Nascar
20/12/2015 07:30

Temporada 2015 da Nascar coroa recuperação improvável de Kyle Busch com título e marca despedida de Gordon

Do título de Kyle Busch até a aposentadoria de Jeff Gordon; dos incidentes entre Matt Kenseth e Joey Logano até o acidente de Austin Dillon em Daytona, a temporada 2015 da Nascar realmente teve tudo. Por isso, o GRANDE PRÊMIO a retrospectiva do certame e sua marcante temporada
Warm Up / VITOR FAZIO, de Porto Alegre
 Largada, Talladega, 2015, Sprint Cup (Foto: Nascar)
Não é força de expressão dizer que a temporada 2015 da Nascar teve de tudo. O certame americano, conhecido por suas particularidades, teve um ano plural. Desde o campeão que não correu em 11 provas até o veterano que encerrou uma carreira de 23 anos, tudo aconteceu. Teve até acidente proposital, piloto suspenso e carro voando contra alambrado.
 
Kyle Busch certamente foi o protagonista dessa aventura. O piloto da Joe Gibbs, que fraturou a perna em um sério acidente no oval de Daytona, conseguiu uma recuperação ágil para, depois de uma incrível sequência de vitórias, se consolidar como candidato ao título. Em Homestead, batendo de frente contra gente como Kevin Harvick e Jeff Gordon, se sobressaiu.
 
Gordon, aliás, vai ter memórias incríveis da temporada 2015. O #24 resolveu colocar um ponto final em sua carreira na Sprint Cup, que remonta 1992. Jeff, depois de um começo de ano simplesmente medíocre, deu a volta por cima e conseguiu uma despedida rara entre atletas: no auge. A redentora vitória em Martinsville, para superar um ano até então negativo, é o melhor exemplo disso.
2015 coroou Kyle Busch como campeão da Nascar (Foto: Getty Images)
Mas o ano também teve suas marcas negativas. Matt Kenseth, pilotos com excelentes resultados em 2015, passou de herói a vilão em apenas um dia: o #20, incomodado com atitudes anteriores de Joey Logano, partiu para um acidente proposital como forma de dar o troco. Com isso, Kenseth – já eliminado do Chase – deu uma forcinha para que Logano seguisse o mesmo caminho pouco depois.
 
Os acidentes não foram tantos, mas marcaram. Austin Dillon que o diga: o #3 voou após cruzar a linha de chegada em Daytona, batendo com muita força contra o alambrado que protegia o público. Apesar da violência do impacto, ninguém se feriu.
 
Como se nota, os altos e baixos do ano foram muitos. Para não deixar nada para trás, o GRANDE PRÊMIO resolveu recordar tudo que aconteceu na Temporada 2015 da Nascar, corrida por corrida.

I – Supremacia de Harvick
 
A temporada 2015 da Nascar começou com dúvidas pairando sobre a cabeça dos pilotos. Depois de um 2014 bastante parelho, com pilotos dividindo parcelas semelhantes de dias bons e ruins, não dava para apostar em um piloto favorito. Kevin Harvick certamente estaria em um bom momento após o título, mas não parecia apropriado apostar em um piloto que ainda pecava pela inconstância.
 
E a primeira prova da temporada certamente não solucionaria as dúvidas: tratava-se da Daytona 500, prova mais prestigiada do calendário da Nascar. Considerando a natureza da pista – um superspeedway –, dá para dizer que o vencedor precisaria ser agraciado com um pouco de sorte. Poucas coisas são tão fáceis quanto sofrer um acidente neste tipo de corrida.
Kevin Harvick celebra vitória em Phoenix (Foto: Getty Images)
Pois Joey Logano sobreviveu a um big-one nas últimas voltas para vencer a prestigiada prova pela primeira vez. Harvick, segundo, começava a preparar as bases de um ano com resultados ainda melhores do que 2014.
 
Atlanta – agora segunda prova do calendário – foi a primeira pista relativamente normal da temporada. E a prova, primeira de muitas afetadas pela chuva, foi vencida por Jimmie Johnson, outro piloto que precisou segurar Harvick, novamente segundo colocado.
 
Depois de bater na trave duas vezes, Harvick foi ao Victory Lane em Las Vegas após uma prova digna de aplausos. O mesmo foi visto em Phoenix – salão de festas do #4 –, com outra vitória tranquila. Apenas quatro provas haviam se passado e Kevin já era um favorito ao título.
 
