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Retrospectiva 2018: Temporada da FE coroa maturidade de Vergne e premia 'remontada' da Audi

Na última temporada com a primeira geração de carros, baterias e formato de corridas, a Fórmula E viu Jean-Éric Vergne tirar tudo que o carro da Techeetah tinha a oferecer e com uma maturidade que ainda não mostrara na carreira

Warm Up / PEDRO HENRIQUE MARUM, do Rio de Janeiro
A temporada 2017/18 da Fórmula E teve um quê de despedida. Confirmada desde muito antes como o campeonato final da primeira geração de carros, baterias e dos pit-stops para trocas de carro, começou com as equipes bastante acostumadas a seus conjuntos e tecnologia. A Renault, tricampeã de Equipes, aparecia favorita ao lado da Audi, na primeira temporada como equipe de fábrica. E, claro, Sébastien Buemi e Lucas Di Grassi tinham a frente na preferência de quem dava palpites. Mas o ano se desenhou de forma bem diferente.
 
A abertura do campeonato aconteceu ainda em dezembro de 2017, em Hong Kong, e o que se viu foi bem diferente do projetado. Na totalidade das duas provas da rodada dupla, Buemi marcou um ponto apenas, Di Grassi nem sequer pontuou e as duas equipes favoritas viram DS Virgin, Techeetah, Mahindra e Venturi no destaque.
 
Sam Bird ganhou a prova do sábado - e se tornou o primeiro piloto a ganhar corridas nos quatro anos da FE. E é verdade que a Audi recebeu a bandeirada com a vitória no domingo, com Daniel Abt, mas um erro técnico na transmissão fez com que o alemão fosse desclassificado. Felix Rosenqvist foi quem herdou a vitória, mas que estava nas mãos de Edoardo Mortara, estrante pela Venturi, e que só perdeu a chance do lugar mais alto do pódio por conta de uma batida nas voltas finais, quando lutava contra problemas no sistema de recuperação de energia. 
 
Era somente o começo e não dava para ler totalmente a competição. Antes da corrida seguinte, em Marrakech, a Fórmula E acabou com o tempo mínimo nas trocas de carro, o que deixou alguns pilotos temerosos quanto a questões de segurança dentro do pit-lane. Mesmo com as reclamações, a FE foi adiante - mas só efetivou a mudança em Santiago. 
O pódio da primeira corrida em Hong Kong (Foto: Reprodução)
Rosenqvist pintou como um forte candidato ao título após a segunda vitória. Largou em terceiro no Marrocos, mas venceu a corrida depois de uma disputa muito bonita com Buemi - o suíço, por sua vez, se recuperou de Hong Kong e foi ao pódio. Bird completou o pódio, mas Nelsinho Piquet aparecendo bem com a Jaguar em quarto e Vergne em quinto. Di Grassi abandonou com problemas de bateria.
 
Após três corridas, Rosenqvist liderava o campeonato e tinha Bird quatro pontos atrás. Vergne tinha 11 de desvantagem, mas o francês se anunciaria candidato na etapa seguinte. 
 
Vergne havia circundado o pódio em duas das três etapas e subido nele em uma, mas não mostrara força necessária para tirar vitórias no braço, o que mais para frente seria necessário para entrar de vez na luta pelo título. No Chile, arrepiou. Pole e vencedor da prova, assumiu a ponta do campeonato a cravou um ponto de exclamação ao lado de seu nome. Para a Techeetah, um lugar na história: com André Lotterer em segundo, era a primeira dobradinha da FE. Os rivais Bird e Rosenqvist marcaram pontos, mas não competiram com Vergne após um treino de classificação péssimo, no qual Bird chegou a bater na Superpole e Rosenqvist passou longe dela. 
 
Buemi e Piquet se mantinham nas primeiras seis colocações, mas Di Grassi, atual campeão, voltava a ser punido por problemas no inversor. Largou em 13º e abandonou durante a prova para seguir um ano sem pontos até aquele momento. Lucas era, naquele momento, o único dos que haviam guiado nas quatro provas que ainda permanecia sem pontos. 
IO pódio em Santiago (Foto: FE)
No México, a Audi começou a responder. Abt largou apenas no quinto lugar, mas estava claro desde o começo que tinha o carro mais rápido. O único que podia desafiar era o pole, Roseqnvist, que tinha condições de abrir vantagem enquanto Abt ainda começava a sequência de ultrapassagens. Mas uma falha na bateria fez o sueco da Mahindra perder potência e parar na pista. Era o fim da corrida e o começo do fim da briga pelo título. Vergne largou em sexto, chegou em quinto, mas mesmo assim ampliava a liderança.
 
