Retrospectiva 2023: Com F1 de olho, Andretti brilha e pega recompensa por fé na Fórmula E

O mundo inteiro esperava para ver como a Andretti reagiria no mercado europeu com a F1 à espreita. E o resultado foi o melhor: brilho e um título esperado há muito tempo e que pagou a fé que a marca americana teve na Fórmula E

É difícil argumentar contra o fato de que 2023 é o ano mais importante da história da Andretti fora dos Estados Unidos. Tão estabelecida por aquela parte, dona de vitórias importantes, títulos vários e tradição robusta, o passo para a Europa foi dado nos últimos anos de maneira um tanto quanto tímida inicialmente, mas galopante nos últimos tempos. Até, finalmente, o título da Fórmula E e o ok da FIA para a F1 no mesmo ano.

Na F1, o conto ficou famoso. Em busca declarada para arrumar uma vaguinha no grid, a Andretti já chegou até a alinhar um acordo com a Sauber, que depois caiu por terra. Com um esforço maior desde o fim de 2022, levou a FIA a abrir um processo seletivo para nova equipe na F1. E foi aprovada!

Liberty Media e times do grid, ao menos boa parte deles, são contrários por conta de uma questão que envolve a distribuição de prêmios financeiros ao fim de cada temporada. Apesar disso, a Andretti chegou a um acordo com a GM, por meio da Cadillac, que terá a gigante americana produzindo motores da F1 a partir de 2028, caso a Andretti seja aprovada. Resta esperar a decisão do Liberty.

Enquanto tudo isso estava em discussões, porém, a Andretti abriu o campeonato da categoria europeia de monopostos em que foi pioneira: afinal, o time de origem nos Estados Unidos está no grid da Fórmula E desde a primeira temporada, em 2014.

Michael Andretti teve ano iluminado na Fórmula E (Foto: Indycar)

Mas o título sempre fora um sonho distante. Durante os anos Gen1, a Andretti sofria no grid e chegou a ficar com o décimo lugar do Campeonato de Equipes na temporada 2017/18. Mas, no ano seguinte, veio o acordo com a BMW para a era Gen2 e a aspiração de que algo mais seria possível.

Nos testes de pré-temporada, ainda em 2018, ganhou ares de favorita e venceu a estreia do campeonato, mas o rendimento caiu gravemente ao longo do ano e se manteve instável em 2019/20, antes de, no começo do terceiro ano da parceria, a marca alemã anunciar que estava indo embora ao fim do ano.

Daquele momento, ficou, porém, a seleção do piloto. O último ano de BMW foi o primeiro de Jake Dennis, e a obviedade que era o fato do inglês ser piloto talhado para a Fórmula E. Sem a BMW já em 2022, manteve aquele motor alemão que ia a lugar algum e manteve, também, o piloto. Dennis ainda ganhou uma corrida, mas o pulo do gato seria neste 2023.

Com o Gen3, terceira geração de carros da Fórmula E, a Andretti alinhou acordo com a Porsche para receber motores. Uma equipe cliente, pois. Mas descobriu, logo de cara, que teria condições praticamente de igualdade à equipe de fábrica. Não por bondade da Porsche, mas porque assim garantia o regulamento da Fórmula E. Sairia na frente quem tivesse mais astúcia para as operações de corrida.

Se André Lotterer foi puxado de volta à Fórmula E porque conhecia bem a Porsche, mas já gostaria de ter deixado a categoria, fez o papel dele no dia a dia. O desempenho no campeonato foi terrível. Mas havia Dennis: vencedor da primeira corrida e segundo colocado nas duas seguintes.

Mesmo no período de instabilidade que se seguiu, onde Dennis se envolveu em acidentes e ficou quatro provas seguidas em pontuar, a Andretti, por meio do chefe Roger Griffiths, homem experiente da Fórmula E, trabalhou ao lado de Dennis para os ajustes que resolveriam o caso, em vez de podá-lo.

