"Depois do acidente, acho que ninguém deveria ter se surpreendido com o fato de eu fazer piadas, rir, ser otimista ou sorrir. É muito simples: isso sou eu"

Em 2008, Alessandro Zanardi ainda não era um campeão paraolímpico, mas já tinha ganho ares de mito esportivo. Pouco mais de seis anos após o acidente em Lausitzring, que completa 15 anos nesta quinta-feira (15), Zanardi era piloto profissional novamente — e contratado pela BMW. Quando chegou ao Brasil para disputar a etapa curitibana do WTCC, falou ao GRANDE PRÊMIO em longa entrevista. Nela, contou de sua trajetória no automobilismo, a chegada e retorno à F1 e a vida como astro da Indy. Além, claro, de como era sua vida após o acidente.

Confira a matéria realizada à época pela atual editora do GP, Evelyn Guimarães, e pelos ex-repórteres da casa Marcus Lellis e Bruno Vicaria.

Zanardi ganhando o carro da ultrapassagem lendária em Herta (Zanardi recebe de Chip Ganassi o carro com que fez ‘The Pass’ (Foto: AP))

A melhor frase sobre Alessandro Zanardi foi dita por nosso companheiro de coberturas, o fotógrafo Luca Bassani. "Você olha para o Zanardi e nem lembra do que ele já passou." E é exatamente isso. O italiano passou por um dos maiores dramas que um ser humano poderia viver, ainda mais um piloto, que foi perder suas pernas. Mas, ao ver a serenidade e alegria estampada em seu rosto, nem somos capazes de relembrar isso.
 
Isso é Alessandro Zanardi: um cara extremamente de bem com a vida. E, como ele próprio diz, louco. "Não posso dizer que voltei a viver normalmente depois do meu acidente, porque nunca vivi normalmente antes, simplesmente pelo fato de que eu não sou um cara normal", afirmou. O GRANDE PRÊMIO teve a oportunidade de conversar com o piloto de 41 anos no sábado que antecedeu as primeiras provas da temporada 2008 do WTCC, em Curitiba.
 
Marcamos a entrevista para a parte da tarde, durante um encontro de representantes da BMW com jornalistas nacionais e internacionais. Bruno, Evelyn e eu sentamos à mesa com Alex, sob o olhar de muitos curiosos, que simplesemente paravam tudo para ouvir as histórias do bicampeão da Cart. Com seu inglês tipicamente italiano, nos contou sobre diversas passagens de sua vida. Sobre F1 — a escolha pela Lotus, deixando de lado uma futura Benetton campeã; a trajetória pela Cart e a longa e divertida negociação de sua contratação por Chip Ganassi; a volta para a F1 e sua nova decepção.
 
História é o que não falta para este lutador. Aliás, como todos os italianos, gosta de falar muito, e com as mãos. Não foram poucas as vezes que deu tapas e fingiu estrangular o repórter que vos escreve, simplesmente para dramatizar suas histórias. Os leitores notarão que a maioria das linhas é de respostas de Zanardi. Ele realmente não parava de falar, e quem somos nós para impedi-lo? Pagamos um preço, porque, certa hora, um assessor da BMW veio a nós perguntando: "Quando essa entrevista vai acabar? Os engenheiros precisam se reunir com ele."
 
Pedimos mais dez minutos e completamos nosso papo. Ainda havia muitas perguntas, mas, no final, conseguimos declarações que já são suficientes para tornar o papo em uma Grande Entrevista.
 
GRANDE PRÊMIO: Como você definiria sua carreira?
 
ALESSANDRO ZANARDI: Incrível. É claro que tive muitos momentos ruins, mas também situações recompensadoras. Diria que tive muitos altos e baixos ao longo desses anos. Mas acho também que tive muita sorte. 
 
GP: Como você se tornou piloto?
 
AZ: Não foi um caminho muito fácil. Nunca imaginei que me tornaria piloto e isso nem passava pela minha cabeça. Mas era apaixonado por F1 e acompanhava todas as corridas pela televisão. Aí meu pai me levou para andar de kart. Naquela época, eu não sabia nada sobre karts, mas foi assim que entrei no automobilismo. Para mim, só existia a F1. Mas quando completei a minha primeira volta, senti uma emoção tão grande, que simplesmente me apaixonei por aquilo ali. E, naquele momento, sabia o que eu queria fazer da minha vida. Mas eu andei tão devagar, que todos me passaram e, mesmo assim, queria fazer aquilo. Parecia loucura e estupidez, porque eu era muito lento. Mas estava decidido. Então, me mantive otimista e trabalhei duro para tornar realidade o meu sonho.
A ultrapassagem de Zanardi em Herta (Zanardi e Herta)
GP: Você sonhava em correr pela Ferrari?
 