Fontana veio em seguida. A briga pela liderança foi monopolizada por Harvick e Kurt Busch – que fazia apenas sua segunda prova no ano, consequência de processos judiciais e uma suspensão da Nascar. A disputa entre a dupla seguiu até as últimas voltas, quando uma bandeira amarela trouxe a prorrogação. Junto dela, uma ameaça: Brad Keselowski, que passou os dois na última volta e partiu para a vitória. Kevin foi segundo.
 
Martinsville trouce uma prova bastante diferente, consequência de suas características únicas. O vencedor foi Denny Hamlin, que chegou a ficar uma volta atrás dos líderes, mas se recuperou no fim. O #11 precisou segurar Keselowski, muito veloz nas ultimas voltas, em uma disputa intensa. Harvick, apesar de liderar o maior número de voltas, perdeu terreno nas últimas voltas e acabou em oitavo. O #4 bateu na trave novamente no Texas, onde Johnson partiu para o segundo triunfo da temporada.
 
II – Mais corridas, mais vencedores
 
Depois de um começo de temporada dominado por poucos pilotos, Bristol marcou uma nova fase do campeonato. Em tal prova, vários pilotos de ponta se envolveram em acidente – Harvick, Keselowski, Logano, e mais alguns – fazendo com que a vitória sobrasse para Matt Kenseth, que sofria bastante com a inconstância.
 
Richmond trouxe mais um vencedor novo: Kurt Busch liderou o maior número de voltas e começou a dar passos seguros rumo a uma temporada sólida. Talladega, no fim de semana seguinte, coroou um especialista em superspeedways: Dale Earnhardt Jr. Note, foram sete vencedores diferentes nas últimas sete provas.
Edwards venceu a primeira na temporada em Charlotte (Foto: Nascar)
A sequência chegou ao fim no Kansas, que recebeu a infame corrida do Bob Esponja. Em mais uma prova interrompida por chuva, Johnson conseguiu o terceiro triunfo no ano. Mas novos vencedores voltaram a ser vistos já na etapa seguinte, a prestigiada Coca-Cola 600, em Charlotte: Carl Edwards obteve o primeiro triunfo em sua equipe nova, a Joe Gibbs. Mais uma semana e Johnson voltou a vencer – desta vez em Dover, pista que não lhe deixaria boas recordações em 2015.
 
Em Pocono, brilhou um dos nomes mais constantes do ano: Martin Truex Jr. O piloto da pequena Furniture Row, que havia conseguido 12 top-10 em 13 oportunidades, finalmente deixou de ser figurante entre os líderes para voltar a vencer na Nascar depois de dois anos. O #78 poderia ter vencido novamente em Michigan, prova seguinte, mas esta ficou com Kurt Busch.
 
III – A volta de Kyle Busch e o domínio da Joe Gibbs
 
A 16ª corrida da temporada seria a primeira em um circuito misto: Sonoma. AJ Allmendinger – especialista em tais praças – até cravou a pole, mas a vitória caiu no colo de alguém tão surpreendente quanto.
 
Kyle Busch, depois de perder 11 corridas por causa de fraturas nas duas pernas, consequência de um acidente em Daytona, voltou às pistas para arquitetar uma das recuperações mais incríveis da história do automobilismo. O #18, apesar de estar apagado nas suas primeiras quatro corridas pós-retorno, entregou uma performance digna de aplausos em Sonoma, superando Johnson na estratégia e seu irmão Kurt na pista.
 
Mas a vitória ainda não era garantia de vaga no Chase. O #18, para ser elegível, precisava aparecer entre os 30 primeiros colocados da classificação, o que só conseguiria se mantivesse a constância dali em diante.
Depois da fratura, Kyle Busch voltou com tudo (Foto: Reprodução/Twitter)
A prova seguinte foi justamente em Daytona, novamente. Lá, Johnson e Dale Jr. brigaram com tudo ao longo da corrida – realizada durante a madrugada por causa da chuva. Apesar da pressão, o #88 cresceu na última relargada e arrancou para a segunda vitória no ano.
 
Mas o que mais chamou atenção na última volta foi o pavoroso acidente de Austin Dillon, catapultado contra as grades de proteção do público. O #3 escapou ileso, provando a segurança dos carros da Nascar.
 
