“Meu foco, daqui pra frente, vai ser ganhar mais um ou dois títulos da FE nos próximos anos e tentar me manter no topo de uma categoria que está crescendo”

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Seis vitórias, 20 pódios. Terceiro colocado na primeira temporada, vice na segunda e, finalmente, o título em 2016/17. Seu currículo fala por si só. Lucas Di Grassi, paulista de 33 anos e um dos criadores da revolucionária Fórmula E, hoje consolidada por seu alto nível e pelo número cada vez maior de montadoras interessadas em ingressar no grid, começa seu quarto ciclo na categoria dos carros elétricos como o homem a ser batido. E não apenas por ostentar o #1 no seu carro ou por ser o atual campeão. A estrutura ao seu dispor, que já era de primeiríssimo nível, atingiu um patamar ainda maior, tornando-o ainda mais forte.

Nesta temporada 2017/18, que começa neste fim de semana com a rodada dupla nas ruas de Hong Kong, Di Grassi abre um novo ciclo não só para ele, mas também para a Audi na Fórmula E. Depois de atuar nos três primeiros campeonatos com a Abt, sendo a Audi parceira fundamental, a partir deste ano a icônica marca de Ingolstadt chega à categoria como equipe de fábrica.

O processo faz parte de um caminho sem volta para a montadora, que encerrou sua história vencedora no Endurance para focar no desenvolvimento dos veículos elétricos. Assim, a entrada na Fórmula E é uma decisão mais do que lógica. E Di Grassi é peça-chave desse quebra-cabeças.

Toda a estrutura disponibilizada pela Audi para a quarta temporada da Fórmula E apenas reforça Di Grassi como um dos protagonistas no campeonato. O brasileiro sabe, porém, que defender o título não vai ser tarefa fácil e espera uma batalha acirrada não só com a Renault do grande rival dos últimos anos, Sébastian Buemi, mas também com também outros ‘players’, como costuma dizer.

Claro que está no horizonte de Lucas buscar seu segundo título e construir uma história ainda mais vitoriosa na Fórmula E. Entre os seus desejos, contudo, um deles não vai ser realizado, ao menos no ano que vem: Lucas vislumbrava a chance de correr diante do seu público em São Paulo, mas o cancelamento da etapa brasileira adiou os planos para 2019.

Em entrevista exclusiva ao GRANDE PREMIUM, Di Grassi fala sobre o que espera para a temporada prestes a começar, as inovações que estão por vir, o que está bom e o que ainda pode melhorar na Fórmula E. Num ponto de vista mais pessoal, na esteira da nomeação como CEO da Roborace, categoria-suporte da FE para veículos autônomos, o brasileiro também revelou suas intenções para os próximos anos: deixar seu legado não apenas na Fórmula E, mas no automobilismo como um todo.

GRANDE PREMIUM: Lucas, o que é possível esperar dessa quarta temporada da Fórmula E?

Lucas Di Grassi: A FE vai ter o mesmo regulamento técnico da temporada 3, porém temos 10 kW a mais de potência, a mesma potência da classificação. Tirando isso, cada equipe desenvolveu a parte que dá para desenvolver: a suspensão traseira, câmbio, motor… na direção do que a Renault tinha no ano passado, com uma marcha só.

A gente tinha três marchas, e agora praticamente todo mundo no grid tem entre uma e duas. Isso vai deixar o grid muito mais perto, mais competitivo, com umas seis, sete equipes em posição de vencer corridas. Para nós, especificamente, demos um belo salto de performance, pelo menos é o que conseguimos sentir do ano passado para este. Mas por outro lado, porém, é uma fase de transição: de uma equipe privada para uma equipe de fábrica como a Audi Sport, então tem seus desafios.

GP*: Como está esse trabalho na fábrica da Audi? Como é essa diferença de ter todo esse suporte da Audi por trás?

