MotoGP

Petrucci vai do inferno ao céu da MotoGP em 124 GPs e mostra à Ducati que merece vaga em 2020

Da pior equipe do grid à vitória em casa: nos 124 GPs da carreira, Danilo Petrucci conheceu o inferno e o céu da MotoGP. No topo do pódio do GP da Itália, o #9 mostrou não só que merece um novo contrato com a Ducati para 2020, mas também provou que seus detratores estavam errados. O lugar do italiano de Terni é, sim, no Mundial de Motovelocidade

Grande Prêmio / JULIANA TESSER, de São Paulo / NATHALIA DE VIVO, de São Paulo
Poucas pessoas conhecem os extremos da MotoGP tão bem quanto Danilo Petrucci. Nos 2611 dias que se passaram desde a estreia na classe rainha ― no GP do Catar de 2012 ―, o italiano de Terni experimentou todas as dores e sabores do esporte: a dor do abandono, a tristeza por não pontuar, a alegria de somar seu primeiro ponto, o contentamento da estreia no top-10, no top-5, a satisfação com a estreia do pódio e, enfim, o regozijo por alcançar o olimpo pela primeira vez.
 
Diferente de muitos de seus pares, Petrucci não seguiu um caminho tradicional no esporte. Hoje, aos 28 anos, Danilo tem 1,81 m e sua estatura e estrutura corporal sempre se apresentaram como desafios extras no mundo da motovelocidade. Tradicionalmente um passo à frente na linha de crescimento, o #9 teve de seguir uma rota diferente, pulando as classes menores, onde a altura se apresenta como um empecilho.
 
Em 2008, Danilo encarou sua primeira temporada completa em competições europeias com uma moto de Superstock 600. Dois anos depois, o italiano passou para o Europeu de Superstock 1000 e foi lá que, um ano depois, teve sua primeira parceria com a Ducati.
A chegada do GP da Itália (Foto: Repsol)
Após fechar o segundo ano na categoria com o vice-campeonato, Petrucci carimbou o passaporte para a MotoGP, mas com a Ioda, um projeto fraco. Em seu primeiro ano, Danilo saiu duas vezes em 15º ― na Alemanha e na Austrália ― em suas melhores exibições na classificação. Nas corridas, porém, foram seis abandonos, cinco GPs sem pontuar e um oitavo lugar em Valência como melhor resultado.
 
O #9 ficou mais um ano com a Ioda antes de passar para a ART em 2014. Nesses dois anos, foram outros tantos abandonos e muitas corridas fora do top-15.
 
E aí surgiu uma chance melhor: com a Pramac. Em seus dois primeiros anos com o time, Petrucci teve sempre uma moto defasada, mas isso não o impediu de debutar no pódio ― com um segundo lugar na Grã-Bretanha em 2015. 
 
Mostrando uma clara evolução, Petrucci ganhou, enfim, uma moto do ano em 2017 e, no ano passado, passou a ser contratado diretamente pela Ducati. Com a falha do projeto entre Jorge Lorenzo e a casa de Bolonha, o italiano despontava como candidato natural ao posto no time de fábrica. Mas nem isso veio fácil, já que ele teve de superar uma disputa com Jack Miller.
 
Petrucci, então, fez o que tinha de fazer e superou o australiano para ganhar um lugar no time de fábrica. Mas, ao contrário da maioria dos pilotos oficiais, o contrato do #9 vinha com um asterisco: válido apenas para 2019. E, de novo, tendo de disputar a vaga com Miller.
 
Desta vez, contudo, Danilo ganhou um aliado: Andrea Dovizioso. Vice-campeão nos últimos dois anos, o #4 entendeu que podia ter em Petrucci um aliado e, assim, praticamente adotou o piloto que nasceu em 90. Além de dividir sua rotina de treinos e hábitos alimentares, o italiano de Forli tem atuado também como conselheiro, guiando os passos do companheiro de equipe.
 
Ao longo deste ano, não foram poucas as vezes em que Danilo reconheceu o papel de Andrea em sua evolução. E, desta vez, não foi diferente. O #9 dedicou o triunfo em Mugello ao parceiro de Ducati.

Paddockast #20
Punições tardias, circuitos chatos... O que tem de acabar no esporte a motor?



Em um caminho tão tortuoso, Petrucci ouviu muitas vezes que estava na carreira errada. E chegou mesmo a acreditar.
 