AZ: Certamente. Quando era garoto o meu único sonho era esse: ser campeão mundial pela Ferrari na F1. 
 
GP: Você sente não ter competido nos carros vermelhos?
 
AZ: Uma das coisas mais importante que aprendi na minha carreira, e aprendi de forma bastante complicada, foi fazer uma clara distinção entre sonhos e objetivos. Sonho é uma coisa que todos devem ter. È algo nos motiva, que nos deixa louco. Mas é sonho, porque nunca sabemos até aonde eles podem nos levar. Não sabemos o que vamos encontrar na estrada. Por outro lado, os objetivos são coisas que podemos de fato fazer. Você trabalha duro, com o que tem e vai descobrindo aos poucos onde melhorar. E se você tiver talento suficiente, irá atingir seus objetivos. Existiu um momento na minha carreira que a Ferrari foi um objetivo e não um sonho. Isso aconteceu na metade de 1998, antes de assinar com a Williams. Estava conversando com a Ferrari e houve uma possibilidade real de ser selecionado como um piloto com potencial para guiar na Ferrari. Mas não deu certo. 
 
GP: Você entrou por duas vezes na F1, como foi a primeira?
 
AZ: Meu começo foi bastante interessante. Em 1990, estava na F3, andei bem e terminei o campeonato como vice-campeão. E ganhei também o campeonato europeu daquela categoria. Mas jamais imaginei que no ano seguinte estaria competindo na F-3000 e, mais do que isso, que faria a minha estréia na F1 antes do final do ano. E posso dizer que aquilo foi, definitivamente, um sonho que se tornou realidade. Mas quando você está na F1 é preciso ser um piloto vitorioso, mostrar resultados, marcar pontos e alcançar boas posições. Felizmente, essa "pressão" não aconteceu tão rapidamente comigo. Poderia ter acontecido, porque o carro da Jordan era realmente muito bom. Por exemplo: nas últimas três corridas que participei em 1991, estive muito perto de conquistar um bom resultado, especialmente no GP do Japão, em que estava na quinta posição, um estreante, e tive problemas. Acho que minha carreira teria sido diferente se tivesse alcançado o pódio naquele dia. Mas não foi o que aconteceu e também não me considerei um cara sem sorte por causa disso. Afinal, corridas são assim mesmo. Às vezes, é preciso lembrar que já temos sorte por sermos capazes de competir. 
 
O ano seguinte foi bastante difícil, porque o Eddie estava à procura de patrocinadores, porque ele havia perdido alguns. E a escolha de um piloto envolvia um grande negócio, ou seja, o piloto teria que trazer um patrocínio grande para a equipe. Então, fui dispensado do time apenas uma semana antes do início do Mundial. Eu me lembro muito bem do dia em que ele me disse: "Alex, você está fora". Na mesma hora, liguei para Ken Tyrrell. O 'velho' foi muito vago ao telefone e eu queria uma resposta. Então, entrei no primeiro avião para a Inglaterra e fui bater na porta dele. "Estou aqui para ver o Sr. Tyrrell e possivelmente ele não está me aguardando." Então, eles me fizeram esperá-lo. E depois alguns minutos, ele apareceu e disse: "O que você está fazendo aqui?" E respondi: "Olá, Sr. Tyrrell, sei que são apenas palavras… Mas, para ser sincero, é tudo o que eu tenho. Além do meu entusiasmo e do meu talento. São apenas palavras, mas sei que o senhor possui um bom carro e que ainda tem uma vaga disponível em sua equipe. Estou aqui porque acho que posso fazer um grande trabalho para o senhor. E vim até aqui pessoalmente para lhe dizer isso e para mostrar ao senhor o quanto sou determinado. Sei que talvez essa atitude não faça diferença, mas no final das contas, às vezes, é preciso arriscar e é assim que sou." Ele somente disse: "Ok, espere um pouco aqui e tome um pouco de chá." Naquele dia, acabei tomando litros de chá, porque ele me fez esperar mais de uma hora e meia. E quando voltou, estava com o diretor-chefe da equipe. Aí me disse: "Certo, estou chocado com seu comportamento, mas decidimos que vamos assinar com você. Porque preferimos investir em alguém jovem e promissor. Você será nosso piloto, mas estamos conversando com uma outra pessoa que tem um patrocínio de US$ 6 milhões." Três dias depois, ele me disse que optaram pelo cara que ofereceu o dinheiro. Quer dizer, perdi dois lugares em menos de uma semana. O primeiro na Jordan e o segundo na Tyrrell.
 
