Retrospectiva 2023: Da negatividade ao ‘caos do bem’, Gen3 faz história na Fórmula E

O começo do carro Gen3 na Fórmula E foi preocupante. Dos problemas de confiabilidade, desempenho e segurança na pré-temporada, entretanto, o monoposto ganhou confiança, se afirmou e proporcionou um dos melhores campeonatos da história da categoria em 2023

Depois de alguns anos conturbados e pautados por críticas a carros brutos demais, a Fórmula E prometia uma revolução para 2023. Dos resistentes Gen2, que favoreciam verdadeiras disputas ‘ombro a ombro’ na pista, a categoria passaria ao Gen3 — mais veloz, tecnológico, eficiente, arisco e sensível. As batidas lado a lado comuns nas corridas da modalidade encontrariam seu fim, em favor de disputas mais velozes e limpas. A expectativa já era boa, e o resultado foi ainda melhor — mas nem tudo são flores, e um início conturbado quase colocou tudo a perder.

As notícias não eram positivas. Antes da pré-temporada, a bateria — que passou a ser produzida pela WAE, antiga Williams Advanced Engineering — demonstrou defeitos a ponto de vazar e ser chamada para um recall. As peças, que dependiam de uma logística tremenda para chegar de diversas partes do globo, atrasavam em um mundo que ainda buscava se reencontrar após a pandemia. Nem a segurança estava garantida, com carros que perdiam os freios ao entrar em pane. E as equipes não escondiam a frustração.

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Se o incêndio da pré-temporada do último mês de novembro trouxe preocupação ao paddock, o período realizado em Valência no ano passado não foi menos conturbado. Fornecedoras não conseguiam testar seus carros corretamente porque as baterias não apresentavam a confiabilidade prometida, ao mesmo tempo em que qualquer acidente significaria a necessidade de esperar por peças novas que nunca chegavam.

Uma pancada de Lucas Di Grassi em um teste realizado em Almería trouxe um alerta, que se tornou vermelho com uma segunda batida forte — desta vez, de Sébastien Buemi nos testes de Valência. O carro, que acabara de abolir os freios hidráulicos traseiros, não era apenas pouco confiável, mas também perigoso: em caso de pane no trem de força ou na bateria, o sistema de frenagem simplesmente não dava conta de diminuir a velocidade, e o piloto se tornava mero passageiro.

Portland foi um dos grandes exemplos de insanidade da temporada na Fórmula E (Foto: Fórmula E)

Sim, o prenúncio era dos piores possíveis. Mas, aos poucos, por etapas, as coisas foram entrando nos eixos: a bateria passou por uma revisão profunda e uma nova versão foi distribuída às equipes antes do campeonato começar; um sistema secundário de frenagem começou a ser implementado em Diriyah; por fim, as peças sobressalentes — estas de forma mais lenta — começaram a ser entregues.

Além de tudo isso, a primeira etapa do campeonato trouxe uma corrida modorrenta, extremamente chata, na Cidade do México. Será que os velozes Gen3 teriam capacidade de apresentar emoção? Os novos pneus da Hankook, mais duros que os Michelin, seriam eficientes e controláveis em temperaturas mais altas? Definitivamente, parecia que não. Mas tudo começou a mudar em Hyderabad.

Quarta corrida do campeonato, a etapa indiana trouxe uma disputa melhor que Diriyah, que já havia superado — por muito — a Cidade do México. A questão é que a pista de Hyderabad tinha características diferentes do que a categoria estava acostumada: mais larga e com retas maiores, trazia desafios à regeneração de energia e possibilitava disputas mais frenéticas. Ainda assim, o eP da Cidade do Cabo foi o ponto definitivo de afirmação do Gen3, que encarnou Cristiano Ronaldo no Camp Nou e disse: “eu estou aqui”.

A estreia da Fórmula E em São Paulo teve emoção e disputa até a última curva (Foto: Fórmula E)

Sem estender a explicação sobre os novos circuitos — que será tema de outra retrospectiva —, as pistas mais largas e velozes da temporada 2022/23 desbloquearam o potencial ainda posto em dúvida dos Gen3. As equipes entendiam cada vez mais sobre o carro, os pilotos domavam a fera de maneira mais profunda e as ‘pack races’ tomaram conta do ano, com disputas imprevisíveis e frenéticas até a última volta.

São Paulo, Berlim e Portland trouxeram verdadeiros pandemônios, e a revolução prometida pela Fórmula E se tornou o novo normal. As disputas absurdas não se resumiam às pistas largas, entretanto: Mônaco — tão criticada na Fórmula 1 — mostrou que pode, sim, receber corrida boa.

Depois de uma primeira volta alucinante, a etapa de Monte Carlo trouxe vitória de Nick Cassidy, sua primeira no ano, largando em nono. O segundo, Mitch Evans, saiu em sexto, enquanto Jake Dennis, o terceiro, começou a prova em 11º. As ultrapassagens se tornaram rotina, e os carros — menores em relação aos anteriores — deixaram claro que tamanho é, sim, documento. Com monopostos mais estreitos, o espaço é maior — e isso possibilita uma gama muito mais abrangente de movimentos.

Os Gen3 aproveitaram a largura da pista e fizeram uma corrida insana em Portland (Foto: Fórmula E)

Além de todo o frenesi em torno da temporada mais divertida de sua história, a Fórmula E também viu o Gen3 deixar um alerta. As pistas mais estreitas, tão marcantes da categoria, não apenas limitavam o potencial da nova máquina, mas também apresentavam perigo.

O ápice veio no eP de Roma, com uma oscilação suficiente para fazer o carro de Sam Bird perder o rumo e um ponto cego que impediu que quem vinha atrás visse o inglês atravessado na pista. O resultado foi um acidente fortíssimo, com potencial catastrófico o suficiente para fazer uma das pistas mais tradicionais da categoria ser retirada para 2024. Em seu lugar, não por acaso, entra Misano — que promete mais uma disputa frenética entre os ponteiros.

No fim das contas, o saldo é extremamente positivo. Depois de um começo preocupante e até perigoso, o Gen3 não deixa dúvidas de que foi um acerto. Os problemas existiram, como não poderia deixar de ser, e a Fórmula E foi lidando com um por um. Por sorte, o acidente em Roma não afetou a saúde dos pilotos, e a decisão de substituir a pista, apesar de triste, foi acertada.

No fim do ano que vem, o carro terá uma versão aprimorada, que levará em consideração todos os aprendizados até ali. É provável, inclusive, que aspectos visuais sejam alterados. Na pista, o Gen3 já se provou. Da negatividade na pré-temporada, o carro passou ao ‘caos do bem’ na grande maioria das corridas do ano. O público, que cresceu exponencialmente em 2023, agradece. E, com um conhecimento aprimorado por parte de pilotos e equipes, 2024 promete ainda mais.

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