A F1 precisa repensar o modo como divulga as conversas de rádio atualmente. O que começou como uma forma de enriquecer as transmissões está passando dos limites?

Até que ponto a exibição de algumas — muitas — conversas de rádio nas transmissões tem sido benéfica para a F1? Talvez seja o momento para se repensar isso, e os recentes GPs do Japão e do México são bons exemplos.

Quando o rádio começou a ser mostrado na TV para o mundo todo, de fato era algo muito legal. Direto da fonte, sabia-se como dialogavam pilotos e engenheiros ao longo das provas. Como se tomam as decisões estratégias? No que ele está pensando? Está nervoso? Vai rolar ordem de equipe?

Isso evoluiu demais com o passar do tempo, ao ponto de Nico Rosberg ser entrevistado de dentro do carro após a pole no GP do Japão — algo que, convenhamos, ocorria há tempos na Nascar nos EUA durante as corridas. Até demorou para a F1 copiar.

A questão é que já faz algum tempo que essas conversas têm é contribuído para críticas à categoria.

Começou com a história do “coaching” para os pilotos — principalmente com a dupla da dominante Mercedes nos últimos três anos. O público não estava gostando de ver os pilotos sendo instruídos o tempo todo com relação a comandos no volante, ajustes técnicos e até mesmo a conservação dos pneus. A FIA agiu, resgatou o item do regulamento que exigia que os pilotos guiassem os carros sozinhos e sem assistências e limitou as instruções que podiam ser passadas pelos engenheiros.

Resultado: críticas, é claro. Lewis Hamilton foi mal no GP do Azerbaijão devido a um problema no carro que não soube solucionar sozinho, e ficou para os fãs o recado de que a corrida poderia ter sido mais interessante se fosse possível ajudá-lo. Então veio o GP da Inglaterra, em que Rosberg recebeu uma mensagem controversa e acabou punido, e ficou a dúvida: aparentemente, tratava-se de um problema terminal; não caberia, então, uma desclassificação em vez do time-penalty que apenas o derrubou de segundo para terceiro?

Restou à FIA aliviar as regras novamente.

O GP do México tem e não tem a ver com isso. Mas o ponto em comum para mim é: se o público não gosta, por que a F1 precisa divulgar tais conversas? É ruim para o próprio produto.

Aqui no Brasil, Cacá foi suspenso pelo STJD por causa de um rádio divulgado na TV (Cacá Bueno (Foto: Bruno Terena/Red Bull))

Sebastian Vettel quase se complicou com a FIA por causa de um rádio divulgado. Ok, ele mandou o diretor de prova Charlie Whiting tomar naquele lugar sabendo que a mensagem seria ouvida pelo próprio e provavelmente retransmitida na TV. Isso ficou mais do que claro. Logo, uma advertência ou uma multa até que lhe cairiam bem. Mas, numa dessas, o cara é suspenso e a F1 fica sem uma de suas principais estrelas por uma bobagem dessas.

Este caso específico foi sem dúvida mais grave do que o episódio com Cacá Bueno na Stock Car em 2015, quando Cacá desabafou após um erro absurdo no final de uma prova em Ribeirão Preto e sem imaginar que a conversa iria ao ar na TV — afinal de contas, na Stock, isso é bem menos divulgado do que na F1.

No México, Vettel pode ter sido mal-educado, para dizer o mínimo, ou até babaca, como muita gente definiu. Agora, é impossível não entender os motivos para sua frustração. Ele acabara de ver Max Verstappen cortar uma curva para se manter à sua frente, não ceder a posição e ainda segurá-lo para permitir a aproximação de Daniel Ricciardo, que foi quem, no final das contas, levou os pontos pelo terceiro lugar.

Vettel tinha todo o direito de estar puto. O desabafo é que pode ter ido parar no alvo errado e da forma errada. Quem aí não estaria?

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O tetracampeão ganhou a fama de reclamão neste ano. De fato, está renando dia e noite no rádio. Ora reclama de retardatários, ora da equipe, ora de adversários, ora do carro, ora dos comissários… Houve também casos em que ele admitiu depois da corrida que era por estar com a cabeça quente, que teria feito o mesmo no lugar de outro piloto, e por aí vai. É um cara que está visivelmente frustrado, com si mesmo e com o que está se passando ao seu redor.

Ele não é o único reclamão do grid. Que dizer de Fernando Alonso, que por anos foi o dono desse papel de “chato”? Quer dizer, ele não mudou tanto. Continua falando de Deus e o mundo, mas agora está no fim do grid, sem fazer mal a ninguém. É engraçado. Suas tiradas também andam legais, vide o “GP2 engine” do GP do Japão do ano passado.

Há dois anos, Alonso e Vettel tiveram uma briga épica em Silverstone, mas a transmissão da TV conseguiu manchar o duelo com vários áudios de um reclamando do outro (Fernando Alonso (Foto: McLaren))

Pilotos também têm chiado insistentemente por estarem cientes de que o mundo está de olho. É como ver jogadores pedindo falta em uma partida de futebol. Como esquecer da clássica disputa entre Vettel e Alonso em Silverstone em 2014, com ambos apertando o botão do rádio curva após curva para dizer que o outro estava excedendo os limites da pista?

Aí a F1 vira a categoria dos chorões, sendo que, no passado, reclamações do tipo certamente aconteciam — apenas não vinham a público.

Piloto reclama na F1, na Indy, na Nascar, no DTM, no rali, na MotoGP, na Stock Car, na F-Truck, no kart. De tudo e de todos. E sabendo que punições já foram dadas na F1 por causa dessa pressão, óbvio que eles vão abrir a boca… 
Enquanto isso, Max Verstappen, constantemente se recusando a seguir instruções dos boxes, vira “uau, que demais, não é ‘pau-mandado’ da equipe, espontâneo”, etc. Mesmo? Vimos no que deu esse comportamento no GP dos Estados Unidos.

Agora, no caso das bandeiras azuis, no qual Vettel ficou tão marcado. Vários pilotos estavam chamando a atenção para a falta de sinalização para os retardatários. A partir de certo ponto, o que há de informação ali? Não é necessário saturar o público com tamanhas repetições.

Bernie Ecclestone sempre gostou de seguir a linha do “falem bem, falem mal, mas falem de mim” à frente da F1. Contudo, há momentos em que a categoria desgasta a sua própria imagem e a de seus personagens com coisas bestas. A hiper-exposição também pode fazer mal ao produto.

Convenhamos, pilotos pedindo bandeiras azuis não é algo que acrescenta muito conteúdo à transmissão das corridas. Vettel ser suspenso por uma corrida por causa de um rádio vazado também não seria muito interessante do ponto de vista comercial.

E assim também: é hora até de a gente dar menos importância para essas conversas de rádio. Para mim, na grande maioria dos casos, vale mais o que o piloto diz quando desce do carro.

Às vezes, menos é mais.

Na seção 'Por Fora dos Boxes', Renan do Couto publica às terças e sextas-feiras opiniões, análises, reportagens e outros conteúdos especiais a respeito do Mundial de F1 e das demais categorias do automobilismo mundial. Renan também é narrador dos canais ESPN e ganhou, em 2015, o Prêmio ACEESP de melhor reportagem de automobilismo com o Grande Prêmio.

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