Coluna Power Stage, por Fernando Silva: Cacá e o novo horizonte para o Brasil no Dakar
Não tenho dúvidas de que a participação de um piloto que atrai boa atenção da mídia, como Cacá Bueno, ajudaria enormemente na divulgação do Dakar no Brasil e, de certa forma, do rali cross-country como um todo
Na semana passada, uma notícia chamou muito a atenção. Durante a edição nacional do ‘Dakar World Tour’, evento realizado para a divulgação do maior rali do mundo em vários países do planeta, Cacá Bueno revelou seu desejo de disputar um dia o Dakar. Não chegou a ser uma confirmação, mas sim o interesse que, por si só, já é bastante relevante, pois Cacá é o melhor piloto em atividade no país e acaba sendo notícia em tudo o que faz em sua laureada carreira.
Relembre um pouco do que o carioca, atual piloto da Red Bull na Stock Car, falou a respeito durante o evento ocorrido em São Paulo, há uma semana. “Gostaria de encarar a aventura e, quem sabe, conseguir terminar a prova, superar limites e desafios. Era uma ideia que eu tinha há algum tempo e, quem sabe, eu consiga realiza-la em 2014”, disse.
“Acho que não há nada mais difícil que terminar o Dakar e isso me instiga enquanto piloto. Embora não tenha nada confirmado da minha participação, eu admito minhas reais intenções em participar”, completou o segundo maior vencedor da história Stock Car, com cinco títulos, só perdendo para o mito vivo Ingo Hoffmann, com 12 conquistas.
Vejo de maneira positiva essa possível entrada do Cacá no Dakar. É inegável que hoje Bueno é capaz de reunir uma grande atenção da mídia em torno de si. Esse fenômeno pode ser visto mesmo no GT Series, que passou a ter uma repercussão muito maior nesta temporada, além, obviamente, da entrada de uma equipe brasileira, a BMW, com outros três competentes e ótimos pilotos: Allam Khodair, Sergio Jimenez e Ricardo Zonta.
Mas é claro que Cacá, por todo seu histórico nas pistas e por uma carreira cheia de vitórias, acaba atraindo mais atenção. Foi assim que aconteceu também, por exemplo, no GT Brasil, no ano passado, e, de certa forma, também no Super TC2000, categoria argentina que nutre um enorme respeito pelo carioca.
Todos esses fatores certamente acabariam fazendo do Dakar um evento mais difundido aqui no Brasil, sobretudo na televisão. Não tenho dúvidas de que a participação de um piloto que atrai boa atenção da mídia, como Cacá Bueno, ajudaria enormemente na divulgação do Dakar no Brasil e, de certa forma, do rali cross-country como um todo. A modalidade teria uma atenção ainda maior e estaria nas TVs, rádios e sites com muito mais frequência em relação aos dias atuais.
Sem querer estabelecer qualquer tipo de comparação, o interesse de Cacá pelo Dakar e pelo cross-country em si em muito lembra Ingo, que disputou várias vezes o Rali dos Sertões e provas da Mitsubishi Cup. Não duvido que, de certa forma, Ingo tenha sido uma das fontes de inspiração de Bueno em ter esse interesse em fazer algo de diferente em sua carreira. Cacá também lembra uma entrevista concedida à Evelyn Guimarães no ano passado, depois de ter corrido nas ruas de Buenos Aires, onde declarou seu amor pelo automobilismo e o desejo de fazer parte do máximo de competições que lhe fosse possível. E, definitivamente, quem ama o automobilismo não pode não amar o Dakar.
Com tudo isso na mesa, é preciso considerar que caso realmente dispute o Dakar, Cacá não será um salvador da pátria do cross-country brasileiro ou algo do tipo. Graças aos incansáveis pilotos, navegadores, promotores e amantes do esporte, a modalidade vive um franco crescimento hoje em dia e conta com pilotos e navegadores disputando regularmente provas do Mundial e o Dakar e possui várias competições fortes — Rali dos Sertões, RN 1500, Rali de Barretos, Sertões Series. Cacá num Dakar ou num Sertões, por exemplo, seria curioso e ao mesmo tempo interessante por toda a história que o envolve. Seria diferente, e isso tudo atrairia ainda mais mídia para o esporte, algo tão almejado por quem faz parte do esporte. Somaria ao árduo trabalho que vem sendo feito por todos os entusiastas e apaixonados pelo cross-country ao longo de décadas.
Se quiser levar mesmo seu desejo adiante, Cacá certamente tem inúmeras portas abertas por conta de toda sua capacidade e talento nas pistas. Recentemente, durante entrevista coletiva para apresentação da equipe nos X-Games, a Mitsubishi admitiu o interesse em contar com Bueno. Talvez essa possa ser uma alternativa, formando uma equipe que já é fortíssima e conta com Guilherme Spinelli e Youssef Haddad. Seria bacana ver a equipe com um outro carro. E mesmo a Red Bull e a BMW, que possuem amplas participações do Dakar, poderiam viabilizar a estreia de Cacá no maior rali do mundo.
Antes de disputar uma prova tão longa, difícil e extrema como é o Dakar, obviamente será preciso um tempo de treinamento e adaptação a um carro no cross-country. Uma competição dura, mas que ajudaria bastante no aprendizado, é o Rali dos Sertões. Neste ano, a prova terá Goiânia como partida e chegada e será disputada entre 25 de julho e 4 de agosto. Chequei o calendário da Stock Car e há um intervalo razoável entre a prova de Cascavel, em 16 de junho, e a de Ribeirão Preto, em 11 de agosto. Na FIA GT Series, depois da rodada de Zandvoort, em 6 e 7 de julho, a próxima prova será na Eslováquia, duas semanas depois. Ou seja, caso Cacá queira disputar o Sertões, o calendário é perfeito.
A ASO (Amaury Sport Organisation), empresa que promove e organiza o Dakar, tem todo o interesse em difundir melhor o rali por aqui. Cacá, por sua vez, não esconde sua fome e paixão pelo automobilismo.
Tá aí um casamento que, se rolar, tem tudo para dar certo.
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