Lendas do Rali dos Sertões: Guilherme Spinelli

Maior vencedor da história do Rali dos Sertões nos carros, Guilherme Spinelli é o sexto entrevistado da série que o Grande Prêmio e a Revista WARM UP preparou antes do início da 20ª edição de uma das maiores provas cross-country do planeta

Em quase duas décadas de Rali dos Sertões, ninguém jamais conquistou tantos títulos correndo na categoria Carros como Guilherme Spinelli. Carioca que vai chegar aos 40 anos em outubro, ‘Guiga’, como é conhecido, tem uma trajetória bastante peculiar: foi bicampeão em 2003 e 2004, tendo ao seu lado o navegador Marcelo Vivolo, sempre correndo com Mitsubishi. Spinelli seguiu sua trajetória na prova até 2007. Depois de dois anos de pausa — época que a Volkswagen dominou com o Race Touareg com Giniel de Villiers e Carlos Sainz, em 2008 e 2009, respectivamente, o carioca voltou ao Sertões com novo navegador: Youssef Haddad. A parceria rendeu bons frutos, como mais um bicampeonato para ‘Guiga’, que se tornou o maior vencedor da história das provas nos carros, se consolidando como uma lenda do Sertões.

Para manter a hegemonia da competição, Spinelli e Haddad vão contar, mais uma vez, com o potente Mitsubishi Lancer na luta pelo penta. Contudo, o duo oficial da montadora terá uma duríssima concorrência para conquistar mais um título: ninguém menos que o decacampeão do Dakar, Stéphane Peterhansel, que disputará a prova pela primeira vez, com Mini, e certamente já desponta como um dos postulantes à taça. Outro forte candidato à vitória é Riamburgo Ximenes, campeão de 1999 e que será companheiro de equipe do experientíssimo francês na X-Raid, vai correr com BMW X3 CC a partir de agosto.

Peterhansel é grande amigo de Spinelli. Três dos quatro títulos do francês do Dakar nos carros — os outros seis foram conquistados nas motos, sempre pela Yamaha — foram obtidos com a Mitsubishi, montadora que foi crucial para que Guilherme se tornasse um dos principais nomes do rali cross-country do Brasil ao longo dos últimos dez anos. Foi por meio dos japoneses que Spinelli começou sua carreira no Rali dos Sertões, e depois, no Dakar. É com muito carinho e gratidão que o piloto fala da relação com a Mitsubishi ao recordar seu início de carreira no Sertões, ainda no milênio passado.

Em meio ao novo projeto do circuito Velo Città, em Mogi Guaçu, a preparação para seu 12º Rali dos Sertões, Spinelli, que também é diretor-técnico da Mitsubishi Cup, uma das principais categorias de rali de velocidade do Brasil, conversou com a reportagem da WARM UP e relembrou alguns dos momentos mais marcantes da sua carreira faltando poucos dias para a largada em São Luís, no Maranhão. Na entrevista, feita por telefone, o carioca recordou como começou a sua jornada que o fez, anos mais tarde, um dos principais pilotos do cross-country nacional.

A seguir, a entrevista com Guilherme Spinelli, parte do especial 'Lendas do Rali dos Sertões', da WARM UP 28.

Grande Prêmio: Nessa sua trajetória no Rali dos Sertões, você conquistou quatro títulos, sempre pela Mitsubishi. Mas como foi que tudo começou?

Guilherme Spinelli. O primeiro ano que eu fiz [o Sertões] foi em 1999 e foi a convite da Mitsubishi. Ainda não era piloto oficial da marca. A Mitsubishi ainda não tinha nenhum piloto oficial, mas já apoiava alguns pilotos. Em 1997 eu venci o Campeonato Brasileiro de Rali de Velocidade com um carro da Mitsubishi, um Mitsubishi Colt, e aí eu comecei a estreitar o relacionamento com a montadora. E aí, em 1999, eles optaram por dois carros oficiais da marca no grid. E aí me convidaram para estrear com uma L200. Foi esse o início da minha carreira, não só no Sertões, mas também na Mitsubishi.

