António Félix da Costa está de equipe nova na Fórmula E e no WEC. O luso de 28 anos fala de gratidão à BMW, da saudade do Brasil e do que espera correndo pela DS Techeetah na Fórmula E e na equipe Jota no WEC. Sobre a Red Bull, diz não sentir saudades

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Menos de uma semana atrás, António Félix da Costa voltava de um período de férias nas paradisíacas Ilhas Maldivas. Entre as ondas nas águas cristalinas e os momentos de lazer, o lusitano já refletia sobre seu futuro nas pistas. Dias antes, anunciava publicamente sua despedida da BMW. Foi a marca alemã que o acolheu há quase seis anos, no início de 2014, depois de Félix da Costa se desiludir com a Red Bull ao ver o fim do sonho de chegar à Fórmula 1.

Hoje, os tempos são outros para o piloto nascido em Lisboa há 28 anos e morador da não menos paradisíaca Cascais. A saída da BMW, marca que lhe abriu as portas para um novo mundo, muito além da F1, e o colocou no DTM, no endurance e lhe deu a chance de disputar provas como as 24 Horas de Le Mans, representa a abertura de um novo ciclo de novas casas e uma nova vida.

Félix da Costa segue nos grids da Fórmula E e do Mundial de Endurance, frequentados por ele nos últimos anos. Só que, na categoria dos carros elétricos, António agora assume como piloto da campeã DS Techeetah, sendo o novo companheiro de equipe de Jean-Éric Vergne. E no Mundial de Endurance, veio a chance inesperada de assumir o volante na classe LMP2 ao substituir, de última hora, Pastor Maldonado na equipe Jota.

Quando se fala sobre Félix da Costa, uma das primeiras lembranças que vêm à mente é a sua passagem pelo programa de jovens pilotos da Red Bull e a forma como foi preterido, com a marca dos energéticos preferindo Daniil Kvyat em 2014. Dos taurinos, deixa claro: não há saudade, mas sim o respeito e a gratidão pelos tempos de aprendizado.

Mas o lusitano também é muito lembrado aqui no Brasil em razão das suas sempre ótimas participações na Stock Car. António já teve a chance de disputar duas vezes a Corrida de Duplas e, no ano passado, foi um dos protagonistas da Corrida do Milhão. O piloto revela que recebeu proposta até para disputar a temporada completa e quase acelerou no ‘Milhão’ no último mês de agosto, em Interlagos.

Com exclusividade ao GRANDE PREMIUM, Félix da Costa fala sobre como a passagem pela BMW o tornou um piloto melhor dentro e fora das pistas e também revela as expectativas correndo pela atual campeã da Fórmula E. AFC também recorda os exaustivos tempos de trabalho como piloto de testes da Red Bull e analisa o atual momento do programa de jovens pilotos da marca, bem como o rebaixamento de Pierre Gasly para a Toro Rosso e a ascensão de Alexander Albon à equipe tetracampeã do mundo.

Félix da Costa se despediu da BMW para mudar de casa na Fórmula E (António Félix da Costa se despediu da BMW neste ano (Foto: BMW))

Família BMW e a hora de ‘sair da zona de conforto’
 

“Foi bom demais!”. Assim, António resume o período em que esteve nas Ilhas Maldivas para surfar, relaxar e pensar no seu próximo passo como piloto profissional. “Como estou trocando de equipe na Fórmula E, estou um mês ‘bloqueado’, sem poder trabalhar com a equipe nova. Então, aproveitei para viajar”, revela.

Félix da Costa também avalia de forma positiva todo o período em que trabalhou com a BMW. Uma ligação que veio quase que por acidente depois de uma das maiores decepções da sua trajetória como piloto.

“Foi um período muito produtivo, obviamente. Foi uma história engraçada porque no mesmo dia em que recebo uma ligação da Red Bull falando que um lugar na F1 não estava mais disponível, na mesma chamada soube que iria correr com a BMW no DTM. Só que nesse dia não queria saber do DTM, não queria saber de nada… Mas hoje acho que foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha carreira”, diz.

“Essa foi a ajuda que a Red Bull me deu para achar um carro na BMW, e depois a BMW me acolheu de um jeito muito carinhoso. Foram muito bons para mim, desenvolvemos uma relação ótima que durou seis anos”, conta Félix da Costa, que se considera um novo piloto depois deste período ligado aos bávaros.

