Como Can-Am tornou-se sinônimo de excelência com domínio no Sertões e no Dakar

Tetracampeã do Dakar, o maior e mais prestigiado rali do planeta, e dona de nada menos que oito títulos do Rali dos Sertões, a principal competição off-road das Américas, a Can-Am é referência mundial no esporte a motor. A marca canadense alcançou o sucesso dominando o mercado dos UTVs, forja campeões e atrai grandes nomes, entre eles um ex-piloto de Fórmula 1

Construir um legado de excelência e vitórias no competitivo esporte a motor é objetivo de praticamente todas as marcas que se propõem a fazer parte do jogo, mas poucas conseguem alcançar tamanho êxito como a Can-Am no universo off-road. Protagonista daquela que é hoje a grande coqueluche entre os competidores de rali ao redor do mundo, a categoria UTV (Utility Task Vehicle, ou Veículo Utilitário Multitarefas, em tradução livre), a marca canadense domina a categoria e detém os últimos quatro títulos consecutivos do maior rali do planeta, o Dakar. A Can-Am também ostenta nada menos que oito títulos seguidos no Rali dos Sertões, a principal competição das Américas e que é realizada no Brasil.

Mas como é possível alcançar tamanho êxito e ser a marca preferida de pilotos e navegadores, a ponto até de atrair grandes nomes, entre eles o ex-piloto de Fórmula 1 Nelsinho Piquet?

Nada, no esporte ou na vida, acontece por acaso. Para chegar ao sucesso, é preciso tempo, trabalho e muito desenvolvimento. Há, como grandes exemplos, marcas que fizeram e fazem sucesso no esporte a motor, como a Volkswagen nos seus anos de ouro no Dakar, ou mesmo a Mercedes atualmente na Fórmula 1. Todas precisaram de longos anos até alcançar um patamar de competitividade inatingível para as suas concorrentes. O mesmo acontece com a Can-Am no rali.

NELSINHO PIQUET; UTV; SERTÕES;
Nelsinho Piquet acelerou o UTV da Can-Am no Rali dos Sertões 2020 (Foto: José Mário Dias)

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O conceito dos UTVs, como mencionado acima, deriva dos veículos utilitários, grande origem da Can-Am. Uma história iniciada em 1937, quando Joseph-Armand Bombardier construiu o primeiro veículo de neve com esteira no mundo, o snowmobile batizado como B7. A marca canadense se consolidou no mercado de utilitários e passou a desenvolver veículos de caráter mais recreativo, como quadriciclos. Dessa divisão, nasceu a Bombardier Recreational Products, ou BRP, e dela faz parte a marca Can-Am.

O UTV de competição ganhou adaptações de segurança para virar um veículo capaz de participar de provas off-road. A gaiola, que dá ao automóvel um aspecto bastante particular em relação às outras modalidades que integram o rali, é uma grande marca dos UTVs, que muitos consideram um meio-termo entre carros e quadriciclos. O bólido, que em boa parte do mundo também é chamado de SXS ou de by Side (Lado a Lado, em tradução literal), dá a opção de ser tripulado ou não por um navegador além, obviamente, do piloto.

Há uma curiosidade quanto aos UTVs no Brasil em relação ao que acontece internacionalmente. Por aqui, a competição faz parte do guarda-chuva da Confederação Brasileira de Motociclismo, enquanto nas competições de caráter mundial os SXS a chancela cabe à FIA (Federação Internacional de Automobilismo.

Mas para que a Can-Am alcançasse o patamar que detém atualmente, foram anos de intenso desenvolvimento, desde quando os UTVs representavam uma subcategoria dentro da competição de carros no Dakar. Os primeiros registros de veículos da marca inscritos na prova são de 2011.Depois de um breve hiato, a Can-Am voltou ao grid do maior rali do mundo em 2018 e se consolidou como a principal força da divisão, enfileirando uma sequência de quatro títulos.

Reinaldo Varela, 61 anos, um dos maiores nomes da história do rali no Brasil, foi um dos primeiros competidores a representar a Can-Am no Dakar. Como maior exemplo de uma trajetória que se converteu em história anos mais tarde com o título nos UTVs ao lado de Gustavo Gugelmin, o paulista, tricampeão mundial de rali cross-country e bicampeão do Sertões, disputou a maior prova off-road do mundo em 2013 com um UTV em jornada solo, sendo responsável pela pilotagem e também pela navegação. Um grande feito.