Kyle Busch, depois de uma noite apagada em Daytona, deu show nas três provas seguintes. Vitória em Kentucky, vitória em New Hampshire e vitória em Indianápolis. A sequência de três vitórias seguidas, ainda não alcançada pelo #18, não acontecia desde 2007. O piloto da Joe Gibbs ainda não estava entre os 30 primeiros, mas era evidente que isto aconteceria, cedo ou tarde.
 
Falando em Joe Gibbs, a principal equipe da Toyota se agigantou nesta fase do campeonato. Depois dos três triunfos de Kyle Busch, a equipe conseguiu colocar Kenseth no Victory Lane em Pocono, prova definida depois de uma série de panes secas nas últimas voltas.
Kenseth cresceu e acumulou cinco vitórias em 2015(Foto: AP)
A sequência foi interrompida por Logano, que finalmente voltou ao Victory Lane em Watkins Glen, outra prova definida pelo tanque de combustível. Mas a etapa seguinte, em Michigan, foi outro passeio de Kenseth, que sobrou e venceu a terceira no ano.
 
Logano ainda venceria mais uma, em Bristol, mas era claro que a equipe em melhor fase era a Joe Gibbs. A vitória de Edwards em Charlotte, aliada a outro triunfo de Kenseth em Richmond, trataram de sacramentar isso: os carros #11, #18, #19 e #20 tinham chances de se consolidar como bichos-papões do Chase.
 
A prova de Richmond também definiu os últimos pilotos no Chase. Ao lado de todos que venceram corridas, Jamie McMurray, Ryan Newman, Jeff Gordon – para lá de apagado –, Paul Menard e Clint Bowyer disputariam a taça.
 
IV – Ineficiência do Chase
 
O Chase começou a ser disputado em Chicagoland, primeira da sequência de três provas que cortaria quatro dos 16 candidatos à taça. E, já de cara, outra vitória da Joe Gibbs. Mas essa teve um tom de dramaticidade: Denny Hamlin, depois de rodar na primeira volta, se recuperou e venceu a polêmica prova.
 
Polêmica por causa de Harvick e Johnson. Kevin foi tocado por Johnson e o atual campeão, com pneus avariados, acabou rodando sozinho na sequência, batendo e terminando em 42º. Só uma vitória nas próximas duas corridas salvaria o #4 – que tentou até começar uma briga com o #48, que literalmente deu de costas.
 
Em New Hampshire, outra chance de vitória de Harvick foi jogada no ralo por bobagens. O #4, teimoso, evitou os pits nas últimas voltas, quando era claro que não havia chances de chegar ao final sem uma pane seca. Kevin ficou lento pela pista, se arrastou para conseguir o 21º lugar e entregou o primeiro lugar para Matt Kenseth.
Harvick entregou uma performance digna de aplausos em Dover (Foto: AP)
Harvick, apesar de um campeonato perto da perfeição, chegou em Dover com risco altíssimo de ser eliminado – culpa do ineficiente sistema do Chase. Apesar da pressão, o #4 entregou uma corrida avassaladora, voltou a vencer e se afirmou na fase seguinte. Ao fim da disputa, McMurray, Johnson – surpresa negativa, vítima de problemas mecânicos – Menard e Bowyer se despediram.
 
Na fase seguinte, a boa fase da Joe Gibbs passou para as mãos de Joey Logano. O piloto de Penske já começou vencendo em Charlotte, em uma prova dominadora.
 
Em Kansas, quem dominou foi Kenseth – mas a polêmica voltou a dar as caras. Matt vinha liderando, mas Logano comeu toda a vantagem nas últimas voltas. O #20 começou a pilotar com mais agressividade, fechando todas as portas possíveis. Impaciente, Joey não evitou um toque, que rodou o adversário e lhe garantiu a vitória. O #22 ainda não sabia, mas essa corrida seria marcante para seu campeonato.
 
A terceira prova foi em Talladega, último superspeedway do calendário. E, adivinhe, mais controvérsia. Na última relargada, Harvick já apresentava problemas mecânicos que o impediam de ganhar velocidade rapidamente. 
Logano venceu com autoridade em Charlotte (Foto: Nascar)
Kevin, consciente de que uma grande perda de posições acabaria com seu campeonato, deu um leve toque em Trevor Bayne quando a bandeira verde foi agitada. Isso desencadeou um big-one e, obrigatoriamente uma amarela que congelou as posições e deu a vaga para Harvick. Na briga pela vitória, entre Logano e Dale Jr. – este último precisando obrigatoriamente do primeiro lugar – a conquista caiu no colo de Joey, beneficiado pelo congelamento das ações.
 
