Coluna Wild Card, por Juliana Tesser: Se não acabar…

Uma profecia Maia diz que o mundo vai acabar no dia 21 de dezembro de 2012, mas eu acho que seria um desperdício se a gente perdesse a temporada de 2013 da MotoGP

 

A ideia desta coluna já está definida tem um bom tempo, mas confesso que pensei que teria de mudar de ideia. Afinal, a chuva estava determinada a atrapalhar o primeiro teste coletivo da temporada de 2013 e os exercícios foram bem parados.
 
O maior momento da terça-feira foi, claro, Valentino Rossi voltando para a Yamaha. O italiano não colocou o mundo em chamas, mas nem poderia. O asfalto estava ruim e ele estava voltando a sair com uma ex-namorada que não via há dois anos. Tinha de ir com calma.
 
Acho perfeitamente compreensível a decisão da Yamaha de ir para Aragón. E, certamente, não foi para fugir da chuva, já que todos sabiam que a previsão lá também não era boa. Rossi sempre amou o time de Iwata e a fábrica tem todos os motivos para amar o italiano – goste dele ou não, Valentino é um dos grandes responsáveis, junto com Masao Furusawa, Davide Brivio e Jeremy Burgess, pelo renascimento do time em 2004.
Rossi vai fazer tudo que puder para recuperar seu trono na MotoGP (Foto: MotoGP)
A casa de Iwata foi para o Motorland para ‘proteger’ o italiano. Toda a imprensa especializada estava em Valência e todos querem saber se o multicampeão ‘sobreviveu’ aos anos de Ducati. Havia transmissão ao vivo, público e tudo mais.
 
O time fez o que podia. Rossi chegou, sorriu, mostrou que se sentia em casa, foi para pista, tirou umas fotos, só não deu entrevistas porque o contrato com a Ducati não permitia. Depois de cumprir o protocolo, Rossi precisava de tranquilidade para voltar a sua antiga e conhecida forma. 
 
Não, não acho que a Yamaha esteja tentando esconder que Valentino não é mais o mesmo, mas se olharmos para trás e lembrarmos de 2004, o elemento surpresa foi um fator importante no jogo. 
 
Bater Rossi dá um prazer especial à Honda. Ele pode ter apanhado bastante nos últimos anos, pode ter fracassado na aposta com a Ducati, mas Valentino ainda é o mesmo ‘animal’ que conquistou o mundo da motovelocidade.
 
Eu, na verdade, acho um tanto quanto imprudente que alguns digam que o italiano está acabado. O piloto é movido a desafios e é exatamente desta desconfiança que ele vai tirar forças para renascer. Quando Valentino subir na M1 em Losail no ano que vem, ele vai querer repetir a história de 2004 e vencer a primeira prova.
 
O período na Ducati deu uma lição importante ao italiano. Rossi hoje sabe que ele também pode errar e, acima de tudo, sabe que não pode subestimar os adversários. Ele errou com Casey Stoner. Errou ao acreditar que o australiano era o problema do time vermelho. E ele pagou e seguirá pagando por isso. 
 
Mas agora, livre da problemática Desmosedici e nos braços de sua amada M1, Rossi tem a ferramenta mais afiada disponível para colocar a casa em ordem. Valentino quer recuperar seu trono e segue na MotoGP porque acredita que pode fazer isso. 
 
Pessoalmente, não acredito nessa versão vaquinha de presépio de “eu sou o número dois”. Claro, como campeão de 2012, Lorenzo pode até mandar no pedaço, mas a Yamaha não vai esquecer seu passado e colocar Rossi de lado. E nem Valentino vai aceitar a vaga de número dois. 
 
Acho que isso é uma tática. Bem inteligente, aliás. É a estratégia de passar na última curva da última volta. Rossi, melhor do que eu, você e qualquer especialista, sabe muito bem os efeitos que a idade tiveram em seu corpo e em seu desempenho. Valentino sabe como ninguém quais são as suas reais possibilidades. 
 
Não sei se você teve a oportunidade de ler a autobiografia do Valentino, mas se teve, você sabe do que eu estou falando. Se não leu, aqui vai uma pequena explicação: logo nas primeiras páginas, Rossi fala sobre a importância do título de 2004: “Não era só sobre ganhar outro título, era sobre ressentimento e orgulho, rancor e honra.”
 
E ele vai além. Rossi explica qual foi a sua sensação, naquele dia em Welkom, quando sentou na grama sul-africana, colocou os braços ao redor das pernas e baixou a cabeça ao lado da M1. “Você deve ter pensado no que eu estava fazendo. Talvez você tenha pensado que eu estava tomado pela emoção”, ponderou. 
 
“Na verdade, eu não estava. Não mesmo. Por trás do meu visor preto, eu estava rindo. Gargalhando”, contou. “Rindo por causa da incrível sensação de orgulho, alívio e felicidade que tomou conta de mim. ‘E, no fim, eu estava certo’, pensei. ‘Não posso acreditar, eu ferrei todos eles… que show!’”
 
Não dá para duvidar, certo?
 
Mas a coluna de hoje é sobre o teste, que teve como seu outro grande destaque Marc Márquez. E ele não decepcionou. Não mesmo. Em duas horas na RC213V – já que não ele treinou na terça e só andou com a Honda nas horas finais em Valência – o campeão da Moto2 conseguiu andar pouco mais de 1s atrás de Dani Pedrosa, o mais rápido.
Márquez tem talento de sobra para mostrar um bom desempenho na classe rainha (Foto: Repsol)
Márquez prova, dia após dia, que todos os elogios que recebe são merecidos. 
 
Pilotos experientes como Ben Spies e Nicky Hayden se mostraram surpresos com o desempenho do espanhol. O piloto da Ducati chegou a brincar que Marc precisava de mais uns dois anos na Moto2, só ressaltando a boa impressão causada pelo novato. 
 
Márquez é o novo fenômeno da motovelocidade. O novo Rossi, o Messi das duas rodas, o Phelps das motos, ou seja lá que tipo de comparação que você preferir. 
 
Shuhei Nakamoto, vice-presidente da HRC, já afirmou que espera um pódio no Catar. Eu acho que é uma expectativa muito alta. Se dependesse só do talento de Marc, seria simples. Mas os rivais são duros. Bem duros. E Marc ainda precisa se acostumar. Não dá simplesmente para jogar o garoto na jaula dos leões e esperar que ele saia de lá rindo. 
 
Só que Márquez é Márquez e eu não arriscaria meu dinheiro apostando que ele fica fora do top-3 em Losail. 
 
Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a reação de um dos integrantes da Catalunya ao bom desempenho de Márquez. Em resumo, o que ele disse foi que os tempos do espanhol só surpreendem a seus detratores e aqueles que o acusam de mexer na moto além do permitido. 
 
E ele tem razão. Quem acredita que o Márquez de 2012 foi o Márquez em seu melhor, sabe que ele vai arrebentar na MotoGP. Seja como for, 2013 promete.

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