Octacampeonato e presença ilustre no Rali dos Sertões

No Rali dos Sertões, aqui no Brasil, os UTVs começaram a integrar a prova como uma das categorias principais em 2012, ainda que em caráter experimental naquele ano. A partir de 2013, a Can-Am construiu uma história de enorme sucesso na competição e venceu consecutivamente todas as oito edições do Sertões.

Carlo Collet e Marcos Gouvêa triunfaram em 2013, enquanto Vinícius Mota e Rafael Shimuk venceram no ano seguinte. Bruno Sperancini, que em 2012 foi o primeiro piloto a levar o título dos UTVs no Sertões ao lado do navegador Thiago Vargas, venceu a prova de novo, desta vez tendo como parceiro Lourival Roldan em 2015, repetindo a conquista em 2016, ao lado de Breno Rezende. Bruno Varela, um dos filhos de Reinaldo Varela, foi campeão tendo João Arena como navegador em 2017, enquanto Enrico Amarante, novamente com Breno Rezende, ficou com a taça em 2018. Denísio Nascimento e Idali Bosse levaram o título em 2019, enquanto no ano passado Denísio Casarini e Ivo Mayer foram campeões. Todos representando a Can-Am.

DENÍSIO CASARINI; IVO MAYER; SERTÕES 2020;
Denísio Casarini e Ivo Mayer foram campeões do Rali dos Sertões em 2020 (Foto: Marcelo Maragni)

Para se ter uma ideia do que representa a categoria UTV no rali hoje, 55 veículos estiveram inscritos no Sertões de 2020, sendo parte muito considerável de um grid que teve também 61 motos, 30 carros e um quadriciclo.

Dentre os inscritos no último Sertões nos UTVs estava Nelsinho Piquet, que competiu a convite da Can-Am. Filho do tricampeão mundial de Fórmula 1, Nelson Piquet, Nelsinho teve sua passagem pela categoria correndo pela Renault na principal categoria do esporte a motor, foi o primeiro campeão da Fórmula E, desbravou horizontes como a Nascar e o Rallycross, e nos últimos anos, marca presença no grid da Stock Car. No Sertões, Nelsinho disputou parte da prova e até venceu na categoria da qual estava inscrito a bordo do Maverick Can-Am #270.

“É uma prova maravilhosa, que todo piloto deveria fazer. Meu muito obrigado à Can-Am e a todos que me apoiaram nesta competição e neste projeto. Correr um rali é um desafio enorme, respirando, dormindo e comendo carro de corrida e poeira há uma semana, e não há melhor sensação do que essa. Não foi fácil, mas é a típica corrida raiz que eu gosto de competir. Sem dúvida eu gostaria muito de voltar a disputar a prova no ano que vem”, destacou Piquet Jr. em novembro do ano passado.

A jornada laureada da Can-Am no Dakar

O primeiro ano dos UTVs como categoria oficial do Dakar foi em 2017, quando a prova foi realizada entre Argentina, Paraguai e Bolívia. Foi um ano histórico para o Brasil porque marcou a primeira conquista absoluta do país no maior rali do mundo. Leandro Torres e Lourival Roldan ficaram com o cobiçado título de uma prova que contou com oito duplas inscritas na categoria. Neste ano, a Can-Am não participou (foram cinco UTVs Polaris inscritos e três Yamaha).

A partir da temporada seguinte, o domínio foi todo da Can-Am, que entrou na competição dos UTVs com direito a equipe oficial e colocou três veículos dentre os 11 inscritos na competição, iniciada em Lima, no Peru, com passagem na Bolívia e concluída em Córdoba, na Argentina. Reinaldo Varela e Gustavo Gugelmin fizeram história e conquistaram um título único nas suas respectivas carreiras.

Em 2019, com o Dakar todo realizado no Peru, houve grande crescimento no grid dos UTVs, com 30 tripulações inscritas. Foi nesta temporada, a última da competição em solo sul-americano, que a Can-Am ganhou de vez o protagonismo na prova, com 24 veículos na disputa. O chileno Francisco ‘Chaleco’ López, oriundo da competição das motos, faturou o Dakar pela primeira vez, tendo como navegador o conterrâneo Álvaro León Quintanilla. Varela e Gugelmin terminaram em terceiro.

FRANCISCO CHALECO LÓPEZ; DAKAR; CAN-AM- UTV;
Francisco ‘Chaleco’ López Contardo chegou ao bicampeonato do Dakar nos UTVs (Foto: MCH Photo)

No primeiro Dakar disputado na Arábia Saudita, em 2020, foram 46 UTVs inscritos, mesmo número de caminhões. E o nível de excelência e confiabilidade alcançado pela Can-Am nesta edição foi notável: dos 31 veículos que terminaram a disputa e chegaram à zona de meta, 29 foram da marca canadense. O título ficou com a dupla norte-americana formada por Casey Currie e Sean Berriman.