Então, estava vendo a primeira corrida do ano pela TV e recebi uma oferta da Benetton para ser piloto de testes. Foi uma boa oferta do sr. Briatore, mas a verdade é que eles não me usaram em boa parte do ano para testar os carros. Mas em um determinado momento, teve um teste em que eles não sabiam quem chamar, porque o Michael Schumacher não estava disponível e o Martin Brundle estava fora do time. Aí eles se lembraram de mim. No final das contas, o treino foi muito bom. O carro era muito bom, mas eu andei bem também. Eles gostaram dos resultados e passaram a me chamar. Aí teve um treino, em Paul Ricard, em que o Schumacher estava andando com o carro e estava virando voltas muito rápidas. O outro carro estava com Ricardo Patrese. Era a primeira vez que estávamos andando com aquele carro, mas a equipe não estava feliz, porque estávamos tendo muitos problemas. Virava dois décimos acima do tempo de Schumacher. O Pat Symonds, que era o engenheiro do carro, me chamou para trocar informações sobre os testes e me disse que eu faria uma simulação de corrida. Eu disse: "Uau!! Vamos lá". Ele falou que faríamos com os mesmos pneus e que eu teria de completar dez voltas. E nessas dez voltas, fui mais rápido do que o Michael. Quer dizer, isso foi uma boa notícia para mim. E naquela mesma noite, Peter Collins (chefe da Lotus) assinou um contrato liberando Mika Hakkinen para a McLaren. Então, naquela mesma noite, voltei ao mercado de pilotos. Isso aconteceu no mesmo dia em que fiz os testes pela Benetton e fui bem. A equipe percebeu que poderia ser tão rápido quanto Michael. Foi quando Peter veio falar comigo. Ele disse que havia uma vaga no time e que estavam interessados em mim. E respondi: "Claro, adoraria fazer parte da equipe. Na verdade, é o que mais quero agora". Diante disso, no dia seguinte, fui ver o Briatore para explicar a situação. Ele disse: "Para mim, você está cometendo um erro. Neste momento, não posso te oferecer uma vaga como piloto titular. Mas, se quiser ficar conosco, posso assegurar que você será nosso terceiro piloto e participará de todos os testes para adquirir experiência. Também não acho que o Ricardo ficará muito tempo conosco, porque já está velho e tudo pode acontecer. Ninguém pode prever nada. Para mim, você é muito rápido e estamos contentes com sua performance. Acho que deveria continuar conosco, permanecer nesta família. Talvez fosse interessante você competir na F-3000 no Japão. Ganharia para correr e nós poderíamos te pagar, também." Mas, naquela época, eu era muito jovem e queria correr. Por isso decidi fechar negócio com a Lotus. Foi o que fiz. 
 
Na primeira parte da temporada, fui muito bem e consegui apresentar um bom desempenho. Mas o carro quebrava muito também. Só que aí, na segunda metade do ano, meu companheiro de equipe (o inglês Johnny Herbert), que não era mais rápido do que eu, começou a marcar pontos e ter performances melhores. E acabei enfrentando muitos problemas com o carro. E chegou em um determinado momento que ele tinha marcado seguidamente dez pontos, e eu, somente um. Foi aí que comecei a ficar nervoso e cometer erros, porque estava tentando ser mais rápido… nisso, sofri o acidente em Spa-Francorchamps. Não foi minha culpa, a batida foi causada por uma falha na suspensão. Foi um acidente muito forte e fiquei de fora de duas corridas por causa disso. Quando estava pronto para voltar, o time estava desesperado por dinheiro, e eles acabaram contratando o Pedro Lamy, que era um ótimo piloto. Lamy trouxe ótimos patrocínios para o time. Então, fiquei de fora do resto do campeonato. Naquele momento, achei que minha carreira tinha acabado. A única oportunidade que tive foi de ficar como piloto de testes da Lotus e agarrei essa chance. Acho que fiz um ótimo trabalho. E quando Lamy sofreu o acidente em Silverstone (durante treinos) e quebrou as pernas, a escolha do time por mim foi natural e acabei correndo a temporada inteira. Acredito que fiz um bom trabalho. Mas a verdade é que o carro era terrível. Quebrava muito e, além disso, estávamos sempre atrasados com o desenvolvimento. Então, quando a equipe quebrou no final daquele ano, a minha carreira também acabou na F1. Em 1995, o único emprego que encontrei foi em uma escola de pilotagem. 
 
GP: Para você, a opção pela Lotus foi um erro? 
 
