Stock Car

Retrospectiva 2018: Em ano de forte grid, bi de Serra força rivais a se mexerem por fim de hegemonia

O 2018 da Stock Car teve, para muitos, o grid mais forte da história da categoria. Mas o vencedor começa a criar uma hegemonia: Daniel Serra não ligou para a qualidade dos rivais e se tornou bi, liderando a temporada de ponta a ponta. Agora, as equipes adversárias se mexem

Warm Up / FELIPE NORONHA, de São Paulo / FERNANDO SILVA, de Sumaré
Grid mais forte da história? Foi essa a conversa na 'rádio paddock' da Stock Car durante o ano de 2018. É impossível cravar, mas é sim possível discutir o assunto. Nomes como Daniel Serra, Felipe Fraga e Rubens Barrichello, tradicionais na categoria, receberam a chegada de Lucas Di Grassi e Nelsinho Piquet, por exemplo. E o campeonato não decepcionou, com disputa acirrada até o final. Serra foi o (bi) campeão, liderando de ponta a ponta, mas emoção não faltou. E, agora, todos se mexem para tentar acabar com a hegemonia do #29.
A festa do título conquistado pela RC Eurofarma (Foto: Fernanda Freixosa/Stock Car)
A programação do fim de semana inaugural da temporada 2018 começou atipicamente numa quarta-feira, quando foi programado um dia exclusivo para testes de pré-temporada. A antecedência foi porque a prova de abertura do campeonato foi marcada para 10 de março, um sábado, algo que não deu muito certo porque a Corrida de Duplas acabou não atraindo um grande público.
 
Em meio a tantas estrelas do grid, Rubens Barrichello era o grande centro das atenções. Meses antes, o recordista de largadas da F1 sofreu uma suspeita de AVC enquanto estava na sua casa em Orlando e ficou hospitalizado. Dias depois, na esteira de uma rápida recuperação, Barrichello anunciava seu parceiro para a Corrida de Duplas: Filipe Albuquerque. Começava ali, em Interlagos, uma nova fase de um dos mais laureados pilotos brasileiros de todos os tempos.
 
Na pista, quem roubou a cena mesmo foi JP Oliveira. O paulista enfrentou uma verdadeira maratona de mais de 24 horas de viagem do Japão até Interlagos para correr como convidado de Daniel Serra, chegou a perder alguns treinos exclusivos para novatos e ficou em desvantagem em relação aos outros concorrentes, já que o piloto não tinha ainda experiência alguma em um carro da Stock Car. Mas o talento de JP e o ótimo trabalho feito por Serra e a RC Eurofarma, chefiada por Rosinei Campos, o ‘Meinha’, fez toda a diferença.
 
Serra e Oliveira brilharam no treino classificatório, realizado na sexta-feira, e garantiram a primeira pole da temporada, com JP brilhando no trecho final da sessão, destinada aos convidados. A primeira fila foi completada por Augusto Farfus, convidado de Lucas Di Grassi, novo titular da Hero, ficando a apenas 0s142 do tempo da pole. Albuquerque colocou o carro #111 de Barrichello em terceiro no grid, partindo lado a lado com Felipe Fraga, que teve como convidado o holandês Nicky Catsburg. Em seu primeiro treino classificatório na Stock Car, Massa, que compartilhou o carro #0 da Cimed de Cacá Bueno, obteve o 11º lugar dentre 33 carros do grid.
João Paulo de Oliveira ajudou Daniel Serra a começar bem o ano do bi (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)
 
O carro #30 da Blau, tripulado por César Ramos e Kelvin Van der Linde, liderou a maior parte da disputa debaixo de chuva, mas perdeu a liderança durante a troca de pilotos. Ainda assim, foi um grandioso resultado, sobretudo para Ramos, que subiu ao pódio pela primeira vez na Stock Car.
 
A dupla formada por Cacá Bueno e Felipe Massa fez uma boa corrida, sobretudo na primeira parte, quando o pentacampeão da Stock Car chegou à terceira colocação antes de entregar o carro ao ilustre convidado. No entanto, logo que foi à pista para fazer seu stint, Massa teve de lidar com problemas no motor, que o impediram de obter uma colocação melhor, fechando a prova em 13º.
A emoção de Rubens Barrichello em Interlagos (Foto: Rodrigo Berton/Grande Prêmio)
Quase um mês depois da Corrida de Duplas, Barrichello voltou a brilhar. Desta vez, na segunda etapa do campeonato, em Curitiba, onde o #111 levou a Full Time à pole-position com direito a uma volta mágica para desbancar o favorito à posição de honra, Serra, em enormes 0s274, uma grande diferença quando se trata de Stock Car. O top-6 foi completado por Marcos Gomes, Max Wilson, Fraga e Di Grassi.
 