Tetra do Rali dos Sertões, Spinelli venceu ao lado dos navegadores Marcelo Vivolo e Youssef Haddad (Foto: Guilherme Spinelli/Facebook)

GP: E em todo esse tempo que você disputa o Rali dos Sertões, certamente muita coisa mudou, não?

GS: Foi muito evidente para mim. Em um primeiro momento, quando comecei a fazer o Rali dos Sertões, em 1999. Até porque antes eu só fazia rali de velocidade, de carro, que é muito mais tradicional e mais antigo que a modalidade cross-country, tanto no Brasil quanto no mundo, e eu vinha com um padrão de organização e exigência técnica, e era um nível muito bom. E no meu primeiro ano no Sertões, em 1999, me deparei com algo como o macacão, que nem era obrigatório para os pilotos usarem.

O rali tinha uma deficiência muito grande na questão mais básica de organização, de cronometragem. Dificilmente havia informação oficial de resultado do dia e do acumulado, então era ainda um evento muito amador, tanto na parte da organização, quanto das equipes e equipamento. E no decorrer desses anos todos, ano após ano, foi muito evidente a evolução de todos esses pontos; cada vez mais as equipes foram buscando melhorar os carros; os pilotos cada vez foram treinando mais para se preparar para uma prova como o Sertões; a organização também veio em uma evolução constante. E hoje eu posso te dizer que o Sertões está em um padrão top do mundo.

Depois desses anos todos eu tive a oportunidade de correr provas pelo mundo a fora pelo campeonato mundial, o Dakar, por quatro vezes, e posso afirmar que o Sertões é um evento que, em termos de organizações, termos técnicos, de exigência e dificuldades para os competidores, um evento top do mundo. E os equipamentos e carros brasileiros também estão em um nível top no mundo. É muito bacana olhar para trás e ver o quanto tudo se aperfeiçoou e o quanto nós temos de capacidade para competir com pilotos e equipes e receber os estrangeiros em um evento no Brasil.

GP: Quais foram seus momentos mais marcantes nessa sua história vencedora no Rali dos Sertões?

GS: Meu primeiro título, em 2003, veio no meu quinto ano no Sertões. Bati na trave por dois anos seguidos, em 2000 e 2001, ficando em segundo na classificação geral. No quarto ano a gente não conseguiu completar, e no quinto ano eu venci. O mais bacana nesse rali é que foi o primeiro que eu cheguei me sentindo pronto para vencer. Considerava que a gente tinha uma equipe muito bem preparada, e a partir de 2000 começamos a correr com uma equipe oficial da Mitsubishi, e em 2003, na minha quinta participação, eu larguei no rali me achando totalmente pronto para vencer. Achava que tinha uma boa experiência como piloto, achava que a L200 Evolution era bastante competitiva, e estava muito seguro. No segundo dia de prova, acabei cometendo um erro, eu, pessoalmente, como piloto, e capotamos na saída de um rio e ficamos um tempo o carro capotado com as rodas para cima. Foi um momento de frustração muito grande, imaginei que estava me afastando muito da possibilidade de vencer, terminei aquele dia em último na geral do rali. E dali para frente, fui fazendo um rali mais preocupado em ter um bom desempenho no dia a dia, esquecendo do resultado final, e faltando dois ou três dias para o fim do rali, acabei assumindo a ponta e consegui vencer. Acho que o mais marcante nessa edição foi que, no segundo dia estava completamente derrotado, e no fim da contas, mesmo tendo cometido o erro, consegui voltar à disputa e venci o rali.

Em 2010 eu voltei a competir depois de dois anos parado, sem participar do Rali dos Sertões, e com o Youssef. Corremos com uma Triton SR movida a etanol, um carro novo, um carro construído há pouco tempo. A expectativa era de um carro que seria desenvolvido e que teria de receber vários ajustes durante a prova. Isso aconteceu nos primeiros dias. Viemos corrigindo isso nesses três primeiros dias e, a partir do quarto, ele já estava mais competitivo, seguro, e aí vencendo com uma certa folga. Foi a primeira vez que um carro movido a etanol venceu um rali internacional. Foi um marco ter vencido a prova daquela forma.