AZ: Acho que na vida, quando você precisa fazer uma escolha, não sabe muito bem se aquilo irá te levar para o caminho certo. Mas é possível, talvez se tivesse ido para a Benetton, a minha carreira teria sido diferente. Na verdade, ninguém sabe ao certo se isso iria dar certo ou não. O que posso falar é que não tive sorte em alguns momentos, mas, provavelmente, deveria ter tido mais paciência para fazer o melhor com aquele carro, porque na segunda metade da temporada estava tentando fazê-lo melhorar e acabei exagerando. Porque o meu companheiro de equipe estava marcando pontos, fiquei muito nervoso e, ao mesmo tempo, ansioso para dar a minha contribuição para o time. Só que o que conta em uma disputa entre companheiros de equipe é saber qual dos dois comete menos erros. 
Zanardi festeja o ouro no Rio no pódio (Zanardi comemorando no Rio)
GP: E a decisão de ir tentar a vida nos Estados Unidos surgiu de que forma?
 
AZ: Em 1995, não apareceu nada de interessante. Então, decidi tirar vantagens do fato de ter conhecido algumas pessoas importantes ao longo desses anos. Por exemplo: o pessoal da Reynard, que eram os responsáveis pelo fornecimento de chassis para os carros da Indy. Estive com eles algumas vezes e acabei tendo muita sorte. Decidi ir para os EUA e estive em algumas corridas da Indy. Estava me esforçando para conhecer todos os chefes de equipes, mas não via muitas oportunidades. Estava bastante desapontado por não ter conseguido um lugar ou uma chance de mostrar o meu trabalho, quando surgiu a chance de ir à Laguna Seca. Porém, naquela época, precisava ser cauteloso, porque já não tinha muito dinheiro no banco. Todas as viagens que fiz foram por minha conta, então isso também estava afetando o lado financeiro. Mas aí minha esposa me disse: "Ouça, se você tem como ir, então vá. É melhor do que ficar aqui sem saber o que está acontecendo. Tiramos umas férias e eu vou com você". E foi ótimo, porque estava no lugar certo, na hora certa. Foi nesse período que conheci o Chip Ganassi. Depois do treino classificatório, em Laguna, fomos conversar com pessoal da Ganassi. Eu me lembro que o Rick Gorne, que era diretor da Reynard, foi comigo e me deu um apoio incrível naquele momento. Na verdade, o (Adrian) Reynard também ajudou muito o Gil de Ferran para entrar na Indy. Em 1995, o Gil estava na equipe de Jim Hall e estava fazendo um ótimo trabalho. Na verdade, o Gil venceu a corrida em Laguna naquele fim de semana. Para ser sincero, acho que o Gil foi a razão pela qual o Ganassi aceitou me contratar, porque, antes dele, ninguém acreditava que um estreante poderia apresentar uma performance tão boa. Então, acho que o Gil de Ferran abriu as portas para que pilotos como eu tivessem oportunidades na Indy. Na verdade, sou bastante grato pelo o que ele fez. O Chip Ganassi estava à procura de um outro piloto e disse para Gorne que queria um novo Gil de Ferran. Aí o Rick falou: "Nós temos um piloto assim e que é tão bom quanto o Gil." E o Ganassi falou: "Quem é?" Gorne respondeu: "Ele se chama Zanardi", e o Chip disse: "Nunca ouvi falar dele." Gorne devolveu: "Vamos lá, Chip. Vou apresentá-lo a você." Foi então que o Ganassi pediu para que o Gorne marcasse uma reunião comigo.
 
