob controle. E terminar a corrida com uma dobradinha para a Mercedes, creio que não era possível ser melhor. Ser segundo no campeonato é um bônus”, falou.

“Sabíamos que éramos muito rápidos, tínhamos visto nas últimas corridas, mas fazer isso na frente é diferente. Estou muito feliz que conseguimos fazer o trabalho. A equipe foi fantástica, hoje foi impecável”, finalizou.

Nyck De Vries (Foto: Fórmula E)

NYCK DE VRIES, segundo

“Parece que eu tirei um macaco das minhas costas! Fazer isso no último dia da temporada, do ano, depois de uma longa maratona…”, comemorou.

“Conseguir me recuperar assim e realmente poder guiar numa corrida como deu para fazer hoje é muito satisfatório”, fechou.

Sébastien Buemi (Foto: Fórmula E)

SÉBASTIEN BUEMI, terceiro

“É, não éramos rápidos o bastante. De Vries me seguiu e poupou bastante combustível. No fim, quando ele me atacou, não tinha mais para onde ir, não dava para defender”, disse.

“Não tinha muito o que fazer diferente: talvez ser mais rápido para pegar o modo ataque, mas não faria grande diferença. Parabenizo a equipe pelo vice-campeonato, é sempre muito importante conseguir algo assim”, terminou.

Lucas Di Grassi (Foto: Fórmula E)

LUCAS DI GRASSI, sexto

“Até 2019 terminei sempre entre os três melhores da temporada, incluindo um título de campeão e dois de vice-campeão. Foi uma pena termos uma queda de rendimento em 2020, mas é preciso dizer também que a Fórmula E não é fácil: tivemos oito vencedores em onze etapas neste ano, índice que é rotina na categoria”, lembrou.

“Há muitos pilotos e equipes de alto nível. Mas nossa equipe sai motivada para voltar ao nosso padrão anterior. Já começamos a trabalhar no carro para 2021”, resumiu.

Massa encerrou a participação em Berlim (Foto: Reprodução/Twitter)

FELIPE MASSA, 16º

“No começo, a corrida parecia normal e segurei a posição. Estava seguindo os carros na minha frente, mas faltou o ritmo para ultrapassar, o que me deixou travado. Depois, então, peguei o modo ataque e perdi mais posições e tive dificuldades de velocidade até o fim. Foi um desastre”, colocou.

“Poderia facilmente lutar pelo décimo lugar ou 11º no máximo, mas, hoje, não deu”, falou.

Sérgio Sette Câmara (Foto: Fórmula E)

SÉRGIO SETTE CÂMARA, 19º

O estreante da Dragon viveu um roteiro parecido ao de ontem: classificou espetacularmente bem e se segurou na zona de pontos durante a primeira metade da corrida, mas depois acabou sendo ultrapassado aos montes. Mesmo assim, voltou a terminar a corrida à frente do companheiro Nico Müller.

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