LDG: A gente tem muito mais recursos. Tem uma fábrica, nossa própria pista na fábrica, simulador, toda a parte de engenharia e desenvolvimento, dinamômetro… É uma outra história. É a mesma fábrica onde a gente fazia os protótipos da LMP1 de Le Mans. E mais ou menos com o mesmo pessoal de parte elétrica do carro, praticamente o mesmo. Então mudou de nível. E ao invés de a gente ter diferentes fornecedores, agora temos tudo centralizado numa coisa só na Audi. Só a equipe que, em termos operacionais, ainda é a Abt, que continua.

O nível de profissionalismo subiu muito. Mas não só o nosso, o de todo mundo. Melhorou muito, evoluiu bastante. Então isso não vai tornar as coisas mais fáceis. Pelo contrário, vai ser mais competitivo em Hong Kong e no ano inteiro.
 

(Lucas Di Grassi em Valência (Foto: Audi Sport))

“A gente tem muito mais recursos. É uma outra história” (Audi Sport)

GP*: Qual a sua opinião sobre abrir ou não abrir a competição de baterias para as equipes?

LDG: Sem dúvidas, isso abre um monte de possibilidades novas para outros parceiros, mas tem de ser muito regulado para que os orçamentos não fiquem extremamente altos. Se você abrir completamente a tecnologia de baterias, ficaria muito caro, de modo que você precisaria de mais ‘budget’ para fazer um campeonato de FE do que de F1 do ponto de vista de tecnologia de bateria. O que acho totalmente errado, acho que a tecnologia tem de evoluir conforme o mercado evolui. Então, dá para abrir as baterias, dá para ser mais livre, mas precisa ter um controle de regulamento importante o campeonato.

Do estado da tecnologia como está hoje, acho que a Fórmula E fez certo ao manter a mesma bateria para todo mundo. Deixa a categoria mais competitiva. Além do ponto de vista técnico, gostaria de ver todos os carros da Fórmula E num nível de performance parecido.

 

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GP*: Olhando para sua performance no ano passado, você acha que esse desempenho pode crescer, pode melhorar? Ou beirou a perfeição?

LDG: De jeito nenhum. Acho que a segunda temporada foi melhor do que a terceira. Na segunda temporada praticamente não cometi nenhum erro, e na terceira acabei errando em um ou dois momentos no campeonato. Sempre dá para melhorar, principalmente porque no ano passado a gente não tinha um carro extremamente competitivo. E esse ano, espero que o carro seja mais competitivo. De qualquer forma, acho que a vitória no campeonato do ano passado foi a melhor do ponto de vista do carro que a gente tinha, do que a gente conseguiu vencer com a equipe, com durabilidade, estratégia… Foi um feito espetacular e muito mais difícil do que pareceu para o pessoal de fora. Quem entende a quantidade de tecnologia do que foi colocado e a diferença dos equipamentos, para a gente ganhar aquele campeonato foi um feito extraordinário.

GP*: Em termos de tecnologia, que mudanças você faria na Fórmula E? Em que aspecto a categoria poderia mudar e evoluir?

LDG: Basicamente, a categoria tem de evoluir nos próximos três e cinco anos, com o carro acelerando mais rápido que um F1. A grande vantagem do carro elétrico é a capacidade de aceleração, e nos circuitos de rua, mais importante do que a velocidade máxima é a aceleração do carro.

Então, acho que a gente já tem uma tecnologia hoje, mas se tudo correr conforme o mercado, caminhando nessa direção, acho que entre três e cinco anos o Fórmula E vai poder acelerar de 0 a 200 km/h mais rápido que um F1. Acho que esse é o target do ponto de vista tecnológico em geral, porque o motor elétrico é muito mais eficiente, com relação peso/potência muito maior que do qualquer motor a combustão. Então esse é o futuro da categoria: corridas curtas, ainda, mas com a aceleração mais alta.
 

(Audi Sport)

GP*: Sobretudo a partir deste ano, a F1 buscou trabalhar mais com o engajamento com os fãs. A Fórmula E sempre pensou muito nisso. Você acha que é bom o bastante ou ainda é algo que precisa trabalhar muito?

