É cedo demais para dizer se os novos donos da F1 terão sucesso para promover mudanças. As suas intenções, no entanto, caminham na direção correta

Um relatório do banco Citi não recomendou a transação levada adiante no início deste mês pela Liberty Media, a empresa norte-americana que confirmou um investimento de mais de US$ 4 bilhões para se tornar a nova acionista-majoritária do Campeonato Mundial de F1. Este pode ser o melhor dos sinais para quem quer saber o que será da categoria com a mudança de donos e a passagem para um comando mais norte-americano.

Eu é que não vou pôr a mão no fogo por ninguém, não vou dizer que mal conheço esses tais de John Malone e Chase Carey e já considero pacas. Mas que as primeiras indicações dos seus planos para o Mundial são positivas, isso são. Ao menos vão no caminho do que o campeonato precisa, uma tecla que vem sendo batida aqui no GRANDE PRÊMIO e em vários outros veículos de comunicação há um bom tempo.

A Liberty Media está disposta a explorar as plataformas digitais como Bernie Ecclestone nunca fez. Aliás, ele não faz ideia de como explorá-las. Os americanos também chegam interessados em investir em grandes eventos, o que tende a ir de encontro com um outro anseio dos fãs: a preferência por circuitos e países tradicionais no esporte.

A entrevista publicada no site oficial da F1 no domingo do GP de Cingapura ajudou a entender as intenções e o caminho. “Bernie teve um sucesso enorme, e o mundo o admira pelo negócio que ele construiu, mas eu acho que podemos levar a F1 a outro nível”, promete Carey.

Os novos donos da F1 querem mais eventos como o GP de Cingapura (Getty Images/Red Bull Content Pool)

Há uma gigante diferença entre os interesses do CVC e os da Liberty Media na F1. O fundo de investimentos que comprou o Mundial em 2005 não queria nada além do lucro. Nesta missão, Ecclestone serviu com maestria. O CVC estava mais do que contente em apenas recolher os dividendos. Depois de pagar cerca de US$ 2 bilhões para se tornar acionista-majoritária, teve retornos que superaram US$ 4 bilhões nos últimos 11 anos. Agora está vendendo 18,7% para a Liberty Media por US$ 746 milhões. Uma segunda fase será concluída após o negócio ser aprovado por órgãos reguladores e pela FIA, culminando no pagamento de mais US$ 4,4 bilhões. Ao final, a Liberty terá 35% das ações, e mais 3% pertencerão ao próprio John Malone. O restante ficará dividido entre a CVC, Bernie Ecclestone e seu fundo familiar, o Bambino Holdings, e outros acionistas que já estão hoje na companhia. Os montantes da transação fazem com que o valor estimado da F1 supere US$ 8 bilhões.

Como que um campeonato "decadente”, como muitos têm teimado em dizer, consegue ser alvo de tamanho investimento? A resposta pode estar no fato de que a Liberty Media está confiante de que saberá trabalhar este "conteúdo" para então lucrar. Chase Carey, novo presidente do Conselho da F1, avisou que seus patrões não entraram na F1 para ganhar dinheiro imediato, como foi com o CVC. Eles querem é reconquistar o público oferecendo um produto de qualidade. 

Se do ponto de vista financeiro, o relatório do Citi chamou de 'troféu' a aquisição da F1, há outro modo de se ver: trata-se de uma empresa de mídia, e para uma companhia destas, é melhor ter a F1 sob seu comando do que vê-la nas mãos uma concorrente. É um troféu que, sim, vale muito.

A Liberty cresceu através de investimentos no setor de TV por assinatura nos Estados Unidos, mas hoje é uma firma global, operando tanto na Europa quanto na América Latina e no Caribe. É deste ramo que vem Carey, que por muitos anos foi executivo da 21st Century e da News Corp, da Fox. A Liberty Global chega a um total de 56 milhões de residências. Ou seja, é muito mais do que uma companhia norte-americana.