Em janeiro deste ano, a junção entre os protótipos leves, T3, e os UTVs, denominados pela organização como T4, fez com que a categoria reunisse um total de 57 veículos, dentre os quais 35 foram da Can-Am. E foram duas vitórias nas respectivas classes: nos T3, os tchecos Josef Machácek e Pavel Vyoral conquistaram a taça com o modelo DV 21, enquanto Francisco ‘Chaleco’ López Contardo triunfou, ao lado do também chileno Juan Pablo Vinagre, com um Can-Am XRS na subclasse T4 e nos UTVs de forma geral.

Como Reinaldo Varela levou Can-Am de volta ao Dakar e foi campeão

Dono de um retrospecto invejável no esporte a motor, Reinaldo Varela sagrou-se tricampeão mundial de rali cross-country, foi bicampeão do Sertões, octacampeão brasileiro de rali, construiu uma equipe própria, a Varela Can-Am Monster Energy, e é o patriarca da chamada “Família da Poeira”. Reinaldo tem na esposa, Nani, uma parceira fundamental na família que conta também com os filhos e também competidores campeões Rodrigo, Bruno e Gabriel Varela, todos donos de títulos expressivos no cross-country.

Reinaldo coroou uma trajetória incrível nas trilhas ao redor do mundo com aquele que define como o título mais importante da sua carreira: a conquista do Rali Dakar, em 2018, tendo ao seu lado o navegador catarinense Gustavo Gugelmin, parceiro de tantas provas e vitórias no Brasil e também no exterior. Varela deu o pontapé inicial para o grande domínio da Can-Am no Dakar. E tudo começou com uma breve conversa, de apenas sete minutos.

Ao lado de Gustavo Gugelmin, Reinaldo Varela chegou ao Olimpo do Dakar em 2018 (Foto: Vinícius Branca/Fotop)

“Eu me sinto muito lisonjeado por tudo o que a Can-Am tem feito porque eu vendi essa ideia ao presidente da Can-Am em uma reunião, em pé, de sete minutos, durante o lançamento de um UTV em Miami. Com poucas palavras, [sendo] bem objetivo, consegui convencê-lo a entrar no Dakar”, contou o campeão em entrevista ao GRANDE PRÊMIO.

“Apresentei uma ideia, na qual eu estava participando junto, financeiramente, para ajudar a desenvolver e ajudar a ir para o Dakar, e ele abraçou a ideia. Então, é um projeto que fizemos juntos. Deu certo, e está aí o resultado, com diversas conquistas, com vários pilotos entrando e gostando, então é uma satisfação muito grande poder fazer isso pelo esporte”, comemorou.

Na visão do paulistano, os UTVs têm cada vez mais adeptos porque conseguem unir o universo das motos e também dos carros. No Dakar, por exemplo, nomes como Francisco ‘Chaleco’ López e Gerrard Farrés Guell, são oriundos das duas rodas, enquanto pilotos como o próprio Varela e mesmo Cristian Baumgart, que competiu na categoria em 2019, têm sua origem no rali na competição dos carros.

“Os UTVs pegaram um público dos carros. Quem pilota um carro e pilota um Can-Am tem um prazer muito grande porque [o veículo] alia a segurança dos carros à sensação de pilotagem de uma moto, com o vento, com o barro. Os UTVs conseguiram aliar os dois mundos. Quem não consegue andar por mais tempo de moto — chega uma determinada época da sua vida em que não dá mais, há sempre o risco de cair, se machucar —, vai para o UTV, vai para o Can-Am, e com o mesmo prazer das motos”, exemplificou.

Varela entende que a Can-Am consegue obter tamanho sucesso nas competições porque “apresenta um produto de durabilidade e confiabilidade para quem está vindo correr”.

“Os números são muito grandes. No nosso primeiro Dakar nos UTVs eram poucos carros, depois foi para mais de 20, em seguida mais de 30 e, neste ano, 57. Por conta da confiabilidade, da durabilidade, muita gente começou a procurar os UTVs. E a Can-Am tem parcela enorme nisso porque foi ela quem se dispôs a fazer esse trabalho bem feito. Por ter largado bem à frente das outras”.

Com incontáveis vitórias em especiais, oito títulos no Rali dos Sertões e tetracampeã do Dakar, a Can-Am mostrou como é possível alcançar o tão almejado nível de excelência e dominância que faz dela uma das marcas mais vitoriosas no cenário do rali mundial.

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