“A BMW fez de mim um piloto profissional. Foi meu primeiro emprego pra valer, digamos assim. Foi na época em que era piloto de testes da Red Bull na F1. Foram tempos muito bons. Cresci demais enquanto piloto, eles me fizeram entender o que é representar uma marca, desenvolver carros do zero: GT3, GTE, Fórmula E, DTM… Me envolvi em muitos projetos e desenvolvi os simuladores deles também. Aprendi muito e cresci muito como piloto. Mas estava precisando de uma mudança, e acho que apareceu a oportunidade certa”, admite.

A oportunidade certa mencionada por António é a equipe campeã da Fórmula E. A DS Techeetah, que o anunciou nesta terça-feira, é o lugar onde o lisboeta sonha em finalmente comemorar um título na elite do automobilismo. A saída da BMW não foi fácil, mas para Félix da Costa, o momento se compara um pouco com o filho que deixa a família para morar sozinho.

“Estava pronto para ficar mais tempo ainda com a BMW, mas aí surgiu uma oportunidade muito boa e que para mim era difícil dizer não. E, nas nossas vidas, às vezes temos de fazer mudanças que não estão previstas. Levando em conta minua situação enquanto atleta, enquanto piloto, acho que, pela oportunidade que surgiu na Fórmula E, tinha de aceitar”, explica.

“É parte de um processo muito complicado, parei muito para pensar, coloquei lado a lado no papel os prós e os contras e, no fim das contas, achei que a decisão certa a tomar era arriscar, sair da zona de conforto e ir para uma equipe que, no fundo, é a campeã da Fórmula E. Obviamente, tenho de largar uma família e partir para um começo completamente novo, mas acho que é o momento certo”, garante.
 

(António Félix da Costa no topo do pódio em Zandvoort no DTM (Foto: BMW))

Saída sem mágoas
 

Em maio deste ano, a BMW anunciou os seus planos para o futuro. O que mais surpreendeu não foi a extensão dos seus planos para a Fórmula E e tampouco a permanência no DTM, mas sim a saída repentina do Mundial de Endurance depois de apenas uma temporada. Félix da Costa era um dos pilotos da montadora bávara no WEC, assim como o brasileiro Augusto Farfus.

António conta que recebeu a notícia do adeus repentino da BMW do WEC com estranheza, mas entende que o gesto da montadora não foi necessariamente o que definiu a sua saída da marca.

“Complicado dizer. Diria que não diretamente, até porque, neste momento, voltei ao WEC na LMP2 com a Jota, estou muito contente. A própria BMW tinha me dado a liberdade para procurar outras oportunidades no WEC também, mesmo continuando como piloto dela. Obviamente, um projeto que dura apenas um ano não era a ideia de ninguém, não era o objetivo de ninguém, ainda mais por ser um projeto onde não fomos particularmente bem-sucedidos. Claro que isso não me deixou contente, mas não diria que a retirada do WEC que me fez sair da BMW”, afirma.

O lusitano, entretanto, entende que a marca bávara poderia ter ido muito além no seu ano de estreia como equipe de fábrica na Fórmula E. Isso porque a BMW se apresentou como a força dominante nos testes de pré-temporada, em Valência, o que foi muito significativo por ter se tratado dos primeiros trabalhos coletivos com o Gen2, o novo carro da categoria elétrica.

Na abertura da temporada 2018/19, em dezembro, a confirmação do poderio da BMW veio com a vitória de Félix da Costa no eP de Ad Diriyah, na Arábia Saudita. Em janeiro deste ano, em Marrakech, António tinha tudo para assegurar outro triunfo e disparar no campeonato, mas um acidente envolvendo seu companheiro de equipe, Alexander Sims, fez o lisboeta perder um triunfo que parecia certo.

Daí em diante, a temporada de Félix da Costa teve momentos bons, como o segundo lugar no México, e outros mais complicados. De favorito ao título, António terminou o campeonato apenas em sexto, com 99 pontos, 37 atrás do campeão e novo companheiro de equipe, Vergne. E a BMW finalizou em quinto no campeonato entre as equipes, quase 100 pontos atrás da nova equipe do português.

A BMW deu pinta de que dominaria a temporada 2018/19 da Fórmula E (BMW na Fórmula E (Foto: BMW))

Nesse sentido, AFC não se furta a falar que o sentimento é de muita decepção.

