Lendas do Rali dos Sertões: Marcos Moraes

Na última entrevista da série, Marcos Ermírio de Moraes, presidente da Dunas Race, empresa que promove e organiza o Rali dos Sertões, falou sobre os desafios que teve para fazer da prova uma das principais do calendário do rali cross-country mundial

O ano de 1996 determinou, de maneira definitiva, os rumos do Rali dos Sertões. A competição, à época, tinha um caráter muito mais amador e se assemelhava muito mais a uma grande confraternização e um passeio entre amigos do que qualquer outra coisa, embora sempre tivesse ares de competição, mas não de profissionalismo. Contudo, tais características sempre colocavam o futuro da prova em xeque ano após ano, já que era preciso muito dinheiro para bancar uma viagem tão cara, sempre saindo de São Paulo rumo à região Nordeste do Brasil.

Mas tudo mudou com a chegada de Marcos Ermírio de Moraes por meio da Dunas Race. Mal comparando, os efeitos da vinda do empresário, sobrinho de Antonio Ermírio de Moraes, como novo promotor e organizador do Rali dos Sertões fizeram dele uma espécie de ‘Bernie Ecclestone brasileiro’, pois passou a enxergar a competição não apenas sob o âmbito esportivo, mas, principalmente, sob pelo ponto de vista de negócio. E foi a partir daquele ano que o Sertões começou a ganhar corpo para se consolidar como uma das principais do cenário cross-country em todo o mundo. Exímio empresário, assim como o tio, Marcos Moraes conseguiu aliar duas paixões na sua vida na Dunas Race: o rali e o fino trato com os negócios.

Empreendedor por natureza, o empresário fez o Rali dos Sertões uma marca muito além do esporte e a tornou de grife de roupas até cosméticos. Além de tornar o Sertões uma marca forte e conhecida nacionalmente, Moraes conseguiu atrair a presença de montadoras e patrocinadores que ajudaram a competição a ganhar corpo e adquirir um respeito crescente ano após ano até chegar à histórica 20ª edição da prova. 

Antes do briefing de apresentação do roteiro do 20º Rali dos Sertões, Marcos Moraes falou com a reportagem da Revista WARM UP para o especial ‘Lendas do Rali dos Sertões’. Ao longo da conversa, o empresário falou sobre sua motivação ao assumir o controle da competição, os desafios que tem pela frente para fazer do Sertões uma prova cada vez mais forte e atraente e, principalmente, deixa claro que ainda não está satisfeito com o tratamento que a competição recebe, já que acredita que uma competição desse porte poderia ter muito mais destaque na mídia.

Moraes falou também sobre o novo desafio que terá pela frente: pela primeira vez em 17 anos, Marcos vai trocar o papel de organizador pelo macacão e capacete, voltando à competição, dessa vez nos carros. Dessa forma, o dirigente confia a sua função para o filho Lucas Moraes e para o inseparável parceiro Du Sachs, diretor da Dunas Race. O Grande Prêmio reproduz a íntegra da entrevista a seguir.

Grande Prêmio: Embora você tenha se consolidado como dirigente, você, na verdade, começou no Rali dos Sertões como piloto de moto. Como é que foi isso?

Marcos Moraes: Começou quando eu participei do primeiro rali que fiz aqui no Brasil, que foi o Rali São Francisco, que foi em 1991, competindo de moto. E ali eu peguei o gosto pelo esporte. Depois, em 1993, quando surgiu o Rali dos Sertões, eu também fui participando como piloto de moto. E as coisas foram evoluindo. Nesse meio do caminho, entre 1993 e 1996, quando eu assumi o evento, sempre participei indiretamente do rali, com alguns apoios que eu fazia, junto com os organizadores. E, de certa forma, comecei mesmo a pegar gosto pelo esporte. E em 1996, quando a outra empresa ia encerrar o evento, já que havia problemas de estrutura e problemas financeiros, o Dionísio [Malheiros], que era o organizador da prova, me ofereceu para seguir com ele. E aí, para não deixar [o Sertões morrer], já que eu tinha uma grande paixão pelo esporte, a gente começou a fazer o evento.

Marcos Moraes é considerado o salvador do Rali dos Sertões (Foto: Divulgação)

GP: E nessa transição de piloto para organizador do Sertões, quais foram os maiores desafios à frente de uma competição tão grande?

MM: É óbvio que mudar de piloto para organizador foi muito diferente. Você não tinha no Brasil, naquela época, equipamentos que atendessem toda a demanda para um rali desse porte. Naquela época quase não havia carros 4×4, principalmente carros nacionais. Isso tudo dificultava bastante a dinâmica do evento porque você não conseguia levantar uma rota tão técnica e difícil, já que, sem 4×4, você não passava [pelo trecho]. Isso tudo foi evoluindo e, na verdade, o amadurecimento do rali veio ao longo dos anos e pelas pessoas que estavam aqui dentro, com quem tive a oportunidade de trabalhar, e que foram conhecendo melhor o Brasil, foram conhecendo melhor como funciona um evento deste tipo.