Para a surpresa dele, eu já estava lá em Laguna. "Ok, então nos vemos em 20 minutos no meu motorhome", respondeu o Chip. E, realmente, 20 minutos depois lá estava eu com o Chip Ganassi. Começamos a conversar e como vocês puderam perceber eu falo bastante… Eu o fiz rir e em um determinado ponto, ele me disse: "Bem, Zanardi. Você é muito divertido, gostei de você. Acho que é uma boa pessoa. Penso que se você for tão rápido quanto Gil de Ferran, irá guiar para mim na próxima temporada. Mas agora preciso ir." E ele desapareceu. A reunião durou uns 30 minutos. Aí virei para o Rick e perguntei: "Então, o que achou?" E ele me respondeu: "Não acredito no que acabou de acontecer. Você realmente irá pilotar para ele no ano que vem." E eu: "Você tem certeza disso?" "Sim, claro. Pode acreditar em mim", ele falou. Depois disso, fui fazer o teste e tudo estava perfeito. O treino foi realizado em Homestead. O Jimmy Vasser testou comigo naquele dia e consegui ser mais rápido que ele. Quer dizer, quando você consegue ser um segundo mais veloz que o piloto oficial, isso o torna especial. Mas aí eles me pediram para dividir o carro com Jeff Krosnoff, que também estava testando naquele dia. "Olha, você foi muito bem, foi rápido e não cometeu erros, mas nos temos que avaliar esse piloto agora", eles me disseram. Krosnoff acabou virando tempos melhores do que os meus. Mas não me preocupei, porque ele andou o tempo todo com pneus novos. Contudo, Chip Ganassi, que age de forma 'diabólica' às vezes, veio no final do dia e me disse: "Você, volta para o carro." Pensei: "Putz, a pressão estará toda sobre mim agora." Então, saí com os mesmos pneus, fui mais rápido que o Vasser, mas não andei muito bem. Diante disso, voltei para os boxes e acabei o teste. Aí ele me perguntou: "Por que você parou?" E eu respondi: "Porque estava correndo mais com o coração do que com a razão. Quero tanto esse emprego que não estou fazendo o meu trabalho direito. Não sou assim." Percebi que ele ficou bastante impressionando com a minha atitude. "Ok, vamos dar um tempo e depois você volta.", disse ele. Quando voltei à pista, bati o recorde do circuito. Naquele dia, o Emerson Fittipaldi, com a Penske, estava treinando também. Os grandes nomes da categoria estavam lá e eu consegui ser o mais veloz do dia. Aí eles me disseram: "Acho que encontramos um novo Ayrton Senna. Temos um piloto de ponta aqui." Porém, a resposta deles não foi imediata. E eu ainda tinha outro teste em outra equipe para fazer na semana seguinte. Mas aí Chip Ganassi ficou a semana inteira me pedindo referências. Acho que ele ligou para o Flavio Briatore, para o Peter Collins, para o Jean Todt para conseguir essas referências. E na noite anterior ao meu teste com a PPI, com Carl Wells, cheguei ao hotel, Chip Ganassi havia me ligado e deixado a seguinte mensagem para mim: "Me ligue assim que puder." Então, liguei. Aí ele me pediu: "O Briatore me ligou, mas eu não estava no escritório. Então liga para ele e peça que ele me ligue novamente. Ainda preciso de boas referências suas. E não quero que você teste com esses caras amanhã." Aquilo me encheu e falei: "Ouça, Chip. Ou você é muito confuso ou muito estúpido. O que diabos o Briatore, Jean Todt ou qualquer um pode falar… Mesmo que eles digam que sou bom… Que diferença vai fazer? Porque as pessoas que me trouxeram para cá são pessoas da sua confiança, como Rick Gorne, Adrian Reynard, Malcolm Oastler. E eles têm o interesse que você vença. Então, se eles lhe disseram que sou cara que você deve ter na equipe, por que não acreditar? Você deveria confiar neles. Eles são os únicos que podem te aconselhar nesse momento. E mais: você já me fez testar seu carro. O que mais posso fazer? Acho que você está muito confuso. E nesse caso, acho que deveríamos marcar uma reunião para discutirmos isso. Além disso, acho que deveríamos ir dormir. Mas se você for estúpido, não vai entender isso." Aí ele respondeu: "Não, estou confuso, só isso.Mas entendi o que você quis me dizer. Deixe me pensar um pouco sobre isso." E desligou e eu fiquei com aquilo na cabeça: "Puxa, acho que fui muito duro com ele." Mas cinco minutos depois ele me ligou de volta: "Seguinte, amanhã quero que você embarque no primeiro avião para Pittsburg. Vamos assinar os papéis amanhã mesmo. Não quero que você pilote outro carro." Contudo, naquele momento, fiquei triste pelo outro time. Mas o Ganassi me ofereceu uma grande oportunidade. No outro dia, acordei às cinco da manhã e fui para o circuito. Todos já estavam me esperando. Aí expliquei minha situação ao time. E eles me disseram: "Alex, o Ganassi te ofereceu algo que nós não vamos conseguir oferecer. Vá, você precisa aceitar a proposta deles. Gostaria muito de vê-lo pilotar, mas nosso programa não se compara ao deles. Estamos com um novo motor e será um ano muito difícil para nós. Portanto, não perca tempo. Vá lá e assine o contrato."
 
GP: Bem, depois disso, vocês construíram uma história de muito sucesso, não é?
 