“Claro, claro que sim, sem dúvida que sim. As razões pelas quais ficamos um pouquinho para trás do meio do ano para frente é uma outra história, mas claro que, quando você começa um ano tão forte e vê o título fugir depois…”, diz o piloto, antes de fazer uma breve pausa.

Na visão de Félix da Costa, o sentimento é que a BMW relaxou em meio à força demonstrada no começo da temporada. “Para mim, nos meus olhos, os outros trabalharam num ritmo alucinante, enquanto nós talvez abrandamos um pouquinho. E, de fato, começamos o ano bem por cima, até que eles igualaram e terminaram mais fortes. Claro que para mim, como piloto, como atleta, é uma decepção”, admite o luso, dividindo o revés com o time.

“Falhamos todos. Como equipe, ganhamos e perdemos juntos, e falhamos todos nessa área”.

O título como meta e a ‘ameaça’ Mercedes
 

António é um dos pilotos que faz parte do grid da Fórmula E desde o começo, na temporada 2014/15. Ao todo, AFC tem um total de 54 largadas, duas vitórias, uma pole e um total de cinco pódios, sendo quatro conquistados no último campeonato.

Números abaixo do potencial de Félix da Costa como piloto. E ciente de que é possível entregar mais, o luso aceitou o desafio de sair da zona de conforto e acelerar por uma nova equipe. O objetivo não é simplesmente elevar os números do seu currículo, mas sim ser um grande candidato ao título elétrico.

“Essa é a ideia. Sinto que, o mais importante enquanto piloto e enquanto atleta, é tentar proporcionar tudo o que consiga para lutar por vitórias e títulos. Acho que essa mudança é claramente com essa intenção, e por estar na equipe campeã nos dois últimos anos, claramente esses são os objetivos”, avisa.

Contudo, mesmo com a força demonstrada pela DS Techeetah, ainda mais com todo o suporte do grupo PSA Peugeot-Citroën, dono da marca DS, Félix da Costa alerta para o poderio das marcas alemãs, envolvidas de forma plena na Fórmula E e, a partir de 2019/20, com quatro das suas maiores montadoras: Audi e BMW ganham a companhia de Porsche e Mercedes.

“A Fórmula E está cada vez mais competitiva, agora com uma guerra praticamente alemã, com as quatro maiores casas da Alemanha, tenho certeza de que essas equipes vão colocar muito esforço para serem competitivas. E quando uma equipe ganha por dois anos seguidos, como você vê na F1, por exemplo, isso talvez faz dela não uma equipe odiada, mas ela vira o alvo”, explica.

“Então fui claramente para ter o alvo nas costas neste momento. Acho que temos tudo o que precisamos para lutar e, tendo uma DS por trás — obviamente, não é uma marca da mesma gama de uma BMW ou Porsche —, mas o grupo PSA, em que estão inseridas Peugeot, Citroën e Opel, é um dos, ou talvez o maior grupo de automóvel do mundo. Por isso não acho que precisamos desprezar, nem de perto e nem de longe, o que uma DS pode ter e, por isso, tenho certeza que não vão faltar recursos para poder acompanhar bem de perto, ou até por cima, essas marcas alemãs”, continua AFC.
 

(António Félix da Costa é o novo piloto da DS Techeetah (Foto: DS Techeetah))

Dentre as novidades alemãs, a Porsche, depois de anos de sucesso no Mundial de Endurance e em Le Mans, entra na Fórmula E com a dupla formada por Neel Jani e André Lotterer. É justamente a vaga de Lotterer que Félix da Costa vai ocupar na DS Techeetah. E a Mercedes, grande força dominante da F1 desde 2014, anunciou na semana passada que, depois de um ano experimental como HWA, vai ao grid elétrico com Stoffel Vandoorne e Nyck de Vries, este bem perto do título da Fórmula 2.

Quanto à Mercedes, Félix da Costa entende que o nível de competitividade da Fórmula E faz com que um domínio exercido nos moldes do que é hoje na F1 seja algo pouco plausível, mas não totalmente impossível.

“É um contexto bem diferente, mas não descartaria essa hipótese, claro que não. Se bem que o regulamento da Fórmula E é mais fechado que o da Fórmula 1. Por exemplo: na FE, tudo o que as marcas podem fazer é a motorização elétrica, toda a parte de regeneração [de energia] e um pouquinho da suspensão traseira. E todo o lado de aerodinâmica, desenvolvimento de chassi, suspensão dianteira, tudo isso fica fora”, conta.