A Liberty Media também é dona da Live Nation, a maior empresa de promoção de eventos e shows do mundo. A Liberty Global possui 10% da ITV, um dos principais canais de TV do Reino Unido. Malone, 29% da Discovery Communications, por meio da qual já havia entrado na F-E e agora adquiriu 58% do campeonato de carros elétricos.

Qual o propósito que a F1 serve para tais ferramentas? Conteúdo.

Em um tempo em que serviços de streaming como o Netflix revolucionam o mercado de entretenimento e tiram o consumidor da frente da TV e derruba o número de assinantes da TV paga, ter a F1 no seu portfólio não é pouca coisa. É com esse pensamento que a NFL vende não o campeonato, mas jogos exclusivos em diferentes faixas de horário para as emissoras nos Estados Unidos, ou que a ESPN no Brasil compra direitos irrestritos para a exibição da Premier League. Como Carey já andou destacando, é um campeonato anual disputado ao redor do mundo em mais de 20 países, transmitido para audiências globais. Os novos donos podem continuar negociando os direitos de transmissão com as companhias atuais ou então passarem as corridas para os seus próprios produtos. O acesso para documentários do Discovery sobre aspectos técnicos ou econômicos ficaria mais simples, e assim por diante.

Quem sabe, até mesmo vendendo o seu próprio serviço de streaming. No Reino Unido, a partir de 2019 e até 2024, a Sky Sports vai exibir todas as provas com exclusividade em seu canal por pay-per-view. É improvável que este contrato seja renegociado, mas para outros países pode ser possível oferecer uma plataforma como o Videopass da MotoGP. Grandes mercados onde a exposição em TV for considerada abaixo das expectativas podem ser alvos — e eu sei que muita gente no Brasil pagaria para ter uma cobertura mais extensa e aprofundada da F1. O Mundial de Endurance é outro que tem tal ferramenta.

Neste ramo, a Major League Baseball foi pioneira, e adivinhem: a Liberty Media conhece bem o que foi feito por lá. A empresa é a dona do Atlanta Braves. Por meio da MLB Advanced Media, uma empresa fundada em 2000 com investimentos dos 30 times, todas as mais de 2500 partidas da temporada regular são transmitidas ao vivo para o mundo todo. Pelo pacote avançado, o fã de beisebol paga US$ 120 anuais. Essa empresa teve uma receita de US$ 880 milhões no ano passado, dentro do bolo total de US$ 9,5 bilhões da MLB.

A receita anual atual da F1? US$ 1,8 bilhão, sendo 35% provenientes dos acordos de TV.

“Eu acredito que um bom produto digital torna o produto mais gratificante”, defende Carey. “Divulgar o esporte, contar a história das estrelas e dos heróis, as incríveis máquinas. E então torná-lo mais forte geograficamente. Há possibilidade para crescimento em todas as áreas.” 
(Divulgação/NAB)

Então vem uma segunda parte na qual o modo de trabalho da Liberty Media deve contrastar ainda mais com o que é feito hoje na F1. Eles vão querer grandes eventos, festas. Casas cheias. Não necessariamente levar as corridas para quem paga mais por elas, como Abu Dhabi, Bahrein, China ou Azerbaijão. É ter eventos onde o público está, e mudar a forma de se relacionar com este público. Silverstone, Monza, Interlagos, Barcelona, Spa-Francorchamps. E tentar novamente explorar os Estados Unidos, correndo não só em Austin, mas em Nova York, Miami ou Los Angeles. O GP de Las Vegas, do qual tanto se fala, mas não volta a acontecer. Correndo nas grandes cidades do mundo.

“A corrida é ótima e é a base de tudo, mas na verdade é uma extravagância de uma semana com música e entretenimento. Essa é a questão. Criar um grande evento com os carros e a tecnologia, as estrelas e a experiência do ao vivo”, esclarece Carey.

Na MLB, o Atlanta Braves usa aplicativos em seu estádio para aprimorar a "experiência" do público. É possível comprar um lanche usando o celular e esperá-lo sem sair da cadeira. O aplicativo também oferece informações sobre a partida, os jogadores, o estádio e o que é possível encontrar nele, o campeonato e até mesmo trivia e prêmios. Há um determinado produto em promoção na loja do time? Está lá a notificação na tela do smartphone. Quem costuma ir ao GP do Brasil sabe como algo assim seria bem útil.

