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Na Garagem: Fittipaldi escapa ileso de toque com Unser Jr. e parte para primeira vitória brasileira na Indy 500

A Indy 500 de 1989 entrou para a história pelo confronto entre Emerson Fittipaldi e Al Unser Jr. Quando parecia que o americano tinha tudo para triunfar, um toque mudou tudo: Unser Jr. foi para o muro, enquanto Emerson fazia história para o automobilismo brasileiro, exatos 30 anos atrás

Grande Prêmio / VITOR FAZIO, de Berlim
Exatos 30 anos atrás, em 28 de maio de 1989, o automobilismo brasileiro expandiu fronteiras. A 73ª edição das 500 Milhas de Indianápolis reservaria a história de como Emerson Fittipaldi colocou o Brasil no mapa do automobilismo americano, saindo triunfante de uma disputa digna de cinema com Al Unser Jr. nas últimas voltas.
 
A primeira das 200 voltas naquela tarde de maio em Indiana já servia para mostrar que Fittipaldi não estava para brincadeira. O brasileiro largada na primeira fila, mas, por ser o terceiro melhor na classificação, não estava tão bem posicionado. Não foi problema: Rick Mears e Al Unser, companheiros de fila, seriam superados por Emerson ainda na primeira volta. Era o começo de uma atuação dominante do brasileiro, que trataria de empilhar voltas lideradas.
Emerson Fittipaldi e Al Unser Jr. no momento decisivo da Indy 500 de 1989 (Foto: Reprodução/Twitter)
Enquanto Fittipaldi começava a arregaçar as mangas, um acidente dos mais preocupantes aconteceu já na terceira volta. Kevin Cogan perdeu controle do carro #11 na saída da curva 4, batendo forte no muro interno do IMS. O carro rachou, com motor e parte traseira se soltando da célula de sobrevivência, que, incrivelmente, cumpriu seu trabalho: Cogan saiu ileso e caminhando da cena.
 
Depois, com trechos mais longos de bandeira verde, a Indy 500 ganhou ares de endurance. Diversas estrelas da prova – os já citados Mears e Unser, além de gente do calibre de Arie Luyendyk, Bobby Rahal e Danny Sullivan – sofreram problemas mecânicos. Poucos sobreviventes tinham condições de desafiar Emerson. Dois deles se destacariam: Michael Andretti e Al Unser Jr., então dois jovens de 27 anos, eram as únicas ameaças. Atrás, em quarto, Raul Boesel, já estava cinco voltas atrás.
 
O acidente impressionante de Kevin Cogan no começo da Indy 500
Andretti, na altura da volta 150 começou a se aproximar perigosamente. Emerson não tinha ritmo tão alucinante, sendo mais cauteloso com o equipamento e o consumo de combustível. A consequência foi simples: Michael colou e, na volta 154, tomou a liderança sem qualquer problema. O desafio agora era abrir vantagem ao mesmo tempo em que tentava poupar o carro #6.
 
Só que não daria para fazer os dois ao mesmo tempo: no giro 163, o carro de Andretti começou a soltar fumaça. Era fim de prova, consequência de um motor quebrado. Só restavam dois pilotos na volta do líder, e a Indy 500 havia virado mata-mata: Fittipaldi x Unser Jr., não muito atrás. Uma bandeira amarela na volta 180 trataria de deixar os dois colados.
 
O momento em que Michael Andretti abandona com quebra do motor
A relargada na volta 185 jogou a favor de Fittipaldi. Boesel – agora terceiro, mas ainda cinco voltas atrás – jogou duro com Unser Jr., que tentava dar mais uma volta. A brincadeira permitiu que o bicampeão da F1 abrisse por volta de 3s de vantagem. Parecia suficiente para vencer, já que restavam pouco mais de dez giros até a bandeira quadriculada.
 
Não era: tão logo se livrou de Boesel, Unser Jr. pisou no acelerador até dizer chega. A vantagem de Fittipaldi já não existia mais na volta 193, com a diferença sendo apenas visual. Na transmissão de TV, as esposas de cada piloto faziam um show de caretas enquanto sofriam de apreensão com a disputa dos maridos.
 
A ultrapassagem de Unser Jr., com menos combustível, era inevitável e se concretizou na volta 196. A corrida virava uma questão de malabarismo: era hora de pisar fundo, mas cuidando para não sofrer pane seca. Emerson não tinha tal risco, ao preço de não ser tão veloz em retas. A impressão que ficava é de que, caso a corrida fosse decidida somente em velocidade e ritmo, ‘Little Al’ estava em vias de fazer história.
 
Mas aí veio a volta 198 e, junto dela, tráfego. Unser Jr. se aproximou de um grupo de quatro retardatários que brigavam entre si. O americano fez a ultrapassagem, mas perdeu tempo para Fittipaldi. Na reta oposta, o brasileiro crescia no retrovisor. A curva 3 trouxe a tentativa de ultrapassagem e o momento mais icônico da Indy 500 de 1989: Emerson e Al tocaram rodas, com o piloto da casa perdendo controle e batendo no muro. O ex-F1, talvez mais por sorte do que juízo, só acelerou e seguiu.
 
História sendo escrita: Al Unser Jr. e Emerson Fittipaldi se tocam no momento decisivo da Indy 500 de 1989
A bandeira amarela foi acionada e, com Fittipaldi recebendo a branca em seguida, a Indy 500 estava encerrada. Emerson deu um último giro em velocidade reduzida, saboreando um sentimento único: o de vencer a Indy 500, derrotando dois pilotos da casa.
 
A porta do Brasil no automobilismo americano, que já se abria gradativamente, passou a ficar escancarada. O triunfo de Fittipaldi foi o primeiro de oito do país em Indiana, em um grupo seleto que também viria a incluir Helio Castroneves, Gil de Ferran e Tony Kanaan.