“Do jeito que o campeonato da Fórmula E está desenhado, é muito difícil alguém dominar. E acho que é isso o que torna o campeonato da FE tão apaixonante, tão imprevisível e que vem conquistando tantos fãs como nos últimos anos”, diz o piloto.

O Team Jota é a nova casa de Félix da Costa no WEC (Team Jota )

Um novo horizonte também no endurance
 

O fim do sonho da Fórmula 1 abriu o amplo horizonte do turismo e das corridas de longa duração para Félix da Costa. Pela BMW, teve a chance de disputar corridas clássicas de GT, como as 24 Horas de Nürburgring e, por duas vezes, as 24 Horas de Le Mans. De protótipos, António correu as 24 Horas de Daytona pela equipe Jota, em parceria com a Jackie Chan Racing.

A saída da BMW do projeto do WEC aproximou novamente Félix da Costa da Jota. Mas a chance de voltar ao Mundial de Endurance para correr na classe LMP2 nesta temporada 2019 veio de uma forma inesperada, depois da saída inesperada do ex-F1 Pastor Maldonado.

Para AFC, resta a felicidade por poder ter a oportunidade de lutar, de forma paralela, por dois títulos mundiais. “Desde que soube que a BMW sairia do WEC comecei a alinhar para tentar arranjar um lugar em uma equipe de LMP, seja LMP1 ou LMP2. E foi aí que surgiu essa oportunidade, apenas uma semana antes de o campeonato começar. Não sei o que aconteceu, foi uma decisão do Pastor tomada em conjunto com o Roberto González também, com a equipe. Não sei o que houve, acho que ele não tinha mais vontade”, diz.

“E eu conhecia a Jota de ter feito Daytona em 2018 com eles e sempre tivemos um bom contato. Eles precisaram de um piloto há uma semana e meia para o começo do campeonato, ligaram e claro que aceitei. O Roberto e o Anthony Davidson são, acima de tudo, pessoas de muito bom valor e pilotos muito bons. A Jota também é uma equipe muito boa, então vi uma hipótese muito boa de poder lutar pelo título. Então, poder aliar os dois campeonatos é ótimo”, emenda.

Com saudades do Brasil
 

Félix da Costa tem muitos amigos e outros tantos fãs no Brasil. Fruto do seu talento e também das ótimas atuações quando teve a oportunidade de correr na Stock Car. Foram cinco provas entre 2015 e 2018. Em quatro delas, AFC foi ao pódio, sendo a última prova a Corrida do Milhão do ano passado, quando acelerou com o carro da equipe RCM, então patrocinada pela Hero.

António conta que quase fez a Corrida do Milhão deste ano, mas garante que sua passagem pela Stock Car está longe de terminar.

“Recebi algumas propostas até para fazer o campeonato inteiro, mas isso fica um pouco complicado. Como não teve Corrida de Duplas neste ano, infelizmente não pude estar presente. Depois estive muito próximo de fazer a Corrida do Milhão, mas acabou por, também, infelizmente não acontecer”, explica.

“O ‘Mau Mau’ [Maurício Ferreira, chefe da Full Time] me ligou faltando cerca de um mês para a Corrida do Milhão falando que havia uma pequena chance de ter mais um carro, e depois acabou por não acontecer, infelizmente. É um campeonato que eu adoro, sou sempre muito bem recebido, é um carro que se adapta bem à minha forma de pilotar, sou sempre rápido aí, adoro. Sempre tento voltar”, diz.

“Tenho contatos com o ‘Mau Mau’, com o ‘Meinha’ [chefe da RC Eurofarma e RCM], as duas equipes em que corri até agora. Se calhar de ter um carro para voltar e a oportunidade surgir, vou voltar”, garante o português.
 

(António Félix da Costa no pódio da Corrida do Milhão de 2018 (Foto: Duda Bairros/Stock Car))

Sem saudades da Red Bull
 

2012 representou um grande salto na carreira de ‘Formiga’, seu apelido de infância. António foi escolhido para fazer parte do Red Bull Junior Team, o conhecido programa de jovens pilotos da equipe taurina, que havia revelado anos antes ninguém menos que Sebastian Vettel. Era por meio do time de Milton Keynes que Félix da Costa tinha a chance de concretizar o sonho de um dia fazer parte da F1.