Tanto é, e isso é interessante, que no eP de Berlim 2, prova em que Dennis voltou a pontuar com o segundo lugar, Griffiths queria que o piloto atacasse Nick Cassidy pela vitória. Foi Jake quem decidiu dosar a situação e voltar à tabela de tentos anotados.

Daí em diante, Dennis nunca ficou abaixo do quarto lugar e marcou sete pódios em oito corridas restantes, ainda com mais uma vitória, para conquistar o título. O primeiro dele e da Andretti.

Jake Dennis, o campeão vigente da Fórmula E (Foto: Andretti)

Uma demonstração de como a equipe se entregou de alma para a conquista? Em Londres, na corrida decisiva, quando Dennis já tinha ampla vantagem, o entendimento na garagem do time americano era de que havia um acordo com a Porsche: a Andretti ajudaria o time oficial no que fosse possível para buscar o Campeonato de Equipes, enquanto o inverno seria verdade para o de Pilotos — afinal, a Andretti não tinha mais chance entre as Equipes e a Porsche estava fora entre os Pilotos.

Quando sentiu que Pascal Wehrlein não cumpria o acordo e entrava no caminho de Dennis, a câmera da transmissão da garagem da Andretti pegou claramente Michael Andretti, o dono da companhia e que esteve em várias provas do ano, revoltado. Falou alguns palavrões e invadiu a garagem da Porsche para cobrar.

“Foi estranho [o que Wehrlein fez] porque estávamos tentando trabalhar em conjunto para a Porsche ser campeã também”, admitiu Griffiths mais tarde.

Apesar dos pesares e da invasão, a Porsche fez questão de colocar panos quentes.

“[A relação é] completamente positiva. Afinal, não somos apenas uma equipe de corrida, mas uma fábrica de carros. Sempre temos a filosofia, como a Andretti uma vez mais provou, que se tivermos quatro carros Porsche correndo, precisam todos ser o mais forte que puderem. Cooperação próxima ajuda sempre a ter uma base de informações maior. E nós somos próximos, trabalhamos bem juntos”, afirmou Thomas Laudenbach, diretor-esportivo da Porsche.

No fim das contas, além do título de Pilotos, a Andretti ainda terminou no terceiro lugar entre as Equipes, atrás somente de Envision e Jaguar. Sim, na frente da Porsche, mesmo que tenha contado com um de seus pilotos altamente inoperante.

“Um parabéns enorme a Jake Dennis, que se tornou o campeão mundial de Fórmula E”, manifestou a equipe na ocasião. “Jake mostrou pura determinação e momentos de brilhantismo que o tornaram campeão muito merecido. O desempenho excepcional, junto do apoio de nossa equipe, fez com que ele fosse ao topo”, continuou Griffiths.

“É uma prova de que o espírito colaborativo e a determinação são enormes na Andretti. O talento excepcional de Jake e a nossa dedicação interminável culminaram no momento de glória. Não poderia estar mais orgulhoso”, encerrou o chefe.

De cara nova, Andretti se prepara para defender o título de Jake Dennis em 2024 (Foto: LAT/Fórmula E)

“Estou sem palavras”, completou Dennis. “Honestamente, significa tanto para mim. Os meninos que estão ali [funcionários da Andretti] têm tudo a ver com isso. Tudo aconteceu nessa corrida. Eu estava com a sensação de que todo mundo corria contra a gente, mas, Jesus Cristo, acabamos de nos tornar campeões mundiais. Estou tão feliz por mim mesmo, pela equipe e por todo mundo. Merecíamos muito isso”, falou.

Depois disso, com a saída de Lotterer, ficou a dúvida sobre quem seria o próximo companheiro de Dennis. O próprio campeão admitiu ao GRANDE PRÊMIO que Felipe Drugovich era alvo de interesse, mas o campeão da F2, atento à F1, acabou perdendo a oportunidade. Norman Nato, assim, foi contratado.

Independente disso, a Andretti teve a maior vitória no automobilismo fora dos Estados Unidos justamente no momento que mais precisava. E já entra 2024 entre as favoritas pelo bi de Pilotos e pelo título de Equipes.

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