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Turismo

Coluna Warm Up, por Flavio Gomes: Fantasmas da ópera

Não há motores ou pilotos. São dois carros com vida própria, guiados por fantasmas. Perto deles, os outros, com seus roncos de motores a explosão, parecem seres primitivos e medievais

Warm Up / FLAVIO GOMES, de São Paulo


Box 20 de Interlagos

O sibilar dos dois quando passam pelas retas é assustador. Há quem diga que é apenas o som do deslocamento do ar sendo rasgado por uma lâmina afiada por algum demônio. Não há motores ou pilotos. São dois carros com vida própria, guiados por fantasmas. Perto deles, os outros, com seus roncos de motores a explosão, parecem seres primitivos e medievais. 

Prefiro o ronco dos motores, sempre preferi. A ideia de um automobilismo silencioso me apavora mais do que o zumbido das flechas de prata alemãs. Mas mesmo num automobilismo barulhento cabem esses seres sibilantes. Desde que sejam poucos. Únicos. Era assim também com os Peugeot 908 que estiveram aqui mesmo, em Interlagos, em 2007. Enquanto todos se esgoelavam para chegar na freada do S do Senna estourando o escapamento, eles deslizavam como se pertencessem a outro planeta.

Agora são os Audi. Carros que vi em Le Mans, há alguns meses, e que agora estão na cidade para as 6 Horas de São Paulo, quinta etapa do Mundial de Endurance. Não sei se essa corrida vai ser realizada de novo aqui no futuro. Espero que sim. Os campeonatos de endurance começam e acabam sem grandes avisos, a gente nunca sabe. Quando a turma da Le Mans Series esteve por estas bandas para as Mil Milhas, cinco anos atrás, eu também esperava que viessem todos os anos. Nunca mais voltaram. Digo, até agora. A turma desse Mundial, o WEC, é a mesma de Le Mans. Estão aqui as grandes equipes, os grandes protótipos. Especialmente os monstrengos das quatro argolas que assobiam e os alienígenas japoneses da Toyota — que trouxeram o Godzilla das pistas, rústico, ruidoso, ameaçador.

É assim que vejo esses carros, como seres autônomos, violentos e agressivos. Essa é uma das marcas das corridas de longa duração e dos campeonatos de protótipos: carros são mais importantes que pilotos. Há 77 seres humanos que pilotam por aqui, e 11 deles já correram de F-1. Mas não me importo com seus nomes. Para mim, são os carros que correm, não os pilotos. Estes são apenas inconveniências necessárias, é preciso alguém para levantar o troféu, algo que os carros não podem fazer.

Os dois Audi estão no box 20. É o mesmo que temos usado, nossa equipe, nas corridas de clássicos em Interlagos. Os ectoplasmas apavorantes estão estacionados onde paro meu inocente Lada, soviético, comunista convicto, valente e um pouco menos veloz. Receio que nossa garagem fique mal-assombrada. Que nas noites de sexta-feira, quando nossos carros repousam à espera da corrida do dia seguinte, sejam ouvidas correntes se arrastando e silvos agudos pelas frestas das paredes.

Eu que não fico mais de noite no box 20.