Dois anos antes, no fim de 2010, Félix da Costa já tinha recebido a chance de pilotar um carro da F1, pela Force India, em uma sessão reservada apenas aos novatos em Abu Dhabi. Na temporada anterior, AFC havia se sagrado campeão da F-Renault NEC (Norte Europeia), deixando para trás nomes como Kevin Magnussen e Pipo Derani.

Com o suporte da Red Bull, Félix da Costa passou a correr no forte grid da World Series assumiu o lugar de Lewis Williamson em um dos carros da Arden Caterham, tendo Alexander Rossi como companheiro de equipe. O encaixe do luso à nova categoria foi perfeito. Mesmo tendo entrado no meio do campeonato, António conquistou quatro vitórias e um total de seis pódios. O quarto lugar, atrás somente de Robin Frijns, Jules Bianchi e Sam Bird, foi quase como um título.

Paralelamente, o piloto também viveu uma campanha vitoriosa na GP3 — hoje F3 —, tendo em Hungaroring uma jornada inesquecível ao conseguir o feito de vencer as duas corridas da rodada dupla. Diante dos olhos da F1, Félix da Costa marcava terreno e chamava a atenção. E, no fim do ano, AFC fazia história ao vencer a corrida de F3 mais difícil e importante do calendário, o GP de Macau.

Félix da Costa estava na crista da onda. A chance de fazer parte do Red Bull Junior Team levou o lisboeta a pilotar frequentemente o carro taurino, sendo um dos responsáveis pelo desenvolvimento de algumas peças. Ao longo de 2013, os trabalhos foram mais intensos, já que a equipe lutava para consolidar a hegemonia daquele início de década.

Félix da Costa ficou muito perto de realizar o sonho da F1

Na World Series, António fez uma temporada bem honesta, porém menos brilhante do que no ano anterior, ficando em terceiro lugar após faturar três vitórias. Daquela vez, curiosamente dois nomes que foram ligados à McLaren terminaram à frente do luso no campeonato: Magnussen, o campeão, e Stoffel Vandoorne.

Só que Félix da Costa tinha um concorrente forte por uma vaga na F1 em 2014. A Toro Rosso, equipe B da Red Bull, tinha um cockpit disponível depois que Daniel Ricciardo subiu para a matriz para substituir Mark Webber, aposentado da F1. O português chamava a atenção, mas o franzino russo Daniil Kvyat também teve um 2013 muito bom, com direito à conquista do título da GP3. No fim das contas, Helmut Marko e Christian Horner optaram por contratar Kvyat para a Toro Rosso.

Era o fim do sonho da F1 para Félix da Costa.

Quase seis anos depois, António lembra os tempos que passou servindo ao programa da Red Bull e, ao ser questionado se sente saudades, conta como foi exigido antes de ter sido descartado e ver o sonho cair por terra.

“Saudade não é a palavra certa. Que é uma boa marca, uma boa escola, sem dúvidas. Mas o problema da Red Bull é que, naquela fase da minha vida, eu era explorado, quase. Tive de mudar para a Inglaterra porque ficava muito, muito, muito no simulador; ou os caras iam experimentar um novo alternador para um carro de F1, aí tinham de colocar essa peça num carro de dois anos atrás para você não ter limite de testes, você ia para um circuito da Inglaterra e andava, andava, andava… Era muito trabalho”, recorda.

“Obviamente, trabalhar com uma equipe àquela altura campeã do mundo de F1 era algo que adorava, mesmo, mas era muito trabalho. Mas é uma marca que sempre adorei, sempre vou adorar”, garante Félix da Costa, que não descarta nem mesmo um retorno.

“Tenho muito respeito por todos, ainda mantenho contato com o pessoal, e você nunca sabe o dia de amanhã. Agora a Fórmula E tá exigindo muito, o WEC também, com o hipercarro chegando… Nunca fecho as portas, mesmo com a BMW terminou tudo bem, por isso é sempre importante terminar as relações de uma boa forma”, comenta.

Assim como foi com António, outros tantos pilotos com talento acabaram ficando pelo caminho e fora do Red Bull Junior Team. Em 2019, o rebaixado Kvyat voltou de vez para a Toro Rosso, enquanto Alexander Albon, depois de ter sido limado do programa, teve um retorno triunfal, com direito a um rompimento de contrato com a Nissan na Fórmula E para fazer dupla com o russo. Na Red Bull, a saída de Ricciardo para a Renault proporcionou a grande chance de Pierre Gasly, que teve ao seu lado nos boxes o espetacular prodígio holandês Max Verstappen.