Novas atrações também podem ser oferecidas, e uma coisa óbvia a se pensar é que shows ficarão mais comuns nas corridas. A Live Nation agencia mais de 350 artistas. Uma de suas subsidiárias é a empresa de Jay Z. Além disso, trabalha também com a promoção de espetáculos de bandas como o U2 e o mundialmente famoso show do intervalo do Super Bowl. Até que ponto a Live Nation interferiria no trabalho hoje realizado pelos promotores locais, é difícil dizer, mas que isso ao menos serviria como uma ponte, certamente sim.

A Heineken chegou neste ano, mas a Liberty Media acredita que a F1 peca pela falta de patrocinadores (Nico Rosberg e Lewis Hamilton no pódio (Foto: Beto Issa))

A tudo isso, acompanharia uma mudança de público-alvo. Não faz nem dois anos que Ecclestone afirmou que prefere ter um rico de 60 anos a um garoto de 12 assistindo às corridas. É algo se encaixa com um comentário feito por Greg Maffei, CEO da Liberty Media e “chefe” de Carey.

“Acho que temos 17 patrocinadores, com três pessoas trabalhando em cima dessa área. A gente vê que pode crescer muito na questão dos patrocinadores ao ver que a MLB tem 75 só dentro dos Estados Unidos”, declarou.

Pois é. Em sua visão elitista, Ecclestone focou em empresas como a Rolex — é o rico de 60 anos que vai comprar o relógio, ou então uma Mercedes ou Ferrari. Aparentemente, os novos donos vão tentar diversificar isso.

Ecclestone já disse preferir um público “velho e rico” para a F1. Isso vai mudar (e precisa mudar) (Bernie Ecclestone em Sóchi, Rússia (Foto: Getty Images))

Bem, já que estamos falando tanto de “modelo americano de negócios”, a F1 vai passar a ter franquias como a NFL e a MLB? Aqui, acredito que não seja este o caminho ideal. O modelo da Premier League faria mais sentido (até já falamos disso aqui no GRANDE PREMIUM há alguns meses).

Não é preciso fazer como na NFL e dividir as receitas igualmente entre as escuderias. A lógica do automobilismo sempre esteve ligada à premiação pelos resultados.

Os direitos de TV da NFL são divididos igualmente, e aí cabe aos times buscarem receitas como a venda de ingressos para suas partidas — equipes não organizam as corridas na F1.

Agora, a Liberty já sinalizou que gostaria de acabar com os pagamentos que a Ferrari recebe dentro do status de “equipe histórica”. Vão conseguir? Difícil. A renegociação dos acordos herdados desta era Ecclestone-CVC já seria dura sem a mudança nos donos, diante da crise enfrentada pelos times menores nos últimos anos. Com alguém que está disposto a mudar o status-quo, imaginem só.

A principal ressalva que faço: a competitividade precisa melhorar, fato. Isso só não pode ocorrer por meio de uma ‘Nascarização’. A F1 é o que é por seu conceito “europeu”. Há coisas que se pode aprender com o automobilismo americano, como a relação com o público e a promoção dos eventos, mas há limites, e não só o próprio meio da F1 demonstrará resistência, como o público o fará. 

Até o fim do ano, Carey vai “ouvir, conhecer e digerir” o mundo da F1. A partir de então, começará “uma fase com uma série de ideias que continuarão a ser refinadas” para depois saírem do papel. Algumas novidades devem sair em 2017, e em 2018 a marca da Liberty tornar-se-á mais visível.

Na seção 'Por Fora dos Boxes', Renan do Couto publica às terças e sextas-feiras opiniões, análises, reportagens e outros conteúdos especiais a respeito do Mundial de F1 e das demais categorias do automobilismo mundial. Renan também é narrador dos canais ESPN e ganhou, em 2015, o Prêmio ACEESP de melhor reportagem de automobilismo com o Grande Prêmio.

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