Óbvio que a parte financeira foi importante, já que a gente conseguiu suprir a demanda financeira do evento, mas [o Sertões] só decolou quando a gente passou a tratá-lo como um negócio e não somente como uma grande aventura, um grande anseio das pessoas em participar e conhecer um Brasil diferente. Então, essas duas coisas, o fato de as pessoas aqui conhecerem melhor o Brasil, entender mais essa parte logística, e entender esse lado comercial, e quando se passou a ter o acesso aos equipamentos como carros 4×4, boas motos, quando passou a ter um regulamento que atendesse toda a demanda do evento, aí se juntou as peças do quebra-cabeça para o evento ter a pujança e a importância que hoje tem no segmento. Hoje a gente tem uma equipe muito unida, que já trabalha há vários anos junta, e isso facilita muito, porque já sabem o timing das coisas, as dificuldades, e por aí vai. O crescimento nosso foi nesse sentido. A gente teve um grande aprendizado no começo, e a vinda da tecnologia ajudou a nos consolidar de maneira forte no mercado.

GP: E depois de todo esse tempo estando à frente do Rali dos Sertões, como você vislumbra essa nova experiência, nessa 20ª edição, voltando a fazer parte do grid?

MM: É um exercício que eu tenho de fazer, porque é preciso confiar nas pessoas que estão trabalhando aqui. E foi por isso que tem sido viável sair da linha de frente do rali e participar da competição, porque, ao longo desses anos todos, a gente conseguiu formar pessoas que têm uma estrutura de conhecimento, de técnica, de emocional, que vai dar sequência ao trabalho. Para mim, vai ser um grande desafio ficar do papel de organizador e, de fato, tentar fazer o melhor como piloto. Poder estar junto com os pilotos, participando, competindo, vou resgatar algo que não fazia há 17 anos. Então vai ser uma experiência muito boa, até mesmo para validar algumas coisas no que diz respeito ao regulamento, em nível de radar, deslocamento, de dificuldades da especial, de marcação nas planilhas. E isso, para a gente, será importante como referência nas questões de planilha, roteiro, regulamento, porque vou sentir na pele o que tudo isso interfere para o piloto.

GP: Além das participações no Mundial de Baja, como está sua preparação para o Sertões 2012? Qual será a estratégia?

MM: Vou com o T-Rex [protótipo]. A ideia é fazer um bom rali, num ritmo bom, no estilo Alain Prost: jogar no erro dos outros e se defender como um bom ataque (risos). Essa é a ideia.

GP: Como dirigente e como piloto, qual é sua opinião sobre o espaço que o rali tem na mídia?

MM: Acho que é muito fraco. Infelizmente a mídia ainda não percebeu a forma de expor esse evento. Porque, além da competição em si, a gente tem outros cenários, vamos chamar assim, que fazem parte deste tipo de competição. E são cenários não apenas da parte física, mas você tem todo o investimento do rali, dos navegadores, pilotos, equipes de apoio… Existe um conteúdo a ser explorado e que a gente ainda não conseguiu explorar todo o conteúdo do rali. A dinâmica de como se mostrar o evento ainda tem de evoluir e contar uma história um pouco diferente. Tem a parte social do evento, tem a parte ambiental do evento, e isso tudo é preciso mostrar também.

Na terra do futebol é muito difícil de você conseguir colocar essa dinâmica que a competição tem, que não é em um autódromo, é diferente. Então, para você contar a história do rali, quem tá liderando, se você não entende quais são as regras do jogo, é difícil saber quem está liderando. É difícil. Tem de ter uma nova configuração aí. As coberturas em televisão e em jornal, por exemplo, é bastante restrita.

GP: E falando sobre o estágio esportivo do rali cross-country hoje, qual a sua opinião?

MM: Acho que a parte esportiva do evento é muito boa. As federações têm participado de uma forma bem objetiva, bem prática e produtiva dentro do evento, tanto a CBA quanto a CBM. Óbvio que, para os pilotos, a questão patrocínio é sempre uma dificuldade, assim como para nós também, mas espero que a gente consiga evoluir para que o segmento off-road, de uma forma geral, possa se posicionar bem aqui dentro. O Brasil é um país gigantesco e que reúne todas as características para se fazer uma prova deste tipo aqui dentro. E já estamos vendo evolução em outros promotores de outros eventos. Porque não pode ter só o Sertões. Hoje a gente consegue ter etapas com essas características, como o Sertões, Sertões Series, RN 1500, Rali das Serras, Rali Cuesta. São promotores novos, que trazem para o calendário um nível muito bom. Cabe a nós agora mostrar isso, ter mais acesso a patrocínio.

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