No fim das contas, Gasly não rendeu o que a Red Bull esperava. Em um movimento que não chegou a ser surpresa, o francês foi outro a ser rebaixado, caindo da equipe tetracampeã para a Toro Rosso, enquanto Albon, após boas apresentações, ganhou sua chance de fazer a parte final da temporada pela terceira força da F1.

Vendo de fora tudo o que aconteceu e o que acontece na Red Bull, Félix da Costa entende que a volta de Gasly para a Toro Rosso pode até ser benéfica pensando mais à frente na carreira.

“É muito difícil para analisar. Me dou muito bem com o Pierre, me dou muito bem com o Max, dividi apartamento com o Daniil, o Albon também conheço bem, éramos do Junior Team ao mesmo tempo, quando eu estava na World Series ele estava na F-Renault. É complicado fazer essa análise”, comenta.

“Acho que o Pierre é muito melhor do que foi visto e acho que é muito fácil na Fórmula 1 as coisas irem mal. Já estava com uma pressão enorme, tendo como companheiro de equipe o Max que é ultrarápido. Mas acho que pode ser bom para ele, falei com ele e acho que, apesar de tudo isso, pode ser uma coisa boa. Veja o Kvyat, parece um gato com sete vidas na Fórmula 1 e o Pierre tem essa oportunidade também”, diz o português.

“Continua na F1, agora com menos atenção em cima dele, entender porque as coisas não foram bem e pronto. Todos ali são bons, e há a opção de extrair o melhor de cada piloto. Pierre pode ser tão bom quanto o Max, mas com condições diferentes, setup diferente, não sei, isso já não estou por dentro, não posso explicar qual foi a razão. É assim é a vida”, resume.

Por outro lado, Félix da Costa entende que o Red Bull Junior Team tem suas peculiaridades, mas não hesita quando, antes de falar sobre a situação do mexicano Patrício O’Ward — que deixou a Indy para fazer parte do programa da Red Bull, mas não fez boas apresentações até agora na F2 e na Super Fórmula japonesa —, deixou claro: recomendaria o Junior Team a um jovem piloto.

“Sim. A forma como o Pato O’Ward entrou é muito complicado, muito complicado. Aliás, foi a forma como eu entrei, uma equipe inglesa na World Series, e entrei no meio do ano. Passou duas corridas e já estava vencendo, acabei o ano vencendo contra o Jules Bianchi, Sam Bird, Robin Frijns, todos eles… Mas como falei, tem de ter sorte com as pessoas que estão à sua volta, equipes boas, pessoas que confiam em você, e aí as coisas podem ir bem”, explica.

“Não sei as condições do Pato, quais equipes, mas ir para o Japão, entrar na F2 assim no meio, é muito complicado. Não sei, era um cara que estava fazendo carreira na América, um grande nome na América, e agora não sei como vai ser. Espero que faça um bom trabalho”, torce.
 

(As Red Bull sobram à frente do pelotão intermediário (Foto: Red Bull Content Pool))

O sonho americano
 

Em meio às tantas experiências já vividas ao longo da carreira, Félix da Costa revela que gostaria de cruzar o Atlântico em busca de um novo e grande sonho nas pistas.

“Adoraria correr na Indy”, admite o piloto, que fez menção ao seu chefe nos tempos de Fórmula E. “Sempre pedi ao Michael Andretti, quando me encontro com ele, para arranjar um teste. Espero que aconteça em um futuro próximo um teste na Indy”.

AFC deixa claro que está focado no momento na Fórmula E e também em seu novo desafio no WEC. Mas o piloto avisa que a Indy é algo que jamais descartou da sua carreira.

“Neste momento estou competindo em dois campeonatos. Por isso, se puder lutar pelos dois mundiais em um ano só, esse é o principal objetivo. Mas a longo prazo, adoraria correr na América, na Indy, gostaria muito. Talvez esse seja um objetivo que neste momento esteja um pouco longe, mas não é impossível”, encerra Félix da Costa enquanto se prepara para viver o outro sonho: lutar pelo título da categoria dos carros elétricos.

Félix da Costa ao lado do seu agora ex-chefe na FE, Michael Andretti (António Félix da Costa ao lado de Michael Andretti (Foto: BMW))
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