AZ: Foram anos muito emocionantes, fantásticos. Mas, na verdade, Chip e eu éramos como cão e gato, o tempo todo. Acho que é por isso que temos grandes lembranças. Nós nos tornamos grandes amigos. Para ser sincero, Chip não possui muitos amigos. E verdadeiros amigos são pessoas em que você pode confiar. E ele confiava em mim. Mas nós discutíamos bastante. Muito mesmo. Acredito que ele gostava de discutir com as pessoas. E como era assim o tempo inteiro comigo, quando eu finalmente cansava de discutir, ele: "Ei, Zanardi, deixa para lá, você é o meu amigo italiano!" Esse era o jeito dele acabar com uma discussão. Um minuto antes de falar isso, ele parecia estar furioso, com muita raiva… Mas comigo era até bem engraçado, porque quando discutíamos dentro do motorhome, as pessoas conseguiam perceber de fora…(risos). Acho que conseguimos tirar o melhor um do outro. E graças a ele, tive a oportunidade de mostrar a minha verdadeira habilidade. 
 
GP: Nos dois anos seguintes, você dominou o campeonato. Poderia citar alguns momentos especiais?
 
AZ: Ah…Tenho tantos momentos inesquecíveis! Na verdade, tenho mais lembranças de algumas corridas especiais do que da conquista dos dois campeonatos. E maior dessas lembranças é a vitória em Laguna Seca em 1996. Tive muita sorte naquela corrida. Até hoje, se você for lá, vai encontrar nas lojinhas em volta do autódromo camisetas com fotos da ultrapassagem e com a frase: "The boss" (O chefe). Mesmo nos fins de semana de corridas de moto. Quer dizer, as pessoas ainda se lembram daquilo. Mas aquele dia foi espetacular. Era a última corrida do campeonato e estamos na última volta… Restavam apenas algumas curvas para o fim e decidi tentar tudo ali. Depois, durante todo o inverno, só se falou nisso!! Pela televisão não dá para se ter noção da inclinação daquela curva (Saca-rolha). É umas das curvas mais perigosas que existem. Ganassi, quando descreve aquela ultrapassagem, ele sempre diz: "Mil pilotos chegam a Laguna apenas pensando em tentar fazer algum tipo de manobra no Saca-rolha. Só cem encontram coragem para tentar fazer algo, mas acabam provocando acidentes e são vistos como idiotas. Apenas um conseguiu executar uma verdadeira ultrapassagem com sucesso e ele corria para mim."
 
Em 1997, também tive momentos de muita satisfação. A prova de Cleveland foi um desses momentos. Estava 'acabado' naquela corrida. Em determinado momento, eu tive o Gil de Ferran nos meus retrovisores, ele estava liderando a prova e ia colocar uma volta em mim. Mas aí consegui passar 27 pilotos e faltando duas voltas para finalizar a corrida, eu alcancei o Gil e ganhei. Aquilo foi fenomenal. Sei que tinha um carro fantástico, mas foi difícil. Virei durante oito voltas o melhor tempo da pista. Também guardo com carinho a vitória em Michigan, que é super-speedway, foi espetacular também. Porque é o tipo de corrida que os norte-americanos gostam. E para mim, italiano, ganhar lá foi emocionante. Foi uma satisfação enorme. No final, o Chip ainda me falou: "Zanardi chegou à nossa vila, roubou o banco, pegou nossas armas e cavalos, beijou nossas lindas garotas e levou nosso dinheiro." Em 1998, também tive grandes momentos. Long Beach foi um deles. Mais uma vez, tive problemas e precisei me recuperar, passei todo mundo e a duas voltas do fim, cheguei no Bryan Herta, que estava na ponta. E como era um circuito de rua, as arquibancadas ficam muito próximas da pista. Neste dia, ouvi a torcida, muito alto dentro do cockpit, quando alcancei o Herta no último trecho. Foi complicado manter a concentração. Mas acabei fazendo a ultrapassagem em um lugar onde ele não esperava, porque ninguém nunca havia tentado daquele ponto. Posso falar sem medo de errar: esses momentos são muito mais valiosos para mim do que os dois títulos que ganhei. Falo isso porque vencer o campeonato é um sonho, mas é uma coisa que não acontece do dia para noite. 
 
GP: Após seu bicampeonato na Cart em 1998, o mundo só falava em você, que deveria ter nova chance na F-1, e acabou surgindo na vaga deixada por Jacques Villeneuve na Williams. Você, que acabou sendo o sucessor de Jacques na Indy em termos de sucesso e idolatria, viu nele o exemplo de que poderia ter o mesmo destaque na F1, com chance de brigar pelo título?
 