LDG: Ainda precisa trabalhar muito. A F1 ainda é a número 1, disparado. Não que vai ser assim para sempre, mas se você comparar as duas categorias, vai ver que a F1 está aí há 60, 70 anos, e a Fórmula E está aí há três. Mas o futuro dos esportes é ter essa interação maior, geração de conteúdo, o que a F1 resolveu fazer no período pós-Bernie Ecclestone. Porque era preciso fazer.

E a Fórmula E, criada do zero, está mais atualizada neste aspecto do que a F1. Então acho que esse é o futuro natural das duas categorias. Acho que elas ainda devem coexistir por muito tempo.
(Audi Sport)

Di Grassi começa a defesa do título da Fórmula E neste fim de semana em Hong Kong (Audi Sport)

GP*: Quanto ao campeonato em si: você disse que entre seis ou sete equipes podem lutar por vitórias nessa temporada. Mas em que pé você acha que fica essa disputa e a comparação entre a Audi e a Renault? Acha que essa briga fica num patamar mais igual em relação às últimas temporadas?

LDG: Ah, sem dúvida. Acho que a gente está muito mais perto da Renault do que jamais estivemos nas últimas temporadas. Agora, se isso vai ser o suficiente para brigar pelo campeonato, vai depender muito da qualidade, durabilidade, da confiabilidade, e dos pilotos, no meu caso, se vou conseguir entregar tudo o que o carro vai proporcionar ou se vamos ter de melhorar, mudar o carro. E a gente também não sabe o quanto os outros evoluíram. De repente, tem alguma outra equipe que nos treinos apareceu rápido e pode entrar na disputa. Não tem nenhum motivo para isso não acontecer.

Acho que, talvez ao invés de ter uma briga entre eu e o Buemi, como foi nos últimos anos, pode ter mais ‘players’ aí na briga, o que vai transformar o campeonato numa coisa mais interessante. A gente evoluiu bastante como equipe, mas todo mundo evoluiu, então acho que a disputa vai ser muito mais acirrada.

GP*: Pensando na Fórmula E em si, mas na sua carreira como um todo: você acha que o título da última temporada de alguma forma lhe tira um peso das costas?

LDG: Não digo tirar um peso. Sem dúvida, conquistar um título é muito bom. Já tinha batido na trave em vários campeonatos que disputei. Vice-campeão na GP2, vice no Mundial de Endurance na LMP1, segundo em Le Mans, vencei em Macau na F3… Mas em vários campeonatos fiquei ali no top-3 e nunca tinha vencido realmente um título FIA nos últimos anos. Depois de ter batido na trave duas vezes na Fórmula E, sendo terceiro e segundo, e praticamente ter perdido o campeonato pelas desclassificações que tive, uma em Berlim e a outra no México — perdi duas vitórias por erros da equipe —, esse título sem dúvidas foi essencial para a minha carreira.

Independente do que acontecer no futuro, um título já está guardado, mas a motivação é para conseguir mais títulos para o Brasil e, conforme a Fórmula E ficar mais importante, também conseguir mais vitórias e pódios para o Brasil. E sem dúvidas, com a Fórmula E crescendo, vai ser onde quero estar até o fim.

GP*: Com a ausência de brasileiros na F1, como você vê a possível entrada de outros pilotos do país na Fórmula E? O Felipe Massa chegou a ficar perto de correr nessa temporada antes de voltar à Williams; o Sergio Sette Câmara tem interesse, Pietro Fittipaldi tem interesse… então, entre os pilotos brasileiros, há uma popularidade muito grande. Como você vê essa possibilidade de outros brasileiros aparecerem no grid nos próximos anos?

LDG: É excelente ter outros pilotos brasileiros na Fórmula E. O pessoal está entendendo agora, especialmente os pilotos mais jovens, como o Sette Câmara, o Pietro, que se eles quiserem ser piloto profissional, receber salário para fazer o que eles gostam, que é correr de carro, uma das categorias [de topo] é a F1, na situação que está hoje, e a outra é a FE, que vai crescer cada vez mais, tem dez montadoras. A gente não sabe o futuro do DTM, do WEC, WTCC, ninguém sabe o futuro…  Mesmo a Super Formula no Japão, não dá para ser piloto profissional lá, uma categoria de suporte para o Super GT… A F1 e a FE vão ser as categorias mais importantes do automobilismo nos próximos cinco anos. Lógico que, hoje em dia, em curto prazo, a F1 vai estar acima da FE, isso é inegável. Porém, a FE vai crescer cada vez mais.

