Rali

Dakar vê quadriciclo fora do regulamento e veta participação. Piloto boliviano acusa “discriminação”

A organização do Rali Dakar barrou a participação do quadriciclo de Juan Carlos Salvatierra na edição 2019, já que o boliviano contaria com um veículo que não cumpre o regulamento da prova. O piloto, no entanto, comprou de Kees Koolen um protótipo que já participou de duas edições e fala em “discriminação”
Warm Up / JULIANA TESSER, de São Paulo
O Rali Dakar ainda nem começou, mas já registra sua primeira confusão. O boliviano Juan Carlos Salvatierra teve sua participação vetada pela organização por contar com um quadriciclo que não cumpre o regulamento, mas acusa da ASO, empresa que promove a disputa, de “discriminação”, uma vez que o veículo já esteve na prova com Kees Koolen.
 
Com oito participações no Dakar no currículo ― todas em moto ―, Salvatierra foi comunicado na sexta-feira (5) que não poderia iniciar a prova em Lima, no Peru, já que o quadriciclo com que se inscreveu não cumpre o regulamento.
 
Salvatierra comprou o quadriciclo Barren Racer One 690 de Kees Koolen, se inscreveu na prova e recebeu a documentação referente à sua aprovação assinada por Etienne Lavigne, diretor-geral do Dakar. No entanto, no dia 12 de outubro, a organização informou Juan Carlos de que ele deveria substituir o veículo, já que o quad não é produzido em série, como determina o regulamento.
Juan Carlos Salvatierra (Foto: Reprodução)
Entretanto, o Barren Racer One 690 disputou as provas de 2017 e 2018 com Koolen, que garantiu aos organizadores ao longo dos últimos dois anos que o protótipo entraria em produção “em um curto período de tempo”. Mas isso não aconteceu.
 
Em sua conta no Twitter, Salvatierra falou em “discriminação” ao comentar o veto à sua participação.
 
“Me sinto discriminado pela organização do Dakar”, escreveu Salvatierra. “Brincam com o meu país e comigo”, seguiu.
 
“Eles pedem que eu troque de quad, mas eles confirmaram a minha inscrição e a do veículo há meses, ratificando que cumpre o regulamento. O quad já participou de dois Dakar anteriores com um piloto europeu”, completou Juan Carlos, ilustrando o post com documentos relacionados à sua inscrição na disputa.
 
Também pelas redes sociais, Salvatierra pediu ajuda às autoridades do Peru, país que sediará todas as etapas da competição.
 
“Peço ajuda às autoridades peruanas ante essa discriminação e abuso contra mim. Hoje é contra mim, amanhã pode ser contra qualquer outro competidor”, alertou.
 
Procurada pelo GRANDE PRÊMIO, a assessoria de imprensa em Salvatierra reforçou que a inscrição feita pelo boliviano em julho do ano passado já mostrava a intenção de participar com o Barren Racer One. 
 
“Chavo Salvatierra se inscreveu no Dakar 2019 em julho de 2018. Quando o fez, ele enviou todas as informações do veículo. Ele até mesmo recebeu o ‘Atestado de Participação no Dakar 2019’ semanas demais. O documento estava assinado por Etienne Lavigne”, disse a assessoria do piloto. 
 
Questionada pelo GP se houve alguma tentativa de acordo após a primeira manifestação da organização de que o veículo não seria aceito, os representantes de Salvatierra lembraram que o boliviano chegou a disputar competições chanceladas pela FIM (Federação Internacional de Motociclismo) com o quad e não teve nenhum problema.
 
“A primeira notificação em relação a este problema aconteceu em 19 de novembro. Foi “uma recomendação” para participar com outro veículo”, explicou. “Foi óbvio que eles o fizeram porque um grupo de pilotos ficou temeroso após a performance de Chavo no ‘Desafio Inca’, no Peru (em setembro). Era uma competição da Dakar Series que Chavo venceu com o Barren Racer One. Ele até mesmo recebeu o titulo de quadriciclos da América Latina pela FIM”, seguiu.
 
“Nunca houve uma comunicação oficial em relação a este problema dizendo o motivo de o Barren Racer One não poder participar. Até mesmo agora, não temos um comunicado formal por escrito explicando e amparando o ponto de vista da ASO”, contou. “Além do mais, a maior questão em relação a isso é o motivo de a ASO permitir a participação de um piloto com o Barren em 2017 e 2018 e não deixar Chavo participar do Dakar em 2019. É preciso levar em conta que o regulamento da FIM não mudou e que este veículo participou do Dakar e do Mundial com o atual regulamento da FIM. Não é possível que a ASO queira estar acima do regulamento da FIM e também parece que eles não respeitam seus próprios procedimentos (registro, atestado de participação e etc.)”, disparou.
Juan Carlos Salvatierra divulgou documento com inscrição para o Dakar (Foto: Reprodução)
Perguntada pelo GRANDE PRÊMIO sobre o próximo passo, a assessoria confirmou que Salvatierra recorreu à justiça do Peru.
 
“Ontem nós entramos com uma ação contra a ASO por discriminação na Justiça Peruana. Nós respeitamos todos os procedimentos e regulamentos e gostaríamos de receber o mesmo tratamento de uma organização que é conhecida mundialmente. Seria um precedente ruim para a história do esporte permitir que a ASO atue de uma maneira com um piloto e aí agir diferente com outro”, completou.
 
Procurada pelo GRANDE PRÊMIO, a assessoria de imprensa do Dakar ressaltou que Salvatierra é bem-vindo na disputa, mas deve participar com um quadriciclo que seja produzido em larga escala.
 
“A inscrição dele foi aceita, mas ele foi avisado de que o Barren Racer One não seria aceito, porque não é um quad produzido em série como os outros. Ele é mais do que bem-vindo, porque é um piloto muito importante para o Dakar, mas, desde que ele confirmou a participação, a organização avisou que ele poderia fazê-lo, mas com outro quad”, disse um porta-voz da competição.
 
Questionada sobre o momento em que Salvatierra foi informado que o Barren Racer One não seria aceito, a assessoria do Dakar respondeu: “Desde de 12 de outubro, quando ele confirmou sua inscrição”.
 
Ainda, a assessoria do Dakar explicou que Kees Koolen foi autorizado a participar das disputas de 2017 e 2018 com o protótipo, pois tinha informado que o quad entraria em produção em breve.
 
“A participação de Kees Koolen com o Barren Racer One foi aceira nos anos anteriores, porque ele disse para a organização que haveria uma produção em série. Mas, para esta edição, assim como Salvatierrra, ele foi avisado de que o quad não seria aceito, por conta de regulamentações suplementares e foi por isso que ele decidiu não participar em outubro”. 
 
Por fim, ao ser questionado sobre a ação movida na justiça por Salvatierra, o porta-voz do Dakar reiterou que o piloto é bem-vindo, mas precisa de um quad produzido em larga escala.
 
“Chavo Salvatierra mostrou ao mundo o ótimo piloto que é e é um amigo do Dakar. A única coisa que a organização fez foi seguir o regulamento da corrida. O quad dele não é um veículo produzido em série que pode ser acessível para todos”, completou.