“Me disseram muitas vezes no passado para desistir da minha carreira, porque diziam que esse não era o meu mundo”, contou. “E, também, no início deste ano, eu disse: ‘Ok, vou tentar este ano, não tenho contrato para o ano que vem, então eu coloquei pressão em mim mesmo. Depois das três primeiras corridas, os resultados não eram tão bons e, mais uma vez, foi Andrea que me ajudou neste período, me dizendo para não pensar no futuro, para pensar no agora. Tentar curtir o que estava fazendo e focar nos pontos mais fortes, trabalhar duro”, seguiu. 
 
“A partir de Jerez, eu disse: ‘Ok, vou fazer meu melhor neste ano. Se for o suficiente, ok. Se, com esta moto, eu não conseguir vencer, não vou conseguir com moto nenhuma”, falou. “Mas hoje eu venci e talvez eu mude a minha programação para o futuro”, brincou.
 
Italiano, vencer em Mugello era um sonho, mas também representava uma pressão extra. Gripado, Petrucci sequer estava na melhor forma física, mas lidou bem também com o medo de atrapalhar Dovizioso.
 
“Havia muita pressão nesta corrida, pois todos querem que a Ducati vença. Na última volta, vi a oportunidade na primeira curva. Tinham me passado, mas deixaram uma pequena porta aberta. Quase toquei em Andrea, mas queria passá-lo”, relatou. “Não tenho palavras para descrever esse momento. Provavelmente quando abrir o jornal amanhã entenderei realmente que venci”, ponderou.
 
“No princípio da corrida tive um pouco de medo porque éramos muitos pilotos ali brigando. Não sabia bem como me comportar estando ali ao lado de Dovizioso”, admitiu. “Na última curva comecei a gritar como um louco. Gritei muito. Não respirava, me faltava ar. Ainda não assimilei bem tudo isso”, detalhou.
Danilo Petrucci correu com par de pneus médios no GP da Itália (Arte: Grande Prêmio/Michelin)
Nem mesmo em um fim de semana onde exibiu uma ótima forma, Petrucci deixou de duvidar de si mesmo. 
 
“Comecei a pensar no início deste ano que talvez eu nunca vencesse uma corrida”, admitiu. “Na saída da última curva, pensei por um momento que, se seguíssemos a história da minha vida, eu sairia da curva na primeira posição, mas cruzaria a linha de chegada em terceiro. Eu engatei a quarta marcha, a quinta, e esperei por Marc e Dovi, aí, nesse momento, eu engatei a sexta e cruzei a linha de chegada”, revelou.
 
Com o sonho conquistado, Petrucci garante que agora vai focar em outro objetivo: ajudar Andrea a dar o título à Ducati pela primeira vez desde a conquista de Casey Stoner em 2007.
 
“Desde o início da temporada, nós temos duas metas diferentes. A minha era vencer a minha primeira corrida, agora nós precisamos atingir a meta de Andrea”, afirmou. “Vou fazer de tudo para conseguir essa meta”, prometeu. 
 
“Eu lamento muito por, com certeza, acho que Marc e Andrea poderiam ter vencido hoje, mas as corridas são sempre no limite e, desta vez, era a minha hora”, comentou. “Acho que tive uma grande oportunidade. Na próxima vez, vou pensar no campeonato”, completou.
 
Divertido e simpático, Petrucci é uma figura bem-quista no paddock da MotoGP. Neste domingo, além silenciar os críticos, Danilo também provou estar errada a máxima atribuída ao treinador de baseball Leo Durocher de que ‘nice guys finish last’ (‘bons rapazes terminam em último’, no português). Hoje, o cara legal levou o troféu de vencedor para casa.
 
(Se você ainda não se convenceu, um estudo da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, apontou que ser bonzinho resulta em amizades de mais qualidade, melhor performance profissional e acadêmica e também faz bem para a saúde). 
Resultado do GP da Itália (Arte: Grande Prêmio/Michelin)



Apoie o GRANDE PRÊMIO: garanta o futuro do nosso jornalismo

O GRANDE PRÊMIO é a maior mídia digital de esporte a motor do Brasil, na América Latina e em Língua Portuguesa, editorialmente independente. Nossa grande equipe produz conteúdo diário e pensa em inovações constantemente, e não só na internet: uma das nossas atuações está na realização de eventos, como a Copa GP de Kart. Assim, seu apoio é sempre importante.

Assine o GRANDE PREMIUM: veja os planos e o que oferecem, tenha à disposição uma série de benefícios e experências exclusivas, e faça parte de um grupo especial, a Scuderia GP, com debate em alto nível.