Só que Barrichello largou muito mal e, de primeiro, despencou para 24º na primeira volta. Serra tomou a liderança, enquanto Fraga subiu para segundo. Era a primeira grande batalha entre os pilotos que viriam a ser os protagonistas de 2018. 
 
Serrinha foi o primeiro a fazer seu pit-stop obrigatório, com Fraga indo aos boxes na volta seguinte. Foi quando o piloto da Cimed deu o ‘pulo do gato’ e, no chamado undercut, voltou do pit-stop à frente de Serra, caminhando para sua primeira vitória na temporada. Max Wilson, sempre bastante cerebral, completou o pódio da corrida 1, com Lucas Di Grassi, na sua primeira prova solo na Stock Car, foi o sexto.
 
O desfecho da etapa de Curitiba foi novamente grandioso. A segunda corrida no AIC teve requintes de emoção, com César Ramos despontando como grande favorito à vitória ao liderar boa parte da corrida. Mas o gaúcho levou muito azar e sofreu uma pane no carro, que resultou no seu abandono. Mas mesmo antes do abandono de Ramos, Di Grassi mostrava um ritmo muito forte e competitivo e estava logo atrás. Com a saída do gaúcho, Lucas assumiu a ponta e venceu pela primeira vez na Stock Car, dando-se ao luxo de fechar ainda com botões de ultrapassagem a acionar. Cacá Bueno e Gabriel Casagrande completaram o pódio.
Felipe Fraga comemora a vitória na corrida 1 da Stock Car em Curitiba (Foto: Duda Bairros/Vicar/Vipcomm)
Por conta da pausa de dois meses e meio em razão da Copa do Mundo, o calendário da Stock Car compreendeu uma verdadeira maratona entre abril e maio, com quatro etapas — oito corridas — no espaço de oito semanas. Assim, 15 dias depois da etapa no Paraná, os pilotos aceleraram no circuito mais travado do ano, o Velopark, em Nova Santa Rita, região metropolitana de Porto Alegre. A etapa foi marcada por um grande caos no treino classificatório de sábado.
 
A chuva, que já era constante, desabou de vez a partir da segunda metade do Q1 e definiu os rumos da sessão, já que os pilotos do segundo grupo não tiveram condições de superar os tempos dos competidores que foram à pista pouco antes. O treino acabou sendo interrompido depois de uma batida sofrida por Sergio Jimenez no início do Q2.
 
A sessão, no fim das contas, acabou durando mais de três horas. Levou a melhor o nome mais experiente e vencedor do grid: o pentacampeão Cacá Bueno voltava a comemorar uma pole-position na Stock Car, com destaque para Allam Khodair na segunda posição, Lucas Foresti em terceiro, Ricardo Zonta em quarto e Átila Abreu em quinto, fechando o top-5 com dois carros da Shell V-Power, dois da Cimed e um da Blau. Serrinha largou em 12º, enquanto Fraga saiu em 14º.
 
Na corrida 1, Cacá lutou pela vitória até o fim, enquanto Khodair foi valente e buscou estar entre os primeiros o tempo todo, mas correu sem push-to-pass por conta de uma punição sofrida na Corrida de Duplas. Assim, o principal adversário do pentacampeão na corrida foi o não menos experiente Ricardo Zonta, que não desistiu da ultrapassagem e chegou muito perto. Mas coube a Cacá a vitória e o fim do jejum de quase dois anos sem triunfos na Stock Car. Julio Campos completou o pódio.
 