Di Grassi conseguiu marcar pontos, enfim, ao terminar em nono e viu sua temporada começar de vez. A impressionante sequência que teria deli para a frente iniciou quando a Audi consertou o "problema crônico" que havia causado o começo difícil. Em Punta del Este, foi segundo. Vergne, com pole e vitória novamente, disparou. Di Grassi atacou Vergne no fim, mas aceitou o segundo posto. 
 
Bird e Rosenqvist largaram, respectivamente, apenas em nono e 12º. Bird ainda foi ao pódio, mas a situação de ambos ia se complicando. Piquet, enquanto isso, sofreu com a direção e abandonou. Seguia em quinto no campeonato, mas se distanciava.
 
Rosenqvist parecia pronto para voltar à briga em Roma. Cravou a pole e passou incólume na liderança durante a primeira metade. Já com o segundo carro, quebrou uma suspensão após passar de forma agressiva sobre uma zebra. Era, aí, sim, o fim para ele. Quem se deu bem foi Sam Bird, que herdou a ponta e venceu. Di Grassi voltou a ser segundo, enquanto Vergne terminou no quinto posto após vencer uma briga ótima contra Buemi. Piquet teve problemas novamente, agora com o cinto de segurança, e abandonou.
 
Foi em casa, em Paris, que Vergne realmente se aproximou do título. Abrir enorme vantagem na classificação em frente à torcida e de forma tão contundente: pole e 4s9 de vantagem para Di Grassi, novamente segundo colocado. Bird foi terceiro, mas a diferença dos dois voltava para 31 pontos. Rosenqvist ficara 61 atrás.
O pódio em Paris com o vitorioso dono da casa (Foto: Reprodução/Twitter)
Assim como Vergne em Paris, Abt dominou a etapa de casa, em Berlim, ao cravar a pole e ganhar a corrida com 6s7. Tão em casa quanto Abt, a Audi fez dobradinha, com Di Grassi em segundo. Vergne mais uma vez brigou firme com Buemi e foi terceiro. Com o sétimo lugar de Bird, a definição da conquista de Vergne estava próxima. 
 
Após quatro segundos lugares seguidos, Di Grassi enfim venceu. Foi em Zurique, onde largou no sexto posto e em pouco tempo deixou para trás uma fila que tinha José María López, Jérôme D'Ambrosio, Bird, Lotterer e Mitch Evans. A Audi tinha o melhor carro por enorme margem. Bird ainda foi seguindo, respirando um pouco no campeonato: Vergne teve tudo para encerrar a conta, mas teve um problema na troca de carro e terminou com o décimo lugar. Foi a única vez no ano que o francês não figurou no top-5.
 
Com problemas seguidos entre direção e cinto de segurança, Piquet completou a quinta corrida seguida sem pontos - conta que aumentaria para seis antes da quebra do tabu com o quinto posto na segunda prova em Nova York.
 
Vergne tinha 23 pontos de frente para Bird antes da rodada dupla nova-iorquina. Mas a Audi também buscava tirar a diferença para a Techeetah no Campeonato de Equipes. E logo na primeira prova, show da fábrica alemã. Di Grassi venceu largando em 11º e Abt completou mais uma dobradinha. Mesmo o sucesso fez nascer uma polêmica, porque Daniel não gostou de uma suposta ordem do chefe Allan McNish para não disputar a vitória. Só que McNish garantiu que não fez isso, e o alemão apenas entendeu errado. 
 
Ainda no sábado, Vergne conseguiu fincar o pé na quinta colocação após largar em 18º. Mas Bird também largou bem longe por conta da confusão climática que jogou chuvas d'água na pista em momentos do dia. Bird não tinha tanto carro quanto o rival e subiu somente até nono. Vergne era campeão. 
Audi vibra com o título (Foto: Audi)
A Audi estava motivada no domingo: a desvantagem para a Techeetah era apenas cinco pontos. E Vergne ganhou a corrida do domingo, mas nem isso impediu o que vinha se desenhando há meses: o título de uma Audi que colocou Di Grassi em segundo e Abt em terceiro e com a melhor volta. Lotterer foi o nono. Na soma geral da corrida, 34 pontos para a Audi e 27 para a Techeetah. Título dos alemães após uma sequência de sete pódios seguidos para Di Grassi, que ainda foi vice-campeão.
 
A temporada 2017/18 saiu de cena deixando a primeira era da FE para trás. Adiante com o destino.