Os pilotos que hoje buscam uma vaga na F1 dependem muito do ponto de vista comercial, com todos esses pilotos entrando. Ou você tem uma conexão muito forte com uma montadora lá dentro, com uma equipe, ou então é muito difícil entrar lá e se manter. Se eles tiverem muito talento, vão poder ganhar a vida, um salário muito bom, bons resultados e serem reconhecidos na FE no futuro. Com a vinda das montadoras para a FE, existe um futuro muito promissor para a categoria.

Então fico feliz por ter ajudado a criar a FE há quatro anos atrás, quando pouca gente acreditava na categoria e nos veículos elétricos, e hoje em dia a diferença é muito grande em pouquíssimo tempo. Então é difícil, também, dizer como a categoria vai estar daqui a cinco anos. Mas com certeza vai estar melhor do que agora.
 

(AFP)

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GP*: Ser campeão depois de ter sido o primeiro piloto a bancar a categoria, tudo isso te dá, de certa forma, uma sensação de dever cumprido?

LDG: Acho que não é relacionado. Poderia ter ajudado a criar a FE como um dirigente e não como piloto. E estaria tão feliz quanto pelo fato de a categoria ter sucesso. E poderia não necessariamente ter ajudado a criar a FE, mas ter corrido e sido campeão, e isso seria o significado da minha qualidade como piloto. Minha visão da minha qualidade como piloto, são coisas desconectadas. Não há uma correlação.

Hoje em dia estou satisfeito pelos dois motivos completamente distintos: a categoria está indo bem, evoluindo, ajudei a criar desde o início, somei para a categoria ser forte, como está acontecendo agora; e do outro lado, do ponto de vista de piloto, depois de dois anos batendo na trave, eu venci, então isso, sem dúvidas, me deixa muito feliz.

GP*: Para fechar, Lucas, gostaria que você fizesse uma revisão do seu ano de 2017, no geral, não só na FE, mas como um todo.

LDG: 2017 foi muito interessante. Ganhei um campeonato de FE numa situação muito difícil. Tive minha primeira experiência num carro de GT, tanto em Le Mans como em Macau, então também foi muito interessante. Quebrei minha perna no meio do ano, o que não me ajudou em nada, só atrapalhou meu ano. Teve o processo de transição importante na FE, uma evolução grande na transição com a Audi agora no fim do ano.

Ajudei a construir a Roborace desde o começo e depois fui anunciado como CEO, presidente da Roborace meses atrás, ajudando a construir essa categoria que, para mim, ainda é prematura, mas vai ser importante no mundo de motorsport ou ‘motor racing’ daqui pra frente, sem querer comparar com o esporte em si. Acho que o mundo do automobilismo está mudando mais rápido do que as pessoas pensam porque o mundo automotivo está mudando mais rápido do que as pessoas pensam.

Então, às vezes minhas ideias, meus comentários, ou às vezes as categorias que eu apoio talvez sejam vistos como até meio malucas, de repente não sendo categorias tradicionais de automobilismo. Mas realmente faço aquilo que acredito, faço o que gosto, adoro automobilismo, estou trabalhando para a melhora do automobilismo tanto aqui como lá fora, tanto na parte de segurança como na de tecnologia ou dos eventos, deixar a categoria mais interessante, o piloto mais com o controle do carro, com mais segurança. O que puder ajudar no automobilismo, vou fazer. E meu foco, daqui pra frente, vai ser ganhar mais um ou dois títulos da FE nos próximos anos e tentar me manter no topo de uma categoria que está crescendo. Esses são meus objetivos pelo que foi feito nesse ano e os objetivos para o ano que vem.

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