Naquele momento, entre as corridas 1 e 2, foi quando Serrinha viu um rival chegar mais perto na tabela do campeonato. Com a vitória, Cacá empatou com seu ex-companheiro de equipe na Red Bull em 60 pontos. Mas Daniel desempataria a fatura na corrida 2 com a vitória no Velopark. Gomes foi o segundo e Campos voltou ao pódio em terceiro lugar, sendo o maior pontuador do fim de semana.
Chuva forte interrompeu a classificação no Velopark (Foto: Duda Bairros/Vicar)
A quarta etapa do campeonato serviu para Serra pavimentar mais um pouco do seu caminho rumo ao bicampeonato. A quente Londrina recebeu a Stock Car no primeiro fim de semana de maio, às vésperas do Dia das Mães, o que proporcionaria um dos momentos mais especiais do campeonato. 
 
No sábado, Barrichello foi cirúrgico em sua volta de classificação e superou o amigo Max Wilson por apenas 0s013. Gomes largou em terceiro, com Fraga fechando a segunda fila toda da Cimed, enquanto Serrinha e Julio Campos partiram logo atrás. E foi justamente a largada que definiu os rumos da corrida 1, com Max fazendo a ultrapassagem sobre Barrichello na primeira curva para voltar a vencer na Stock Car. O piloto do carro #65 ainda reservou uma homenagem especial à mãe, Dona Maria, e comemorou com ela o triunfo no norte do Paraná. Gomes e Serra fecharam o pódio.
 
A corrida 2 tinha tudo para ter Átila Abreu como vencedor. Foi uma prova com grandes disputas e que chegou a ter Cacá Bueno e Thiago Camilo à frente, ficou com a cara do sorocabano. Até que o piloto acabou sendo punido por conta de um incidente no pit-stop, o que abriu caminho para a segunda vitória de Di Grassi na Stock Car, a segunda no Paraná. Barrichello, que havia terminado em quarto a corrida 1, fechou a disputa em P2, seguido por Serra, que foi construindo sua campanha com base na regularidade e consistência. Sexto, Wilson foi o maior pontuador daquele fim de semana.
Max Wilson levou a mãe, Dona Maria, ao pódio da corrida 1 em Londrina (Foto: Fernanda Freixosa/Vicar)
Quando a Stock Car rumou para Santa Cruz do Sul, no interior do Rio Grande do Sul, Serra marcava 142 pontos e ocupava com folga a liderança do campeonato, com Marcos Gomes aparecendo em segundo 97 pontos, 45 atrás de Daniel. A tabela ainda mostrava Wilson, terceiro com 90 tentos; Julio Campos, quarto com 85; e Cacá Bueno, com 80. Fraga era o sexto colocado e tinha 64 pontos de desvantagem para Serra.
 
Fraga, aliás, viveu um fim de semana carregado de emoção em Santa Cruz do Sul. Ocorre que fez frio e choveu muito durante praticamente todo o sábado, o que impediu a realização do treino classificatório. Assim, a direção de prova remarcou a definição do grid de largada para a manhã de domingo.
 
Foi então que Fraga viveu um duro revés quando seu motor quebrou durante uma das voltas de classificação naquela manhã, levando o carro #88 a largar do fim do grid em Santa Cruz. Mas se a Cimed lamentou a quebra inesperada e até rara na Stock Car, por outro lado festejou a pole-position conquistada por Gomes, que naquele momento mostrava ser o grande desafiante de Serra na luta pelo título.
 
Gomes derrotou Serra por míseros 0s006 e faturou a pole no interior gaúcho, com Campos novamente muito bem, em terceiro do grid, seguido por Max Wilson, Átila Abreu e Thiago Camilo. Na disputa da corrida 1, Gomes lutou muito e resistiu à pressão imposta por Serrinha para voltar a vencer na Stock Car, quebrando um jejum de quase dois anos sem subir ao topo do pódio. Mas o segundo lugar era muito bom para Serra em relação ao campeonato. Wilson completou o pódio, enquanto Fraga saiu de 30º e último para terminar em 14º lugar.
Átila Abreu cruza a linha de chegada na frente e vence em Santa Cruz do Sul (Foto: Fernanda Freixosa/Vicar/Vipcomm)
O desfecho da primeira parte da temporada, na última prova antes da pausa de dois meses e meio, teve em Átila seu protagonista. Com ótimo ritmo de corrida e grande estratégia, o piloto da Shell V-Power saiu do Rio Grande do Sul com uma grande vitória, lavando a alma depois da frustração vivida em Londrina. Abreu aproveitou o Fan Push para fazer grande ultrapassagem sobre Camilo para iniciar sua volta por cima com o triunfo. Fraga terminou em alta um fim de semana que teria tudo para ser frustrante e saiu de 14º para fechar o pódio, à frente de Gomes e Serra.
 
