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Conta-giro: campeão da Indy Lights em 2004, Thiago Medeiros larga carreira e vai pilotar helicópteros em Dubai

Thiago Medeiros teve uma reviravolta impressionante em sua vida. Promessa no automobilismo norte-americano com o título da Lights em 2004, o brasileiro mudou completamente de rumo e, hoje, é piloto de helicóptero em Dubai
Warm Up / GABRIEL CURTY, de São Paulo
Todo mundo sabe que ser campeão da Indy Lights não é garantia de uma carreira sólida na Indy. Mas, na grande maioria dos casos, os pilotos que conseguem este feito têm ainda 15, 20 anos de trajetória especialmente no automobilismo. Uma das grandes exceções à regra é Thiago Medeiros. Campeão da categoria de acesso em 2004, o brasileiro até teve seus – poucos – momentos na categoria principal, mas, pouco mais de dez anos depois, exerce uma função que nada tem a ver com a que sonhou no início da carreira: Thiago é piloto de helicóptero em Dubai.
 
Para entender a história de Medeiros, é preciso começar do princípio de sua carreira no automobilismo mundial, ainda nos tempos de F3. Em entrevista exclusiva ao GRANDE PRÊMIO, o paulista, hoje com 32 anos, contou que logo cedo – aos 19, 20 anos – teve de abrir mão do primeiro sonho, o de correr na F1, atrás de uma carreira estável no cada vez mais abrangente automobilismo norte-americano. 
 
“Vários pilotos que correram comigo no kart como Ricardo Maurício, Luciano Burti, Enrique Bernoldi, Antonio Pizzonia e os Sperafico [Rodrigo e Ricardo] não conseguiram ter muito espaço na F1. E do outro lado eu via o Helio Castroneves, o Tony Kanaan e o Felipe Giaffone construindo carreiras sólidas na Indy. Então eu pensei: pra quê arriscar? Foi aí que resolvi trocar a incerteza da Europa e o sonho da F1 por uma carreira mais sólida nos Estados Unidos”, explicou.
Thiago Medeiros está mais que feliz na nova fase da vida (Foto: Arquivo Pessoal)
Após ter um grande ano e vencer a temporada 2004 da Lights com a Schmidt, a oportunidade na Indy naturalmente surgiu. No entanto, uma saída repentina da Chevrolet deixou uma série de times órfãos de motor, entre eles a Patrick, equipe com a qual Medeiros já estava acertado. “Peguei justamente o ano da crise. A Chevrolet ficou só com a Panther, e achar uma fornecedora de motor naquela altura do campeonato sairia caríssimo. Além disso, Tomas Enge, que tinha um patrocínio forte para a Patrick, também seguiu para a Panther. Isso acabou com o time e complicou a minha situação”, explicou.
 
Thiago então se viu diante de uma escolha bastante complicada e voltar para a Lights não era uma hipótese plausível. “Se eu ganhasse o campeonato, não faria mais do que a minha obrigação. Se perdesse, correria o risco de apagar a brilhante campanha que fiz em 2004."
 
Uma oportunidade de guiar pela categoria Silver Crown surgiu, e o paulista aceitou. Foram seis etapas na nova aventura e dois quartos lugares como melhores resultados. Ainda nos Estados Unidos, Medeiros recebeu uma chance pela equipe PDM nas 500 Milhas de Indianápolis de 2006. E fez história: foi o último a conseguir classificar o time para a principal prova do automobilismo americano. Mas aquilo era pouco para ele, que entendeu, ali, que seu ciclo na terra do Tio Sam havia chegado ao fim.
 
“Você só consegue estabilidade lá se tiver um contrato longo e patrocinador forte. Não tinha isso, estava ali no meio, fazendo número. E eu nunca gostei de fazer número, ser mais um. Isso tudo me tirou um pouco do gosto por aquilo e eu acabei voltando para o Brasil”, disse.
 
De volta, Medeiros ainda correu de Stock Car pela Bassani, mas sua desilusão com o automobilismo só crescia, assim como o sentimento de que não era aquilo que gostaria de fazer pelos próximos anos. Foi aí que veio a ideia que mudou completamente o rumo. “Eu queria pensar no que iria fazer da vida nos próximos 20, 30 anos. E resolvi estudar aviação, queria algo mais sólido e mudei minha vida de uma hora para outra."
Thiago Medeiros trabalha como piloto de helicópteros em Dubai (Foto: Arquivo Pessoal)
Já desligado de suas atividades nas pistas de corrida, o brasileiro foi estudar aviação e, a partir de 2008, começou a fazer uma série de provas e avaliações para se adequar à nova profissão. “Eu não sabia nada, fui visitar um aeroclube e já de cara fui saber dos procedimentos para tirar carteira de piloto de helicóptero”, falou.
 
“Tirei a carteira de piloto privado e não parei por aí. Tirei a carteira de piloto comercial e depois de instrutor de vôo. Feito isto, fui para Ribeirão Preto para ser instrutor e lá, em oito, nove meses, consegui quase 1.000 horas de vôo. Eu não parava, fui tirando várias carteiras e conseguindo autorização para pilotar diversos modelos”, completou.
 
Cheio de cursos e boas referências de amigos, Medeiros logo conseguiu empregos no Brasil. Contudo, o ambiente de trabalho por aqui não lhe agradava e o paulista novamente pensou em sua felicidade e foi atrás de uma vaga no exterior.
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“Consegui alguns empregos no Brasil, mas o público me cansou um pouco. A cultura do patrão brasileiro é complicada. O cara não aceita o não como resposta, não quer saber de condição meteorológica ou coisas assim, então, seu emprego sempre fica em perigo por causa dessas pessoas. Aquilo me incomodava, a aviação no Brasil também já não estava mais tão aquecida. Então resolvi buscar carteira lá para fora, aproveitando que eu falava inglês”, disse.
 
O brasileiro primeiro pensou em Portugal, principalmente pela facilidade da língua, depois sondou alguns outros países, entre eles a Suécia. Após enviar cartas e buscar oportunidades fora do Brasil, Medeiros resolveu tirar férias e ir viajar com a esposa. O destino? Dubai. E aí a resposta para o seu futuro apareceu.
 
“De cara, eu fiquei impressionado com a arquitetura e como eles conseguiram deixar o país daquele jeito em tão pouco tempo. Resolvi também tentar a sorte lá, deixei meu currículo, minhas informações e, após alguns meses, fui chamado”, contou.
É assim que trabalha Thiago Medeiros nos dias de hoje (Foto: Arquivo Pessoal)
Medeiros se mudou para Dubai no início deste ano e começou uma série de cursos para poder assumir seu posto em uma empresa que o havia contratado no final de 2014. Hoje, primeiro brasileiro em Dubai fazendo vôos panorâmicos para turistas, o piloto de 32 anos está feliz na nova profissão e no novo país, ainda que sinta falta de algumas coisas da Indy.
 
“Eu ainda acompanho, claro. Tenho muitos amigos lá. E também tem aquela coisa: não posso negar que o automobilismo está no meu sangue, não tenho como deixar isso de lado”, confessou.
 
De qualquer forma, com saudades das pistas ou não, o foco de Thiago está bem definido em continuar como piloto, em continuar vivendo em Dubai. Outra mudança drástica em sua vida profissional, portanto, não parece ser nada provável.
 
“Tenho contrato por três anos, mas desde já eu quero renovar. Os pilotos aqui podem trabalhar até os 65 anos, e a perspectiva para o futuro aqui é ótima”, completou.