Lendas do Rali dos Sertões: Klever Kolberg

Mais da metade dos 50 anos de Klever Kolberg foram dedicados ao rali cross-country. Pioneiro do Brasil no Rali Dakar, o gaúcho, bicampeão do Rali dos Sertões, em 1997 e 1998, é o segundo entrevistado do especial ‘Lendas do Rali dos Sertões’ faltando poucos dias para a largada da 20ª edição, em São Luís

A história de Klever Kolberg no rali nacional é composta de pioneirismo, vitórias, títulos e a paixão pela inovação. Natural de Porto Alegre, o piloto, hoje com 50 anos, já disputou nada menos que 22 vezes o Dakar e conquistou por duas oportunidades o Rali dos Sertões nos Carros — na classificação geral —, em 1997 e 1998, sempre ao lado de André Azevedo, e competindo pela Mitsubishi. Em 1988, dez anos antes do segundo título no Sertões, a dupla brasileira estava desbravando sob duas rodas o deserto do Saara na disputa do primeiro Dakar com representantes nacionais.


Diferente de André, Klever, engenheiro de produção mecânica por formação, jamais competiu de moto no Sertões, fazendo assim sua estreia na prova como piloto em 1997, e já começando com o pé direito. Ao lado do lendário parceiro, o portalegrense faturou mais um título no ano seguinte e jamais voltou a competir de moto. Em suas participações no Rali dos Sertões, Klever viu de perto a evolução significativa da prova, tanto em termos técnicos, de estrutura de organização.

Impulsionado pelo crescimento do Sertões e do rali como um todo, Kolberg foi um dos precursores de uma pequena revolução no cross-country nacional ao ser o primeiro piloto a disputar o Dakar correndo com um carro movido a etanol, em 2010. No mesmo ano, meses depois, o gaúcho levou a tecnologia para o Sertões e quase ganhou a prova, ficando atrás somente do hoje tetracampeão Guilherme Spinelli.

Na íntegra segunda entrevista da série ‘Lendas do Rali dos Sertões’, feita para compor a reportagem especial publicada na Revista WARM UP 28, Kolberg falou sobre sua trajetória na maior prova cross-country do Brasil e disse que, apesar de não participar da edição que vai marcar os 20 anos da competição, não está pendurando o macacão e o capacete, deixando claro que vai voltar em breve.

Confira a entrevista com o bicampeão do Sertões:

GP: Klever, como foi que começou esse seu caso de amor com o Rali dos Sertões?

KK: Já que você falou em amor, acho que minha participação no Paris-Dakar, em janeiro de 1988, deixou vários brasileiros com “tesão” de fazer rali. Na época não havia a prática da modalidade cross-country no Brasil; o mais próximo eram algumas provas de enduro de moto, justamente o esporte que eu praticava. Só que fazer trilha no meio do mato e ir para o Dakar foi como sair do kart para a F1. Muita gente achou um absurdo, mas onde há amor, há ódio. E repito, não havia provas deste tipo por aqui, porque teria sido ótimo ter mais experiência antes de ir ao Saara. Alguns, como o arquiteto Chico Morais, ficaram muito empolgados e, em 1991, ele organizou o Rali São Francisco, que, na sequência, se tornou o Rali dos Sertões.  No começo era só para motos. Como nosso orçamento para o Dakar era muito enxuto, não tive condições de competir em duas rodas no Sertões, mas começamos a enviar representantes da equipe. Em 97, quando fiz minha transição das motos para os carros no Dakar, surgiu a oportunidade de competir no S
ertões sobre 4 rodas, quando fiz minha estreia, já com vitória.

Então, meio que sem querer, fui um tipo incentivador da criação do Rali dos Sertões. Como muitas revistas que traziam fotos e matérias foram, já que naquela época não havia internet.
 

Kolberg já disputou o Dakar 22 vezes (Foto: José Mário Dias)


GP: Em todos esses anos de participação, você viu que o Sertões viveu uma evolução tecnológica, esportiva e organizacional bastante grande. Como você percebeu esse crescimento com o passar do tempo?

KK: Como falei acima, no início vi as coisas de longe. Acho que a primeira evolução foi da organização, sempre aprendendo muito e procurando fazer melhor, desde o Chico, depois o Dionísio Malheiros e, finalmente, o Marco Ermírio de Moraes. Foi também um teste de sobrevivência, porque no início ninguém tinha certeza se a próxima edição rolaria até a hora da largada.

Passada esta fase, a organização continuou evoluindo, chegando a fazer parte do calendário da FIA e da FIM. Mas paralelamente o evento ganhou importância, trazendo mais qualidade e quantidade de pilotos, navegadores, máquinas, mecânicos, equipes, imprensa e patrocinadores. Do que era uma dúvida, hoje existem até fábricas de equipamentos e veículos e muita gente se dedicando full-time ao rali.

GP: Apesar dos seus ‘apenas’ dois títulos, você tem inúmeras participações no Sertões. Fazendo uma retrospectiva, o que você tem mais vivo na lembrança quando você lembra do Rali dos Sertões?