O placar da temporada depois de cinco etapas e nove corridas apontava Serra com 152 pontos e o bicampeonato bem encaminhado. Marquinhos tinha 109 tentos e era o vice-líder, enquanto Fraga passou Max para sair rumo às férias em terceiro com 92 pontos, exatamente 60 atrás do seu grande oponente na sequência do campeonato.
 

A arrancada de Fraga e a consagração de Serra como bicampeão

Na volta da Copa do Mundo, a "corrida do ano" - em Goiânia, a Corrida do Milhão inovou com a disputa no circuito externo quase oval. E a emoção tomou conta: Barrichello venceu na base da estratégia e levou o filho ao pódio, o auge de um ano no qual superou uma suspeita de AVC. 
Max Wilson e Rubens Barrichello no pódio da Corrida do Milhão (Foto: Denis Ribeiro / Vicar)
Ali também se pontuou o primeiro momento em que Fraga aparecia como possível concorrente a Serra, já que foi o quarto colocado da prova. Em compensação, Serrinha, que tinha tudo para vencer novamente a Corrida do Milhão, teve um problema no seu pit-stop quando liderava e perdeu a chance de faturar a cobiçada vitória, cruzando a linha de chegada em oitavo.

Duas semanas depois, Fraga venceria a corrida 1 em Campo Grande e iria ao pódio em Cascavel, enquanto Serra zerava, para construir de vez a história do final do ano; a briga seria entre eles.

Desse momento até o final da temporada, houve apenas um intervalo de 50 minutos em que a disputa não teve favorito: da bandeirada da corrida 1 no Velo Città, etapa seguinte, até o final da segunda bateria.

Por quê? Porque quando Fraga venceu a primeira prova do dia, diminuiu para oito pontos a diferença. Era impossível, ali, dizer que algum deles tinha vantagem. Porém, ao final daquele domingo, Serra iria ao pódio pela segunda vez em 2°, enquanto Fraga seria apenas 6° na corrida 2. A diferença crescia de novo e não mais cairia.

De Londrina até Interlagos, passando por Goiânia novamente, Serra só cresceu - e consolidaria o título no sábado da etapa final, quando Fraga teve problemas e foi muito mal no treino de classificação, chegando a se emocionar nos boxes. O piloto da RC Eurofarma, então, fez corrida sem riscos para, na reta do mais famoso circuito brasileiro, fazer 'zerinhos' e comemorar seu bicampeonato.
Daniel Serra (Foto: Duda Bairros/Stock Car)
Se esse é o resumo do ano, é também uma abertura, uma projeção para 2019. Pois o domínio de Serra força mudanças no grid. A Cimed de Fraga, por exemplo, já se programa para bater o rival com trocas.

Para se fortalecer, a equipe de Fraga manteve Cacá Bueno e contratou Gabriel Casagrande, que fez top-10 com a Vogel, dona de carro bem abaixo de seu novo. 

A resposta da RC Eurofarma? Trazer de volta Ricardo Maurício e igualar o número de pilotos da rival: três. Ao lado de Serra e de Max Wilson, Maurício terá a função de evoluir o carro para que não fique defasado em relação ao principal adversário.
Gabriel Casagrande é um dos muitos pilotos que vai mudar de casa para 2019 (Foto: Duda Bairros/Vicar/Vipcomm)
Se as favoritas se mexem, quem vem atrás não pode ficar parado. E, por isso, a projeção para 2019 é de mais emoção ainda na briga pelo título. Barrichello se mantém como a força da Full Time; Julio Campos vê a Prati Donaduzzi entrando no pelotão que briga pelo título; Marcos Gomes, sempre candidato, estará de nova casa.

Ou seja: mesmo com a saída de Di Grassi, o grid seguirá forte, com equipes mirando alcançar as duas principais do momento. Cada movimento neste xadrez parece fortalecer a categoria. Agora, é preciso que os bastidores se agitem menos

Se o compasso de quem manda na categoria seguir a qualidade de quem está na pista, 2019 pode ser ainda melhor do que a última temporada. Para o automobilismo brasileiro, seria o ideal — e necessário.