Na trilha da Stock Car? Fórmula E dá pinta de que trocou velocidade por maratona

Formato da classificação somado a um campeonato de trincheiras faz com que a Fórmula E comece o ano encarando a possibilidade de, tal qual a Stock Car, ver a preponderância do brilhantismo da velocidade ser substituída pela da regularidade de pilotos e carros no que diz respeito à disputa pelo título

O conceito contido nesta análise pós-corrida não é tão crítico da categoria ou de suas escolhas quanto foi em determinados momentos do passado e, provavelmente, do futuro. É, na verdade, uma tentativa de entender para onde o campeonato vai após as últimas mudanças. Como a Stock Car com as mudanças em 2019, a Fórmula E dá a impressão de ter transformado em maratona uma corrida que antes era baseada em pequenos sprints. Manter-se em posições intermediárias é a chave para ser campeão? É apenas o começo, mas a indicativa de que o caminho é esse nunca foi tão forte como neste sábado (18) de eP de Santiago.
 
Após três corridas – e, sim, ainda é muito cedo para fazer conclusões sobre o que será ou não a briga pelo título -, quem lidera o campeonato é Stoffel Vandoorne. O piloto da Mercedes fez a dois pódios em Ad Diriyah, um deles impulsionado por uma série de punições a pilotos que haviam terminado a corrida na frente dele, e engrenou um sexto lugar em Santiago. 38 pontos que são bons, mas não são incríveis. 
 
As comparações com a Stock ficam somente na possibilidade de um piloto ser campeão sem uma sequência de resultados incríveis e agudos, como Daniel Serra foi em 2019. As razões, contudo, são distintas: na Stock, uma mudança de pontuações distribuídas; na Fórmula E, o modelo que coloca os líderes do campeonato fixados no Grupo 1 dos treinos classificatórios ganhou a companhia de um grid que se mostra mais apertado do que nunca.
Stoffel Vandoorne (Foto: Mercedes)
Pode parecer pouco ou uma tempestade num copo d'água, mas quem acompanha a Fórmula E a fundo nos últimos anos já sabe o quanto a posição de treino na classificação é fundamental. Um exemplo é este mesmo eP de Santiago: os seis pilotos que passaram para a Superpole saíram três do Grupo 3 e outros três do Grupo 4. Em geral, o Grupo 2 tem chances reais de lutar pelas primeiras posições, mas o que se sabe com certeza é que o Grupo 1 leva desvantagem por pegar uma pista menos emborrachada e mais suja.
 
A mudança que fez com que os grupos definidos pela classificação do campeonato tivessem posição proporcional no treino – líderes saindo primeiro e menores pontuadores deixados para o fim – foi estabelecida na temporada passada e causou discussão. O que foi possível capturar conforme o campeonato foi avançando: a capacidade de distanciamento que as equipes dotadas de melhores carros tinham sobre os rivais. Mesmo largando em posições intermediárias, conseguiam escapar para vencer e marcar pontos graúdos. Os picos dos pilotos definiram o campeonato.
 
Jean-Éric Vergne venceu três vezes e foi ao pódio em outras duas oportunidades, enquanto Sébastien Buemi foi vice com uma vitória e outros três pódios – tudo isso nas quatro últimas corridas do campeonato. E talvez tudo isso se repita. Talvez, conforme a temporada se desenvolva, alguma equipe mostre a capacidade de dominar situações e se colocar no bloco de vencedoras em potencial em todas as corridas. 
 
Mas não é o que acontece ainda. Quem esteve mais perto disso foi a BMW, mas que teve problemas com o rendimento da bateria na primeira corrida e alguma falha que obrigou Alexander Sims a abandonar no Chile. Sabe quem faz carros que antes de tudo são resistentes e não quebram? A Mercedes de Vandoorne. Ficar na pista pode parecer uma obviedade em qualquer corrida, mas neste começo de temporada da Fórmula E tem sido uma arma. Vandoorne foi rápido mesmo na corrida 1 da Arábia Saudita e foi terceiro. Na corrida 2, herdou o terceiro lugar após uma série de punições; em Santiago, teve participação média, nada mais que isso, mas uma série de pilotos que brigavam com ele tiveram algum tipo de problema, erro ou azar: Felipe Massa, Edoardo Mortara, Jean-Éric Vergne, Buemi. 
 
Como as equipes estão entrincheiradas numa disputa extremamente disputada entre quase todas as equipes, largar longe das primeiras posições significa remar muito. Nem sempre será possível tirar pontos de uma aventura como essa: pode render como o segundo lugar de António Félix da Costa ou o sétimo de Lucas Di Grassi, mas pode também terminar em abandonos como os de Vergne e Oliver Rowland. Apostar com tais probabilidades é imprudente. 
 
Enquanto alguém não disparar como um velocista, a Fórmula E vai ficando para os maratonistas. Vandoorne é o que tem maior sucesso até agora, o que abre a possibilidade da Mercedes crescer daqui para frente e ele mesmo esticar as pernas. A indicação inicial é que o campeonato será contado como um livro com 14 capítulos, não como uma reunião de 14 contos. 
Maximiliam Günther (Foto: Reprodução)
O vencedor
 
Vencedor mais jovem da história da Fórmula E, Max Günther saiu da corrida em êxtase pelo resultado. É ainda uma resposta rápida a uma BMW que fez uma aposta em contratá-lo como substituto de Da Costa pouco antes da última pré-temporada. 
 
"Nós conseguimos. Minha primeira vitória na Fórmula E! Palavras não conseguem descrever o quão feliz estou com meu primeiro lugar no eP de Santiago. Que sensação mais incrível. Foi uma boa briga até o final, e estou muito feliz com minha primeira vitória na Fórmula E. Começou a se tornar bastante desafiador, pois eu estava com uma boa diferença, mas então os números começaram a se tornar um pouco complicados [na relação com Da Costa], vamos dizer, mesmo assim conseguimos lidar bem. Foi uma corrida incrível, boas brigas, ficamos lado a lado, então muito legal", afirmou.
Lucas Di Grassi (Foto: Reprodução)

O alpinista

Di Grassi escalou 16 posições para terminar no sétimo ligar. Por isso, comemorou como se fosse mais que um pódio. 

"Eu estou exausto, foi uma corrida muito extenuante não só pela competitividade da categoria, que foi especialmente grande aqui, com dezenas de trocas de posição no grid inteiro. Mas também pelo forte calor, que foi constante a prova toda”, explicou. A corrida foi disputada com temperatura próxima dos 35°C.

“Mas estou também orgulhoso da corrida que fizemos, com várias ultrapassagens e um trabalho excepcional da nossa equipe. O que fizemos hoje aqui me mantém confiante de que podemos brigar por mais um pódio no México, onde vencemos no ano passado com uma ultrapassagem praticamente em cima da linha de chegada”, falou.

“Sétima colocação foi como uma vitória após largar praticamente da última posição. Obrigado ao time da Audi pela execução de corrida sem problemas. Bons pontos para o campeonato", completou.

A Fórmula E retorna em 15 de fevereiro, direto do México.

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