Todos os quatro anos tiveram uma situação especial, diferente, que tornou a nossa história de resultados nos ralis mais interessante para nós. Sempre teve uma situação diferente que pudemos viver.

GP: E nesse seu desafio de lutar pelo pentacampeonato, quais são seus maiores adversários?

GS: O Riamburgo vai ser um fortíssimo adversário, mais experiente que o Palmeirinha, tem mais bagagem em rali longo e tem mais resultados expressivos no Sertões. Trata-se de um piloto consistente não só no sentido de fazer um rali longo com precisão, mas também sabe fazer um rali agressivo. Então ele será um fortíssimo concorrente e vai exigir mais da gente do que nos anos anteriores. Mas não vou me surpreender nem um pouco com outros concorrentes como Reinaldo Varela ou João Franciosi, que vêm com Triton SR. O nível dos pilotos com carros brasileiros vem evoluindo muito, e esse ano acho que, além de os carros serem rápidos, mais que nos anos anteriores, eles estão muito mais confiáveis. Então acho que a gente vai ter uma disputa intensa pelos primeiros lugares. Então acho que umas cinco ou seis duplas vão chegar lá no fim e vão disputar o título deste ano.

A entrevista foi feita dias antes da confirmação de Stéphane Peterhansel na lista de inscritos do Rali dos Sertões 2012. O lendário piloto, dez vezes campeão do Dakar, vai disputar a prova no Norte-Nordeste brasileiro com um Mini da equipe X-Raid. Ao saber que o mito do Dakar será seu adversário no Sertões, Spinelli disse que “não existe melhor maneira do Sertões comemorar seus 20 anos, colocando o maior piloto de todos os tempos no grid”.

Spinelli terá de lutar contra o lendário Peterhansel para conquistar o penta do Sertões (Foto: Divulgação)

GP: Falando sobre esse novo percurso do Rali dos Sertões, qual sua opinião?

GS: Acho que o fato de o rali neste ano se concentrar no Norte-Nordeste vai permitir à organização mais estradas de areia, então o fato de o percurso ter mais areia é muito mais exigente para o carro e para a própria dupla. Acho também que o fato de eles terem feito duas etapas Maratona vai dificultar bastante o rali, vai torná-lo mais difícil, o pessoal vai ficar mais vulnerável a problemas que tomem muito tempo, e também acho que eles conseguiram um nível técnico de exigência nas especiais bastante alto, até pelo fato de ser uma edição comemorativa, eles vão buscar um alto índice de competitividade para que o rali fique marcado na história. Gostei do roteiro, acho que vai ser bem exigente, e, sem dúvida nenhuma, a gente ainda vai encontrar algumas surpresas ao longo da prova.

GP: E por fim, gostaria que você opinasse sobre o atual estágio do rali cross-country aqui no Brasil.

GS: Acho que o rali cross-country está em um nível muito bom, não só ao Rali dos Sertões, mas a evolução das equipes e dos equipamentos; a gente tem duplas, pilotos e navegadores de altíssimo nível no Brasil, e a gente tem potencial para disputar qualquer prova e com qualquer um. O que falta é mais investimento e patrocínio, não só para as equipes, mas também uma junção maior de tudo o que envolve o esporte, desde a CBA com os promotores e com as próprias equipes e pilotos, para que a gente busque alternativas de aumentar a exposição na mídia, aumentar captação de patrocínio, poder fazer uso dessa experiência no Brasil como organizador de evento, fazer tudo isso de uma forma mais abrangente. No fim das contas, o que falta é o de sempre: mais investimento e mais divulgação. Uma coisa puxa a outra, então é meio difícil ver o que vem primeiro. É uma realidade natural dos esportes brasileiros como um todo.

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