KK: Eu venci nos carros na geral em 97 e 98, fiz vice outras duas vezes, também ajudei a criar a categoria etanol, onde sou bicampeão (2010 e 2011, justamente um de meus maiores orgulhos. Na edição mais recente da prova, 2011, com um carro criado por uma oficina de preparação brasileira, juntando algumas peças novas e outras usadas, nosso carro foi o primeiro carro brasileiro na prova, na frente de muita gente boa, com equipamento de primeira. Já na nossa frente apenas uma BMW X3 da equipe oficial BMW (que venceu o Dakar 2012)  e um Mitsubishi Lancer, criado para a equipe oficial da Mitsubishi Japão (que venceu o Dakar 12 vezes se não me engano), atualmente adquirido pela Mitsubishi Brasil. Nem vou falar na diferença de orçamento ou de anos de experiência, testes, tecnologia e know-how. Nós chegamos muito perto, não anos, apenas alguns minutos. E utilizando energia renovável, verde, etanol brasileiro. Veja, tenho orgulho de todos que participaram disso, tanto da preparação, como da participação, como também d
e todos que estiveram presentes no Sertões durante estes 19 anos. Veja onde nós brasileiros chegamos. Isso é fato. Pena que a imprensa não percebeu isso.

GP: Certamente que nessa sua trajetória de sucesso no Sertões você viveu momentos marcantes e momentos difíceis também. Qual foi, ou quais foram os momentos de maior dificuldade em sua carreira no Sertões?

KK: O Sertões cresceu e se tornou uma prova importante, com concorrentes fortíssimos. Todos os anos em que competi, disputei a ponta. Em alguns, tive problemas mecânicos, que atrapalharam a classificação final, mas não a diária, nas etapas. Não tenho as estatísticas, mas com certeza estou entre os pilotos de carro que mais etapas venceram no Sertões.

Todo o trabalho (de preparação, de treinamento, de convencimento e conquista de patrocinadores) necessário para este nível de competitividade, o esforço pessoal que chamo de egoísmo que a carreira de piloto exige, fazendo você abrir mão de muita coisa, como estar mais presente na família, com os filhos, tudo isso, quando você vence, parece ter sido recompensado. Já quando acontece algum problema, mesmo que com sucesso em algumas etapas, mas sem a coroação do pódio no final, passa a ser questionável. É duro ficar parado no meio do caminho sendo ultrapassado e ver o resultado fugindo das suas mãos.

Mas pode ser ainda pior, quando você erra, bate, quebra o carro e fim de prova. E de carro é mais seguro do que de moto, porque de moto muitas vezes você acaba no hospital. No Dakar isso aconteceu comigo. No Sertões o carro me protegeu.

Mas sempre pode ser pior. Por exemplo, quando há algum erro, externo, como aconteceu no meu acidente de 2004, numa ponte. Sem entrar em polêmica, acho que tudo se tornou um aprendizado. E poderia ser pior, se o resultado fosse uma fatalidade, mas o anjo da guarda nosso e de quem estava por perto estava à postos, então ficou barato.

Hoje o que normalmente vem a minha lembrança são as coisas boas, nãos as ruins, ou seja, as dificuldades foram transformadas em oportunidades, já que a derrota faz parte do caminho da vitória. E os amigos são para sempre.
 

Klever foi o primeiro piloto a disputar o Dakar com um carro movido a etanol (Foto: David Santos Jr.)


GP: Você, que é um dos pioneiros do Brasil no Dakar, também se considera um pouco responsável por esse sucesso do Sertões nesses 20 anos de competição?

KK: Não acho honesto me creditar disso. Mal e mal fui um provocador. O Sertões existe e chegou onde chegou graças ao trabalho de muitas pessoas (a lista é grande). O entusiasmo e amor pelo rally de muitos (pessoas, empresas, mídia) como o meu, ajudou, mas nossa maior contribuição foi acreditar. Só que só de fé não se movem montanhas, foi preciso muito suor. Parabéns a todos, especialmente a quem colocou a mão na massa.

GP: Falando nisso, soube que você não vai competir neste ano. Você vai dar um tempo para priorizar as palestras e seus outros negócios? Ou foi a falta de patrocínio que o impediu de competir?

KK: O coração pede para eu estar lá. Infelizmente este ano não vou ter tempo disponível para investir nisso. Tenho tentado conciliar diversas atividades e responsabilidades. O Sertões exige muito, não só o piloto, não só o patrocínio. Então prefiro fazer as coisas bem feitas e corresponder com os compromissos. Vou ficar babando de vontade, mas aviso que não pendurei as chuteiras, estou treinado, melhorei muito meu condicionamento físico, só que estou conquistando outros objetivos, mas logo estarei competindo novamente.

GP: Pra fechar: para você, que é uma das bandeiras do off-road nacional, qual a sua opinião sobre o atual estágio do rali no Brasil? O que está bom? O que está ruim? O que precisa mudar e melhorar?

Prefiro não responder a esta pergunta. Mas vou dar uma dica: sozinho dá para andar rápido; em grupo dá para ir longe. Precisamos ir longe e rápido.

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