MotoGP perde cor, mas ausência de público passa batida em GP da Espanha espetacular

Na primeira corrida com portões fechados por conta da pandemia do novo coronavírus, o Mundial de Motovelocidade se viu sem a paixão habitual de seu publico fiel. Mas espetáculo na pista falou mais alto

Confesso a você, caro leitor: eu não tinha lembrado da falta de público no GP da Espanha do último domingo (19) até receber a encomenda deste texto. Quer dizer, lá no início da transmissão, a Dorna passou uma imagem do estacionamento praticamente vazio em Jerez de la Frontera e isso, claro, chamou a atenção. Afinal, é um cenários dos mais improváveis para uma corrida com a presença da realeza espanhola em duas rodas.

Nos dias anteriores, também dava para notar um ambiente diferente. Ao contrário do que normalmente acontece, não recebi nenhuma foto de pilotos assinando autógrafos diante de uma empolgada multidão. Mas, pessoalmente, o vazio que mais me chamou a atenção foi o da coletiva de imprensa. Além de estarem sentados preservando um certo distanciamento social, os pilotos tinham diante de si apenas Steve Day, narrador no streaming oficial da MotoGP, um fotógrafo, algumas pessoas da equipe técnica, e uma TV, onde jornalistas de vários veículos do mundo ― aqueles que tradicionalmente são credenciados para cobrir a corrida ― faziam perguntas via Zoom. Também foi estranho ver pilotos atendendo a imprensa pelo computador ― Valentino Rossi, aliás, ousou e colocou um fundo praiano e óculos de sol, uma referência ao forte calor do verão espanhol.

Momentos antes da largada na Espanha (Foto: Suzuki)
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Mas, quando o cronômetro é acionado, o público, as máscaras e o protocolo sanitário passam a ser secundários. Alguém, por acaso, notou que as arquibancadas estavam vazias enquanto Marc Márquez lançava mão de mais uma de suas impressionantes provas de recuperação? E, ok, terminou mal, mas todo mundo curtiu enquanto o espanhol foi escalando da 16ª para a terceira colocação.

Verdade seja dita, certamente teríamos alguns olhos arregalados no momento em que o piloto da Honda sofria ao ser retirado de ambulância da pista. O fã-clube do multicampeão, com toda certeza, teria sido colocado em destaque na sua TV.

Também teria sido divertido ver a explosão de alegria de Fabio Quartararo diante de seus torcedores ao vencer pela primeira vez na MotoGP. E, mesmo em plena era de isolamento social, vimos um incontido Johann Zarco invadir a coletiva de imprensa pós-GP para parabenizar o conterrâneo pelo triunfo. Nas atuais circunstâncias, é melhor poder fazer uma festa contida e esvaziada do que não poder fazer festa alguma.

Como as ruas de Jerez bem mostraram, não está dando exatamente para confiar no bom senso das pessoas em meio à pandemia do novo coronavírus, não é mesmo?

Em relação ao protocolo sanitário, chamou atenção que, diferente do que acontece na Fórmula 1, os pilotos receberam seus troféus das mãos de outras pessoas. E, por incrível que pareça, foi estranho ver o rosto nu de Franco Morbidelli na foto em que a SRT comemorava sua primeira vitória na elite ― afinal, o ítalo-brasileiro era o único sem a vestimenta em meio a uma multidão de mascarados.

Falando em F1, devo dizer que concordo plenamente com Felipe Noronha, que, no início do mês, fez um texto com a mesma temática para falar sobre o início da temporada 2020 na Áustria: “Se a corrida fosse monótona, talvez eu passasse a transmissão observando ― ou até mesmo ‘caçando’ ― os problemas”. O que ele escreveu era verdade para a categoria máxima do automobilismo e é igualmente legítimo para a MotoGP.

O Mundial de Motovelocidade iniciou ― ou reiniciou, no caso de Moto3 e Moto2 ― a temporada 2020 em grande estilo: a classe menor teve sua tradicional animação, enquanto que a divisão do meio foi menos explosiva, mas igualmente divertida com a vitória de Luca Marini ― especialmente no momento em que o mecânico da VR46 ajudou Luca a pular a grade para cumprimentar o irmão Valentino. A MotoGP, por sua vez, entregou o esperado: Marc Márquez encantou com sua tradicional mágica e surpreendeu pela humanidade (afinal, o Márquez quebrou, e nós já começávamos a achar que ele era feito de aço); Quartararo manteve a mesma boa forma do ano passado e carregou a torcida da TV junto no caminho para a vitória; Andrea Dovizioso foi cerebral para dar à Ducati seu melhor resultado; Maverick Viñales tirou proveito da melhora da Yamaha mesmo com uma escolha errada de pneus; Brad Binder fez uma senhora prova de estreia; e etc.

Franco, menino, cadê sua máscara? (Foto: SRT)

Claro, a festa seria diferente com a torcida. Certamente, mais colorida e barulhenta. Mas, em um momento de pandemia, o silêncio da torcida passa uma imagem muito melhor: a saúde é prioridade, o esporte, não. A MotoGP voltou à ativa quando o continente europeu vive uma situação muito mais sob controle da propagação do novo coronavírus ― de acordo com dados levantados pela OMS (Organização Mundial da Saúde) até terça-feira, a Espanha registrou 264.836 casos de Covid-19, 4.581 nas últimas 24 horas, com 28.422 mortes, duas no último dia. O total de casos na Europa chega a 3.103.674, 24.401 novos, com 207.958 vítimas fatais, 416 no último dia.

A torcida faz falta, óbvio, mas o espetáculo protagonizado pelos pilotos na pista é mais do que o suficiente para tornar essa ausência sem efeito, ainda mais pela televisão, onde o som dos motores dá conta de agradar ao menos um dos nossos sentidos. A MotoGP ficou menos colorida sem seu passional público, mas, no contexto atual, o silêncio das arquibancadas é mais do que necessário.

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