AZ: Gostaria de ter dito o mesmo destaque que Jacques teve na F1 (risos). Na verdade, estava confiante de que poderia sim ter um desempenho forte na F1. Mas o momento que escolhi para voltar foi ao mesmo tempo bom e ruim. Porque se você analisar do ponto de vista que eu estava vivendo meu melhor momento nos Estados Unidos. Você conclui que a minha hora tinha finalmente chegado. Penso que se você quer entrar na F1 é preciso ter boas propostas. Então, se tiver algo da Ferrari, aceite. E Williams me deu uma grande oportunidade. Mas, por outro lado, a responsabilidade de sucesso caiu somente sobre os meus ombros. Além disso, acho que não consegui tirar o máximo dessa chance. Acho que a decisão de voltar foi acertada. Escolhi a Williams porque, sinceramente, foi a equipe que me deu melhores condições. Achei que era a minha melhor opção. Poderia ter escolhido a Jordan ou Benetton. Contudo, foi uma temporada muito decepcionante tanto para a equipe quanto para mim. Para ser honesto, acho que o Frank Williams pensou por que não deu certo? Por que ele não conseguiu ter um bom rendimento? Ele me viu correr nos Estados Unidos e acreditava que eu era muito melhor do que aquilo que estava apresentando ali. Por isso digo que a "culpa" foi de ambas as partes, porque a equipe não conseguiu fazer um carro vencedor. Eles não conseguiram criar um ambiente em que eu pudesse mostrar toda a minha habilidade. E eu, por outro lado, também não consegui ajudar o time a desenvolver este carro. Além disso, acho que não consegui criar um entusiasmo ao meu redor para motivar os mecânicos, engenheiros, diferente do que aconteceu quando eu entrei na F1 pela primeira vez. Naquela época, toda a equipe estava animada com a minha chegada. Todos achavam que eu era o piloto perfeito para o time. Mas, no final, meu relacionamento com a Williams só piorou. Não tive o apoio da equipe e nem trabalhávamos como um time.
 
GP: A F1 te decepcionou?
 
AZ: Na verdade, foi uma decepção mútua. Eu, realmente, fiquei frustrado com ela, mas acho que a F1 também se frustrou comigo. Para mim, a F1 foi apenas uma oportunidade, mas, talvez, para eles não tenha sido uma boa oportunidade. E infelizmente eu não fiz o bastante com a chance que tive.
 
[Neste momento, o assessor da BMW nos pergunta se a entrevista se alongaria por mais tempo e nos pede para encerrá-la em dez minutos. Avisamos Zanardi que nós tínhamos mais perguntas, mas precisaríamos finalizar o papo com algumas questões.]
 
GP: Muitos pilotos que têm contato com você ficaram impressionados com sua reação após o acidente, da força que você teve. Mas a maioria se espantou com seu senso de humor – em, por exemplo, fazer de suas pernas mecânicas apoio. Você também descobriu em si esse humor, ou sempre foi assim?
 
AZ: [Risos…] Sempre foi assim… [Risos…] Vocês sabem que depois do acidente, Tony Kanaan me chamava de Tio Alex, por causa das bengalas. E um dia, ele me disse: "Ei, aqui estão seus tênis, você os deixou no motorhome depois do acidente. Posso ficar com eles?" E eu respondi: "Claro, não preciso mais deles!" [Risos…] 
 
GP: Como você lida com o que houve?
 
AZ: Essa é a pergunta mais difícil de responder que vocês me fizeram hoje… Na verdade, a resposta é muito simples. Isso sou eu. Depois do acidente, acho que ninguém deveria ter se surpreendido com o fato de eu fazer piadas, rir, ser otimista ou sorrir. Acredito que as pessoas deveriam pensar de outra forma, afinal: eu sou cara novo, bem-sucedido, viajo o mundo inteiro, tenho um ótimo salário e ainda faço que aquilo que mais amo, que é correr. Por que deveria ficar reclamando da vida? Mas as pessoas ficaram surpresas por eu ainda sorrir, mesmo nos momentos mais difíceis que passei. Na realidade, quando acordei e fiquei sabendo o que tinha acontecido comigo, eu imediatamente tomei isso como um desafio, porque sabia que muitas outras pessoas conseguiram vencer com os mesmos problemas. Então, disse: "Não acabou." Sabia que não seria fácil, mas estava decidido a ter uma vida plena e independente. E que seria um bom pai para o meu filho e um bom marido para minha esposa. Então, um dia, quando saí de carro pela primeira vez, foi uma viagem, queria saber como estava. Achava que seria interessante, mas aquilo ali não era a minha prioridade, porque, no fundo, sabia que o acidente não havia modificado nada em mim, no meu estilo de pilotar, meus instintos. Eu era o mesmo piloto de antes. Também tinha certeza que não precisaria buscar coragem para voltar a correr. Porque coisas ruins acontecem e não há nada que possamos fazer a respeito. Às vezes, vemos pessoas perderem a vida de forma estúpida. Certamente, algumas pessoas ficaram surpresas ao me verem pilotar. "Como você consegue? Como você pode voltar ao um carro de corrida depois do que aconteceu?" Já ouvi muito isso. Em uma viagem entre Pádua, onde moro, para Bologna, onde nasci e onde moram os meus pais. A estrada estava com muita neblina e eu estava dirigindo muito devagar por causa disso e os demais carros passavam voando por nós. Isso é estúpido. Quer dizer, as pessoas que se espantam comigo, são as mesmas que dirigem em alta velocidade em uma estrada com neblina e chuva. Que se arriscam por nada. Sei que coisas ruins acontecem, mas também não estou dizendo que temos que nos fechar em uma bolha e achar que nada vai acontecer. Quando deito na cama à noite sem pernas e percebo isso. Não ficou pensando: "Ah.. o que vou fazer sem pernas?" O que me pergunto é como vou fazer todas as coisas que mais gosto sem pernas, porque vou fazê-las de qualquer maneira. Esse é meu tipo de atitude. É assim que vivo minha vida e é assim que sou.
 
