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Fora da Indy há mais de uma década, Haberfeld cria ONG e se dedica à proteção de onças-pintadas no Pantanal

Ex-piloto de Indy, Mário Haberfeld encerrou a carreira no automobilismo relativamente cedo para se dedicar a uma outra paixão: o meio-ambiente. Uma década após deixar a categoria norte-americana, o paulista mantém uma ONG que tem como objetivo proteger onças-pintadas no Pantanal
Warm Up / RENAN DO COUTO, de São Paulo
 Pantanal é um dos principais ecossistemas onde as onças-pintadas vivem no Brasil (Foto: Mário Haberfeld)
Do agito das pistas à calmaria do Pantanal. A vida de Mário Haberfeld mudou bastante nos últimos anos. Depois de se aposentar relativamente cedo das pistas, aos 32 anos, o agora ex-piloto de 38 se dedica a uma atividade bem diferente daquela que o tornou famoso mundo afora: toca uma ONG que tem como objetivo a preservação das onças-pintadas na região do Pantanal .
 
“Você tem que achar uma outra coisa que gosta de fazer para repor aquilo e gastar a sua energia com esse novo desafio”, conta ao GRANDE PRÊMIO o fundador do Projeto Onçafari, que tem sua base no Refúgio Ecológico Caiman, em Miranda (MS).
Predador da natureza brasileira, a onça-pintada tem sua população restrita principalmente ao Pantanal e à Amazônia (Foto: Projeto Onçafari)
Campeão da F3 Inglesa em 1998, Haberfeld chegou a assinar para fazer parte do programa de jovens pilotos da McLaren, e bancado pelo time de F1 foi correr na F3000 no ano seguinte. Hoje, ao recordar a passagem pela categoria, pensa que se tratou da “maior burrada da carreira”.

“Foi a primeira vez na vida que ganhava um bom salário, uma boa equipe. Mas, olhando para trás, foi um erro. Era bom para ninguém. O carro era ruim, não tinha treino e os caras corriam dois ou três anos para ganhar o campeonato”, avalia. Já sem o apoio da McLaren, disputou mais três temporadas da F3000. Neste meio tempo, teve a oportunidade de testar com equipes de F1 como a própria McLaren, a Stewart, a Benetton e a Jordan antes de voltar seu foco para os Estados Unidos. Lá, encontrou a Champ Car, na qual competiu em 2003, pela equipe Contest, e em 2004, com a Walker.
 
“Gostei bastante. Fui bem, até. Na primeira corrida, era uma equipe nova, a gente chegou em quarto. Foi um ano bom. No outro ano, corri com a Walker, era o único com o chassi Reynard. Não ganhei nada, mas foi bom”, diz.
Mário Haberfeld fez duas temporadas completas na Indy em 2003 e 2004 (Foto: Getty Images)
Ele foi, respectivamente, 12º e 13º nas duas temporadas, tendo os quartos lugares em St. Petersburg em 2003 e em Toronto em 2004 como melhores resultados.
 
“O problema é que a Indy estava indo para o buraco e dava para ver. Não tinha patrocínio para ter duas categorias praticamente iguais, a Champ Car e a IRL. Achei melhor parar de correr na Indy, porque vi que não ia a lugar nenhum. E começaram a fazer corrida em oval, eu não gostava. Correr em pista normal tem um risco, mas é legal pra caramba, você assume um risco pequeno. Em oval, o risco é gigante e eu nunca achei a menor graça”, admite. Depois disso, Haberfeld chegou a competir no Grand-Am e na Le Mans Series, mas o endurance também não era sua praia, e o piloto decidiu deixar as pistas no fim de 2008.
 
Foi, então, procurar um modo para repor o espaço que o automobilismo tinha.
 
A segunda paixão
 
“Aos 12 anos, meu pai me levou para a África, e fiz uma viagem de 15 dias na caçamba de um caminhão na Tanzânia. Quando comecei a pensar que queria parar de correr, já sabia que queria fazer alguma coisa relacionada a conservação. Quando parei mesmo, tirei dois anos sabáticos e fiquei viajando o mundo inteiro para conhecer os projetos que são feitos. E aprendi que o jeito mais fácil é agregando valor aos bichos”, relata.
 
Mário diz que é preciso “fazer com que os animais valham mais vivos do que mortos”, e o caminho que encontrou para tocar seu projeto foi o ecoturismo. “Infelizmente, a maioria das pessoas pensam em dinheiro, então ou o bicho vale alguma coisa ou ninguém vai fazer nada para preservar.”
 
