Com bênção da ignorância, Norris arrepia bom senso e se apega a pequenez virtual

Lando Norris saiu como vítima numa reação geral um tanto quanto desproporcional para o incidente do fim de semana na Indy 175, mas alguns dias depois ainda defende a manobra que serviu de estopim para a confusão. Uma manobra arriscada e irresponsável que o inglês, com zero experiência de oval, resolveu bancar de qualquer forma. E sobre as batidas propositais... elas talvez façam parte do jogo

A ignorância é uma bênção. É uma frase conhecida, aposto que todos os leitores que passarem por aqui ouviram tantas vezes. E Lando Norris, ao reafirmar que faria a manobra que originou toda a celeuma da virtual Indy 175 do último fim de semana caso estivesse na pista real, deixa claro o que é: ignorante. Que fique claro: ignorante não é uma ofensa ao jovem piloto inglês, é apenas a constatação de que não tem conhecimento sobre o assunto que se prestou a falar. De acordo com o dicionário da língua portuguesa, ignorância é o "estado de quem não tem conhecimento". Norris, pois. 
 
Alguns dias passaram desde a corrida, quase uma semana, mas Norris falou à TV norte-americana NBC que repetiria, claro, a manobra em que entrou pela parte suja da curva um do IMS para ultrapassar Graham Rahal e Simon Pagenaud. Rahal no reflexo e acabou jogando o francês no muro. Pagenaud, de volta à pista, acabou com a corrida de Norris alguns minutos depois.
 
"A resposta simples é absolutamente [faria de novo]. Não arrisquei minha corrida ao fazer aquilo e foi uma manobra tão fácil de completar, saí com tranquilidade da curva um. Não precisei forçar minha passagem, foi muito fácil e dei muito espaço na parte de fora da curva um e na entrada da [curva] dois. Eu realmente teria que frear muito e levantar o pé para manter o terceiro lugar naquela hora", afirmou. 
 
"Eles estavam com pneus muito mais velhos, os meus [pneus] eram mais novos e não era como se eu estivesse sendo agressivo demais ou forçando além da conta. Simplesmente continuei em velocidade, os dois abriram para a curva e eu fiquei com a parte de dentro", seguiu.
Lando Norris online (Foto: Reprodução)
"Mantive o carro na parte de baixo e tudo limpo do meu lado. Não fiz nada errado, porque estava numa posição que, caso freasse, Oliver [Askew] me ultrapassaria na próxima reta. Ele tinha o momento de passar por mim quase que com certeza. Se eu queria ganhar a corrida, tinha de fazer aquilo. Eu sustento minha decisão de fazer aquela manobra", garantiu.
 
"A manobra não teve impacto em mim mesmo, não fiz contato com ninguém, fiz a minha parte e saí limpo. 100% [de chance] que eu repetiria a manobra se quisesse vencer a corrida. Se fosse a Indy 500, faria a mesma manobra", continuou.
 
Discutamos, pois. Tony Kanaan, por exemplo, ironizou a afirmação de que Norris faria igual na pista real. "Certo. Eu adoraria ver como isso ia funcionar para você, amigo". Sage Karam completou: "Algumas pessoas simplesmente não têm ideia".
 
É possível – e provavelmente necessário – olhar para a questão em dois prismas. Um delas é simples: three-wide na curva um de Indianápolis é, por si só, uma péssima ideia. Em toda a situação causada por Pagenaud no fim da corrida virtual se perdeu a manobra que, na vida real, seria absolutamente irresponsável por parte do piloto da McLaren. Norris causou um acidente no jogo, porque Rahal abriu o espaço e jogo Pagenaud no muro. Fosse na vida real, a manobra que Lando jurou fazer de novo muito provavelmente causaria um acidente sério da mesma forma – e boas chances de que seria com ele próprio. 
 
Norris não sairia impune com o movimento que fez, e isso é claro. Aos 20 anos de idade e sem qualquer experiência em ovais – ou com um monoposto da Indy sob qualquer condição -, Norris se sairia melhor escutando um pouco o que os veteranos têm a dizer.
 
Nem todas as piadas de rede social do mundo te dão a experiência de guiar em ovais, jovem. Nada disso importa, e é bom aprender isso o mais rápido possível. O que fica é a impressão de que Lando, com uma vitória na semana anterior e disputando as primeiras colocações na Indy 175, convenceu-se de que estaria no páreo real com os veteranos da categoria. Talvez seja a empolgação do noviciado, o entusiasmo da juventude, a euforia da adolescência, qualquer coisa assim. Mas é ignorância também.
 