A combinação de patacoadas significou a eliminação de Kenseth, Dale Jr., Hamlin e Newman. Todos, de um jeito ou de outro, falharam em um quesito crucial do Chase: regularidade.
 
V – Renascimento de Gordon e os rumos da decisão
 
Note que Gordon, até aqui, vinha apagadíssimo, quase nunca brigando por vitórias. Mas isso mudou justamente na hora mais importante: a última eliminatória do Chase. E haveria palco melhor para voltar a vencer do que Martinsville, onde o #24 é o piloto com mais vitórias?
 
Mas Jeff precisou contar com uma mão amiga para vencer. Logano, então líder da prova, foi abalroado por um irritado Kenseth, retardatário, já sem nada para fazer no campeonato e com vontade de dar o troco pelo Kansas. O incidente proposital acabou com a prova dos dois e entregou a liderança para Gordon. Aí, o #24 só precisou segurar um veloz McMurray nas últimas voltas para voltar a vencer naquela que seria sua última temporada na Sprint Cup.
Gordon renasceu em Martinsville (Foto: Getty Images)
Enquanto Gordon partia para uma de suas comemorações mais extravagantes de sua carreira, a Nascar discutia uma punição para Kenseth. Depois de algum suspense, a entidade suspensou o #20 por duas provas por causa de atitudes antidesportivas. Mas o estrago – novamente, consequência do falho sistema do Chase – já estava feito: Logano estava em posição muito difícil no campeonato.
 
No Texas, a falta de sorte de Joey seguia. Logo nas primeiras voltas, um pneu furado no #22 comprometeu a traseira do carro e acabou com qualquer chance de vitória. Esta, aliás, estava perto de ficar com Keselowski, que dominou a prova inteira. Mas Johnson bancou o estraga-prazeres e, nas últimas cinco voltas, partiu para um ataque certeiro contra Brad, vencendo a quinta no ano e evitando que o rival se classificasse para a decisão.
O polêmico lance entre Logano e Kenseth (Foto: Getty Images)
Phoenix marcaria a penúltima prova da temporada, e contava com diversos pilotos em posição difícil. Edwards, Keselowski, Logano, Kurt Busch... todos pilotos que só avançariam para a final com uma vitória. A corrida foi curta, atormentada pela chuva. Beneficiado pela estratégia, Dale Jr. brilhou e voltou a vencer.
 
Passadas 35 corridas, os finalistas eram estes: Gordon, Kyle Busch, Harvick e Truex Jr.
 
VI – Sob o pôr do sol de Miami
 
A última prova do campeonato não só decidiria o campeão, como também marcaria o adeus de Gordon. Por isso, não é surpresa que o tetracampeão tenha sido o centro das atenções em Homestead-Miami, palco da finaleira.
 
Mas o #24 não poderia ser considerado um favorito. Harvick e Kyle Busch, por exemplo, conseguiram resultados melhores. Até Truex Jr., beneficiado pela regularidade, poderia surpreender. As peculiaridades do traça da Flórida, único no calendário, também dificultavam previsões.
 
Harvick e Kyle Busch batalhavam pela primeira posição entre os candidatos ao título desde o começo. Gordon até ensaiou um gracejo, fazendo uma relargada fenomenal e tomando a ponta em uma relargada. Mas foi isso: o #24 foi perdendo terreno, se distanciando em definitivo da briga pela liderança. Truex Jr., então, estava ainda pior. O #78 sofreu muito com dirigibilidade, só chamando atenção quando seu carro quase pegou fogo nos boxes. 
Kyle Busch conseguiu um improvável título da Nascar (Foto: Getty Images)
No top-5, Kyle Busch se consolidou à frente de Harvick, que acompanhava o rival com certa proximidade. A liderança, todavia, era de Keselowski, que voltou a pintar como um forte candidato à vitória.
 
Nas últimas voltas, Kyle já se contentava com o top-5, mais do que suficiente para ser campeão. Mas a situação ficou ainda melhor: o #18 se beneficiou de uma bandeira amarela nas últimas voltas, que embaralhou tudo e jogou Kyle Busch para a liderança, com Harvick em segundo.
 
As posições, daí em diante, não se alteraram mais. Kyle Busch pôde soltar o grito de campeão. Mesmo com a perna quebrada. Mesmo sem correr em 11 corridas. A história do #18 é, acima de tudo, uma história de superação.