O foco do projeto foi colocado nas onças-pintadas. “O que todo mundo quer ver é o predador. Na África, é o Leão. Na Índia, o Tigre. Ver elefante é legal, mas todo mundo quer ver é o predador”, justifica.
Onças são habituadas a se aproximarem dos carros (Foto: Projeto Onçafari)
A base foi instalada na fazenda Caiman, no Mato Grosso do Sul, onde os animais selvagens não são caçados há pelo menos três décadas, desde que o terreno está nas mãos do atual proprietário. “No Brasil, é proibido caçar. Mas o Pantanal é do tamanho da Inglaterra. Cabe a Suíça, a Áustria, a Bélgica e ainda sobra. Então é gigante, super difícil de policiar”, fala. Dentro da área desta fazenda, foi dado início a um processo de habituação das onças, para que elas se acostumem com os carros e, dentro deles, os turistas possam se aproximar. “Chega uma hora que ela começa a tratar o carro como uma árvore. Só que demora”, diz. O processo é feito com as fêmeas, o que faz com que os filhotes já copiem o comportamento da mãe. Segundo Haberfeld, é importante que a área seja isolada porque, com os animais mais acostumados aos veículos, a caça pode ficar facilitada em uma área desprotegida. Dentro desta fazenda, foram montadas duas pousadas para receber o público.
 
Fora isso, um outro objetivo do projeto foi convencer os fazendeiros da região a não matar mais onças. “Eles acham que a onça mata muito mais gado do que realmente acontece. Tem uma outra ONG, o Instituto Onça Pintada, e há cinco ou seis anos a gente fez essa pesquisa. Pegamos umas 20 fazendas em volta da nossa, uma área gigante, e falamos para os proprietários que se qualquer onça matasse um bom, a gente pagaria. Tudo o que deveriam fazer era tirar uma foto do boi supostamente caçado e um ponto de GPS. Eles diziam que perdiam de 10% a 20%. Demorou uns dois anos, e o número real era de 1% a 1,5%, dependendo de quanto o cara caçava outros animais, como a capivara. É irrelevante se pensar na porcentagem que os caras perdem por causa da cheia, de transporte, de doença e de vacinas”, comenta.
 
Automobilismo x Preservação do meio ambiente
 
Haberfeld diz que a principal dificuldade para operar a ONG é a capacitação da equipe. “É um negócio novo no Brasil, não tem ninguém treinado para habituar a onça.” Com essa finalidade, há um intercâmbio com organizações semelhantes de outros países.
 
Por outro lado, há um ponto em comum com as necessidades de um piloto de corrida: a captação de patrocínio. E, agora, a missão é até mais fácil. “Os valores são bem menores. No automobilismo, qualquer coisa é cara pra caramba. E você vai lá e fala ‘me dá tantos bilhões, vai ter espaço no carro, passar em tal TV, sair no jornal’, o cara faz a conta e vê se vale. Hoje, o que faço, é um retorno imensurável. A Mitsubishi e a Suzuki patrocinam a gente, fornecem os carros. Tem algumas outras empresas, como a Tetrapak, doações de pessoas que vão visitar, e tem um programa em que você pode ‘adotar uma onça’. É um projeto enxuto, e está dando ótimo resultado”, assegura.


No momento, Haberfeld não tem planos para voltar ao automobilismo em qualquer que seja a função, embora não descarte. A meta para 2015 é ampliar o projeto instalado no Refúgio Ecológico Caiman para outras fazendas próximas. Também lançou no fim de 2014, em parceria com a jornalista Laís Duarte, o livro “Alma Selvagem”, com fotografias das viagens que fez após se aposentar das pistas.
 
“Sinto falta das corridas, mas hoje já faz tempo. Se você me perguntar o que prefiro, é o que estou fazendo agora”, afirma.
 
Perguntado se é mais fácil lidar com o meio ambiente do que com o meio do automobilismo, Haberfeld dá risada. “Depende aonde! Na Europa, seus competidores querem mais que você morra e você quer que eles morram também. No americano, é diferente. Se é mais fácil trabalhar com bichos do que com pessoas, eu prefiro. Mas são desafios bem diferentes!”
PAZ E AMOR

Ao GRANDE PRÊMIO, Nelsinho Piquet falou do ano cheio que viveu em 2014 e da adaptação às diferentes categorias que disputou nesta temporada. O brasileiro de 29 anos se disse um apaixonado por pilotar e que apenas procura um “ambiente em que possa se divertir, sem ficar estressado”

“A verdade é que quanto mais experiência você possui, melhor você consegue se adaptar a outros tipos de carros", declarou o piloto.


Leia a reportagem completa no GRANDE PRÊMIO.
O ÚLTIMO CAMPEÃO

Há um ano e meio, Jacques Villeneuve, o último piloto campeão pela Williams, mostrava-se bastante receoso quanto ao futuro do time. Hoje, o pensamento do canadense é diferente — ainda que ele fale da transformação da equipe com alguma cautela. Em entrevista exclusiva à REVISTA WARM UP, em julho de 2013, Villeneuve dissera que, “no momento em que uma equipe passa a ter pilotos pagantes, está acabado”. O pensamento do piloto é direto: ter bons pilotos é que atrai os bons patrocínios. Neste ano, com Felipe Massa se juntando a Valtteri Bottas, a equação mudou, e o campeão de 1997 avaliou a nova fase do time.

Leia a entrevista com Villeneuve na REVISTA WARM UP.