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Indy

Coluna Warm Up, por Flavio Gomes: Antoine

Você tinha 16 anos e era um dos mais de mil convidados para a inauguração da pista de kart do Senna em Tatuí. Teve duas corridinhas de kart, uma com a molecadinha, outra com os marmanjos. Você fez a pole. Mas Ayrton deu uma de Balestre e resolveu inverter o grid. Lá foi o garoto narigudo para o último lugar

Warm Up / FLAVIO GOMES, de São Paulo


Antoine,
 
Você vai se lembrar. Um domingo, dia 1° de dezembro de 1991. Você tinha 16 anos e era um dos mais de mil convidados para a inauguração da pista de kart do Senna em Tatuí. Eu já tinha ouvido falar de você, que tinha o hábito de ganhar campeonatos de kart a granel. Foi uma festa estrelada, com show de Chitãozinho e Xororó, gente famosa, aquelas coisas. Teve duas corridinhas de kart, uma com a molecadinha, e quem ganhou foi o Bruno, que tinha 8 anos e nenhuma dúvida sobre o que queria ser na vida: piloto. Melhor que o tio, segundo a família.
 
Aí vieram os marmanjos, você entre eles. Fez a pole. Mas Ayrton deu uma de Balestre e resolveu inverter o grid. Lá foi o garoto narigudo para o último lugar. De quebra, o cara ainda resolveu correr e vocês dois foram costurando todo mundo até o final. Mas você ganhou, tem isso no currículo, ganhou do Senna, e lá vai a imprensa toda em cima do garoto que ganhou do Senna.
 
Lembro de ter conversado com você rapidamente e no fim da entrevista você me deu um cartão que deve estar em alguma gaveta por aqui, porque não costumo jogar nada fora. Aqueles cartões de visita fotográficos, acho que você corria de F-Ford, já, tinha lá seu carro, o nome e o telefone. Como era uma festança, e como Senna era o personagem do dia, mais do que ninguém, creio que no material que escrevi para o jornal apenas mencionei sua vitória, sem maiores detalhes. Bruno mereceu mais espaço, certamente. Afinal, era sobrinho do homem, um garotinho cheio de marra, mais notícia, enfim. Sobrinho do Senna, queria ser piloto, essas coisas são um prato cheio, você sabe.
 
Anos depois, não muitos, menos de três, para ser preciso, tornei-me sócio do Ricardo Tedeschi, ex-empresário do Rubinho. Na verdade, ele me cedia parte de seu escritório num prédio bonito no Itaim para que eu começasse meu novo negócio, já que tinha sido demitido do jornal. A gente dividia a sala no último andar e na parede do lado direito da minha mesa havia um pôster de um formulinha com uma dedicatória. Era você num carro da Alfa Boxer, se não me engano patrocinado pelas Antenas Santa Rita. Você tinha conquistado o título daquela categoria e o Ricardo ajudava na sua carreira. Olha lá o Tony, o cara que ganhou do Senna, eu disse quando entrei na sala pela primeira vez. E por meses seu Alfa Boxer foi testemunha do reinício da minha própria carreira.
 
Acho que foi ali, naquele prédio do Itaim, numa tarde qualquer, que te encontrei de novo e trocamos algumas palavras. Eu viajava muito, ia a todas as corridas de F-1, e você, se não me equivoco, estava a caminho da F-3 na Itália. Boa sorte, capricha, acelera. Depois, seguiu para os Estados Unidos. Foi o caminho de muitos jovens após a morte de Senna e de um “boom” imediato da Indy, por conta do sucesso de Emerson e dos custos mais baixos em relação àquilo que era preciso para traçar o rumo para a F-1.
 
Mas como você era brother do Ricardo, e ele me dizia que você era bom pacas, claro que a uma certa distância passei a seguir seus passos, eu e toda a imprensa especializada, até aquela decisão eletrizante da Indy Lights de 1997, acho, que acompanhamos, nós que cobríamos F-1, pelo telefone numa madrugada gelada em Nürburgring. Não sei as datas com precisão, mas lembro claramente que era bem tarde na Alemanha, por causa do fuso, e o Reginaldo Leme tinha um celular e ficamos esperando o fim da corrida na porta da pensão que fechávamos para o GP — todos se hospedavam lá, ao lado do autódromo, um lugar encantador. Tony campeão, pô, legal, esse moleque é um batalhador, festejamos, e fomos dormir.
 
(Fui ao Google. A corrida de Nürburgring, que se chamava GP de Luxemburgo, foi no dia 28 de setembro. Vocês correram em Fontana no sábado, dia 27. A disputa pelo título era contra o Helinho. O Cristiano também tinha chances matemáticas e havia mais gente do Brasil na Lights, como o Negri, o Daré, o Luiz Garcia Jr. e o Sérgio Paese. Turma boa, embora nem todos tenham vingado. Pelo que pude pesquisar, você chegou em nono, posição que lhe deu quatro pontos, exatamente a diferença na classificação final para o Helinho, que ainda era Castro Neves, e não Castroneves. Um título importante, sem dúvida, com a brasileirada dominando tudo nos EUA.)
 
Pois você ganhou a Lights, foi para a Indy, abraçou a América, nada foi muito fácil, ganhou o campeonato principal em 2004, tornou-se um cara conhecido nos EUA, piloto de ponta, popular, competitivo, bateu na trave de Indianápolis várias vezes, fez pole, perdeu a corrida no fim, teve companheiros de equipe do naipe de Zanardi, ganhou outras provas, sofreu acidentes feios, e acabou perdendo a vaga na Andretti no fim de 2010 e quase ficou a pé.
 
Mas não desistiu, correu atrás de patrocínios, arrumou um carro, recomeçou num time pequeno, sofreu, teve de encarar todas as dificuldades que uma nanica impõe, levou o amigo Barrichello para lá, não deu muito certo, continuou na batalha e domingo passado ganhou em Indianápolis.
 
Poucas vezes uma vitória foi tão comemorada por tanta gente. Sigo alguns pilotos no Twitter e é incrível como todos ficaram felizes por você. O público também, nas arquibancadas. Meus filhos, que você conheceu num restaurante de frango frito uns dois anos atrás, e que não ligam muito para corrida de carro, acharam o máximo. Todo mundo achou o máximo.
 
Porque foi mesmo o máximo.