Reserva da McLaren na Fórmula 1 em 2018, Norris conviveu um pouco com Fernando Alonso. Talvez deva conversar com ele, como um bicampeão mundial de F1 e alguém que atingiu um nível na carreira que Norris pode apenas sonhar em atingir, e mesmo assim passou a humilhação de ser bumpado e nem sequer largar na Indy 500 de 2019. Assim como Norris, Alonso estava de McLaren. 
Norris sofreu acidente a poucas voltas do fim (Foto: Reprodução)
Mas e daí? Do que importa ser o admirável talento novo e carregar a estrela laranja-papaia do xerifado mclarenista se você está pisando numa atmosfera em que não se respira oxigênio? Norris pode reclamar o quanto quiser de que foi tirado de combate pela rivalidade Fórmula 1-Indy, mas ele, Norris, é respeitoso quando ignora o que dizem os pilotos veteranos? 
 
Quando diz que repetiria a manobra numa corrida real, Norris é absolutamente ignorante e desrespeitoso com quem há anos enche os pulmões com algum outro elemento da tabela periódica. 
 
Outro assunto que pode ser discutido é sobre pancadas propositais no automobilismo virtual. Sei que muita gente tirou as cabeças pela cabeça falando sobre a necessidade de Pagenaud sair da Indy 175 direto para uma prisão de The Sims. Bobagem. As provas virtuais envolvendo pilotos titulares de categorias grandes com grande exposição são um fenômeno novo e, como tal, ainda engatinha na batalha para encontrar seu caminho. 
 
Temos que aceitar a possibilidade de que pancadas propositais façam parte real desse novo esporte. Você discorda? Perfeito, é justo. Mas não formule sua opinião partindo do princípio de que não seria assim na vida real. Primeiro, o esporte normal, como estamos acostumados a ver, já existe na vida real e implica em elementos, como adrenalina, perigo, velocidade, público que a versão virtual não replicará. Como manter a alta exposição nas corridas virtuais com pilotos que vivem de corridas reais? Transformando num show. Para isso o Twitch, os vídeos da casa de cada um, as brincadeiras durante a prova, os chamados reacts. Tudo isso é parte de um show. E daí se as pancadas também forem?
 
Sim, eu sei, porque é irresponsável. Bom, adivinha aí, a ultrapassagem do Norris também foi. Jamais funcionaria nas corridas reais, como estabelecemos acima, sem colocar a vida de alguém em risco. Deveria acarretar pontos na carteira ou uma prisão do Banco Imobiliário sem o precioso passe-livre? Não. Afinal, colocar a vida alheia em risco no jogo pode ser rapidamente ignorado, porque os machucados são apenas na conexão. 
 
A manobra de Norris não rendeu tanta discussão assim – o que rendeu foi o delírio de estava certo e poderia replicar a tentativa com carne e osso a perigo. Por quê? Porque se quer ver ultrapassagem, ora. Querem ver três lado a lado na curva um do IMS. É delicioso que conversem entre si no Twitch. E se a realidade não permite nada disso, bom, pro inferno com a realidade. Porque isso não é realidade, é uma modalidade nova e que, sim, tem de ser encarada como competição, uma vez que as equipes e patrocinadoras estampam suas marcas, mas o esporte é diferente. O automobilismo virtual não é o automobilismo. 
A Indy 500 virtual (Foto: Reprodução)
O que não quer dizer concordar com as manobras de Pagenaud, Santino Ferrucci e Pato O'Ward, para deixar bem claro. Nem quer dizer todo mundo se acertar nas pistas virtuais do mundo da forma como bem desejarem ao arrepio da esportividade. Não é isso, veja bem. Note o hóquei sobre o gelo, por exemplo. As brigas são comuns no esporte, mas há uma regulamentação das brigas. Tem que ser um contra um e os brigões precisam tirar as luvas, por exemplo. A briga faz parte do jogo, mas não pode ser qualquer briga. Há punição para quem brigar fora das regras.
 
Talvez seja necessário regular as pancadas nas corridas virtuais. Apontar o que vale e o que está fora dos limites e, a quem ferir as regras, impor suspensões de maneira progressiva. Mas, de repente, é jogo limpo caçar durante os três minutos seguintes alguém que causou um acidente envolvendo você. Se carregar mais alguém para a confusão ou se devolver a batida após o tempo estabelecido, exclusão da corrida e punição dentro do campo do jogo. 
 
Estamos moralistas demais com os videogames. Deixemos que eles sejam divertidos da melhor forma possível sem copiar a realidade. Afinal, para a realidade já há a realidade.
 

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