MotoGP
12/08/2018 13:22

Lorenzo ousa na estratégia de pneus e impede Márquez de quebrar status quo da 'Ducatilândia'

Depois de Marc Márquez cravar a pole-position para o GP da Áustria, a sensação era de que o império da Ducati no Red Bull Ring estava prestes a cair. Mas antes que os de Borgo Panigale fossem destronados da monarquia austríaca, Jorge Lorenzo arriscou partir para a largada com dos pneus macios. Deu muito certo. Lorenzo venceu e enfileirou a terceira vitória seguida da Ducati em Spielberg - todas com pilotos diferentes
Warm Up / PEDRO HENRIQUE MARUM, do Rio de Janeiro
 Jorge Lorenzo (Foto: Michelin)
Quando o fim de semana do Mundial de Motovelocidade começou na Áustria, ainda na sexta-feira, havia um favoritismo um tanto quanto implícito no ar. Afinal, desde que Spielberg voltou para o calendário da MotoGP, em 2016, foram dois anos de vitórias da Ducati. Some a isso o fato de que a fábrica italiana claramente cresceu após as férias de meio de temporada. E ainda que liderou o primeiro treino livre num dia em que a segunda sessão foi 'café com leite' por conta da forte chuva. Pronto, favoritismo.
 
O sábado veio com um toque de traquinagem a oferecer. Traquinagem dele, aliás, o futuro campeão da temporada 2018. Marc Márquez mostrou novamente que está simplesmente em outro nível na comparação com seus rivais e, bem, todo mundo que acelera uma moto na pista. Foi assim, no fórceps, que bateu um trio de Ducati e cravou a pole-position.
 
Jorge Lorenzo, terceiro no grid de largada, resolveu ousar uma vez que seus dois adversários mais próximos, Márquez e Andrea Dovizioso, tinham mais ritmo que ele. 
 
Na seleção dos pneus para a corrida, o espanhol da Ducati decidiu ir com dois macios, enquanto seu companheiro italiano apostou em dois médios e Márquez foi ainda mais conservador: dianteiro médio, traseiro duro. Logo na largada, Márquez e Dovi erraram e deixaram o #99 na ponta, mas rapidamente Marc recuperou a dianteira.
 
Parecia algo definitivo. Afinal, se no começo, quando os pneus macios tendiam a ter vantagem, Lorenzo era mais lento, o que seria então conforme os compostos mais degradáveis fossem acabando e os mais resistentes, como os de Márquez, passassem a se destacar? Errado, totalmente.
Jorge Lorenzo vibra com a vitória (Foto: Ducati)
Lorenzo foi se assentando na corrida e serviu de sombra a Márquez - e ambos empurrando Dovizioso para um convicto terceiro lugar. Começou a atacar depois, tomou a ponta, perdeu e recuperou. Cedeu apenas com um erro, do qual logo se recuperou novamente. A disputa seguiu e seguiu até a última volta. Com Márquez na frente, Lorenzo fez a última investida de uma batalha apoteótica. Golpe de misericórdia. 
 
Foi o suficiente para a vitória da ousadia de Lorenzo. A terceira vitória dele na temporada - e pela Ducati. E uma demonstração de que a vida de Márquez será dura no ano que vem, quando os dois passam a desfrutar do mesmo equipamento. 
 
Nem mesmo o melhor piloto do campeonato foi capaz, ao menos por enquanto, de superar a barreira que representa enfrentar a Ducati na 'Ducatilândia'. Depois de Andrea Iannone e de Dovizioso, agora é Lorenzo quem finca a bandeira da equipe que, como a imperatriz Sissi, maravilha a Áustria com sua personalidade.
 
O #99 reconheceu que Márquez estava muito veloz e que tentou alcança-lo no início da corrida, mas com borrachas tão sensíveis ao calor do asfalto – que chegou a bater 44ºC durante a prova, precisou poupar para atacar no final. “Eu não esperava Marc tão rápido no início. Ele estava tentando manter a distância e eu precisei acelerar mais, mas ao mesmo tempo tinha que manter os pneus”, disse.
 
“No final, eu decidi atacar, mas sabia que Marc dificultaria. Eu estava mais forte em algumas áreas do traçado, mas ele estava muito forte na freada. Na última volta, ele não esperava que eu fosse por fora na curva 3. Eu arrisquei muito na freada, mas foi uma das minhas melhores vitórias na MotoGP”, continuou.
 
“Uma tensão terrível. O coração aguentou, mas foi difícil manter a cabeça com Marc, pois ele é freia muito bem. Cada um tinha nossas cartas em algumas partes do circuito. Na última volta pude despistar um pouco e tentei tirar ao máximo e poder ganhar esta corrida é muito especial. Foi uma estratégia improvisada, uma corrida ótima”, completou.
 
Marc não conseguiu converter a excelente pole-position em vitória, seguindo zerado de triunfos no Red Bull Ring. Entretanto, o pódio foi suficiente para deixar o piloto satisfeito, ainda mais pela sua escolha conservadora do pneu duro, e ainda aumentar sua vantagem na liderança da classificação para 59 pontos.
 
“Gostei desta corrida, eu dei tudo de mim e cheguei em segundo. Tentei manter a diferença. Em um momento, pensei que seria possível, mas então eles começaram a me alcançar. Estou feliz, pois dei meu máximo, foi um ótimo show. Conseguimos manter a vantagem no campeonato e estou muito feliz”, disse.
 
“Lorenzo não queria acelerar muito no início, pois na volta de aquecimento o vi muito lento, para reservar gasolina. Isso me fez mudar de estratégia, pois havia escolhido o pneu traseiro duro e sabia que aguentaria. Então o grupo abriu e cheguei no final da corrida para brigar pela vitória com uma das Ducati. Esse era o objetivo, mas pensava que seria com Dovi, não com Jorge”, apontou.
 
Outro piloto que também optou pelo conservadorismo na estratégia de pneus foi Dovizioso. Entretanto, com um desgaste inesperado do pneu traseiro, ficou longe de sair satisfeito da Áustria – ainda sofreu o forte golpe de ver seu companheiro espanhol ultrapassá-lo na classificação e assumir a terceira colocação da tabela.
 
“O pneu dianteiro funcionava bem e isso foi o que me salvou. O problema é que a borracha traseira se degradou de forma inesperada. Tive que me render quando faltavam dez voltas para o final e isso eu não esperava”, explicou.
 
“Infelizmente eu fui o terceiro e não pude pilotar da maneira que queria. Mas, honestamente, eu acabei com o pneu. Estava tentando ultrapassar Lorenzo, mas não conseguia segui-lo, desgastei o pneu. Nós três estávamos com pneus diferentes. Estou muito decepcionado, pois tinha uma boa velocidade. Mas outra Ducati venceu, então é bom”, continuou.
 
Com duas viórias consecutivas desde o retorno do Mundial de Motovelocidade, na última semana, a Ducati tem começado a mostrar que achou de novo o caminho das vitórias, ou ao menos está na trilha para voltar a sua forma mais competitiva. E o maior exemplo disso foi sua dupla de pilotos ter parado, em dois finais de semana, o estilo agressivo, voador e campeão de Marc Márquez.