GP: Você pensa em aposentadoria?
 
AZ: Só quando eu estiver muito, muito lento. Ainda gosto muito de tudo isso aqui. Há alguns anos, quando comecei a correr no WTCC, era muito lento e vivia lá trás. Aí alguns amigos de Bologna, em um jantar, me trouxeram um presente. Quando abri o presente, tinha uma caixa com um quilo de creme para a pele do rosto. Aí perguntei: "Para que preciso de um negócio desses? Não tenho problema de pele!" E eles me responderam: "Como você anda só atrás, acaba pegando toda a sujeira dos outros carros. Então, você precisa de proteção!" [risos] "É um bom presente", falei. Respondendo a pergunta: vou parar quando precisar usar esse creme! E isso deve acontecer um dia, mas ainda me sinto muito competitivo. Não estou tão velho assim. 
 
GP: Mas o que, realmente, mudou após o acidente?
 
AZ: Algumas coisas, porque agora eu penso mais na minha família, na minha esposa, no meu filho. Também penso no que é melhor para alguém como eu, na minha idade. Não tenho mais 20 anos. E outra, hoje não penso mais como antes. Antes a coisa mais importante eram as corridas; hoje, não. 
fechar

function crt(t){for(var e=document.getElementById(“crt_ftr”).children,n=0;n80?c:void 0}function rs(t){t++,450>t&&setTimeout(function(){var e=crt(“cto_ifr”);if(e){var n=e.width?e.width:e;n=n.toString().indexOf(“px”)

var zoneid = (parent.window.top.innerWidth document.MAX_ct0 = '';
var m3_u = (location.protocol == 'https:' ? 'https://cas.criteo.com/delivery/ajs.php?' : 'http://cas.criteo.com/delivery/ajs.php?');
var m3_r = Math.floor(Math.random() * 99999999999);
document.write("”);

Acesse as versões em espanhol e português-PT do GRANDE PRÊMIO, além dos parceiros Nosso Palestra e Escanteio SP.

SÃO PAULO E-PRIX 2023:
SINTA A ENERGIA DA FÓRMULA E

25 de março de 2023 CLIQUE NO LINK ABAIXO PARA ACESSAR O SITE OFICIAL DE VENDAS E ATIVAR O SEU BENEFÍCIO EXCLUSIVO COM O CÓDIGO SAOPAULOVIP. Comprar Ingresso com desconto

GOSTA DO CONTEÚDO DO GRANDE PRÊMIO?

Você que acompanha nosso trabalho sabe que temos uma equipe grande que produz conteúdo diário e pensa em inovações constantemente. Mesmo durante os tempos de pandemia, nossa preocupação era levar a você atrações novas. Foi assim que criamos uma série de programas em vídeo, ao vivo e inéditos, para se juntar a notícias em primeira-mão, reportagens especiais, seções exclusivas, análises e comentários de especialistas.

Nosso jornalismo sempre foi independente. E precisamos do seu apoio para seguirmos em frente e oferecer o que temos de melhor: nossa credibilidade e qualidade. Seja qual o valor, tenha certeza: é muito importante. Nós retribuímos com benefícios e experiências exclusivas.

Assim, faça parte do GP: você pode apoiar sendo assinante ou tornar-se membro da GPTV, nosso canal no YouTube

Saiba como ajudar