Por que Red Bull foi eleita “referência” por rivais na 1ª semana de testes da F1 no Bahrein

A confiabilidade do motor da Red Bull, o primeiro produzido pelos taurinos em parceria com a Ford, ganhou elogios dos rivais, mas os números mostram que ainda é impossível cravar favoritismos em 2026 até a Austrália

Impressiona o trabalho da Red Bull, e isso não é nenhum exagero ou mesmo blefe da parte de Mercedes e McLaren quando colocam os taurinos no patamar de “referência atual” — estas, palavras do chefe dos papaias, Andrea Stella. Depois da longínqua parceria com a Honda, que rendeu quatro títulos de Pilotos e dois de Construtores com Max Verstappen, a equipe austríaca entendeu que era o momento de subir ousado degrau na escada da principal categoria do automobilismo mundial e deixar de vez para trás a alcunha de ‘equipe dos energéticos’. De fato, a Red Bull de 2026 é uma equipe de corrida, que desenvolve chassi e também sabe fazer motor.

Uma montadora, pois, ainda que tenha trazido o know-how de quem realmente está no ramo há séculos fabricando carros, a norte-americana Ford, mas a Red Bull levou muito a sério o projeto de construir a própria unidade de potência na divisão de motores na fábrica em Milton Keynes, Inglaterra. E depois de uma primeira bateria de testes coletivos da pré-temporada 2026, no Bahrein, em que até a todo-poderosa Mercedes teve de trocar a unidade de potência do carro por conta de um problema complexo, ver o motor Red Bull Ford Powertrains acumular um total de 670 voltas, considerando também a Racing Bulls, é “de tirar o chapéu”, como bem pontuou Carlos Sainz.

Mas será que os taurinos realmente encerram a primeira semana de testes como a grande força do grid? Bom, há muitos pontos a serem avaliados, mas é importante frisar que, sim, os números obtidos por Verstappen no primeiro dia impressionaram bastante, tanto que todas as declarações de Toto Wolff, George Russell, Stella e Sainz foram reflexos disso. Escalado para conduzir o programa da quarta-feira (11), o neerlandês completou 136 voltas e fez a melhor delas em 1min34s798, que acabou sendo o melhor tempo da Red Bull nos três dias.

Além das mais de 130 voltas, Max ainda se destacou pelas médias nos stints. É sempre importante lembrar que as informações de quantidade de combustível e mapeamento do motor são desconhecidas, e há também as diferenças nas condições da pista, sobretudo a temperatura, que influencia na performance dos pneus. Para o Bahrein, a Pirelli levou a gama mais dura da nova composição, C1, C2 e C3, e Verstappen experimentou os três ao longo do primeiro dia.

Max Verstappen não cansa de reclamar, mas deixou a concorrência impressionada de cara (Foto: Red Bull Content Pool)

Considerando voltas consecutivas no mesmo ritmo, ele fez um stint de dez voltas com 1min38s9 de média de pneus médios. Depois, em um stint de nove com os duros, virou 1min37s9. Por fim, há dois stints de sete e dez voltas, respectivamente, de macios: o primeiro, 1min37s6, e o segundo, 1min38s0.

A título de comparação, ainda focando somente no que foi apresentado no primeiro dia, a Mercedes realizou stints curtos com Russell e Kimi Antonelli. De duros, conseguiu o melhor deles com o italiano, que obteve média de 1min38s6 em oito voltas. Já com os macios, usados por Russell, chegou a 1min39s6 de média em seis voltas sequenciais.

Quando olhamos para os números de Isack Hadjar, que perdeu toda a manhã de quinta-feira por um vazamento hidráulico no chassi, a consistência também impressiona. A simulação de corrida com os médios trouxe médias de 1min41s1 e 1min40s1, enquanto as voltas com os macios renderam 1min38s6.

A Mercedes deixou os long runs para o último dia, e completou 17 voltas com 1min40s9 de média com Russell de pneus macios. A performance com os médios, porém, foi melhor: 1min39s7 como referência, também em stint de 17 voltas. Com os duros (não usados por Hadjar), George deu um total de 19 giros sequenciais com média de 1min39s2. Antonelli fez stints mais curtos na simulação de corrida, mas as 14 voltas de macios tiveram 1min40s0 de média, ao passo que 1min38s5 foi a referência encontrada com os compostos duros após 12 giros em série.

Testes da F1 no Bahrein: comparativo de stints entre Red Bull e Mercedes (dia 1)

VERSTAPPEN (INTEGRAL)+ANTONELLI (MANHÃ)*RUSSELL (TARDE)¨
Médios+Duros+Macios+Macios+Duros*Duros*Duros¨Duros¨Macios¨Macios¨Macios¨
38.18437.42737.25237.09839.17639.99641.74038.79339.81638.99640.602
38.45837.73437.47637.80239.06038.48342.61738.39939.37439.24939.593
38.92638.06637.51137.51038.63437.93840.80038.89539.32942.40239.384
38.55137.86737.65137.92138.75137.97240.39138.88539.72639.93140.550
39.31837.84538.21437.87440.52437.93741.38741.16039.56140.88239.986
38.83837.86538.09537.73638.55839.28239.67140.08140.54940.999
39.07938.05938.23937.70238.32838.76440.51339.64841.23141.461
39.09438.14838.71837.66339.00438.90639.47440.46340.368
38.99138.32238.67538.660
39.59337.92638.884
38.90338.072
+ stints Verstappen/ *stints Antonelli/ ¨stints Russell

De fato, considerando o visto no primeiro dia, a Red Bull conseguiu ser 1s mais rápida, em média, do que a Mercedes com os pneus duros e macios. A fala de Wolff, portanto, é justificada pelos dados obtidos de tempo de volta, mas há outros aspectos a serem analisados também com base somente no primeiro dia. O perfil Formula Data Analysis checou dados de telemetria dos pilotos e constatou que Verstappen chegou aos 344 km/h na quarta-feira, marca que não foi alcançada por mais ninguém nas demais atividades.

Agora, o curioso é ver que a segunda colocada da lista entre as equipes é a Racing Bulls, com 339 km/h. Isso significa que a unidade de potência Red Bull Ford Powertrains alcançou média de 341.5 de velocidade máxima.

“Em volta única já tínhamos visto algo assim antes. Mas agora vimos isso ao longo de dez voltas consecutivas, com o mesmo nível de velocidade em linha reta. Diria que, neste momento, no primeiro dia oficial de testes, eles estabeleceram a referência”, disse Wolff no Bahrein. “Esperava que estivessem em situação pior do que realmente estão, porque fizeram um trabalho muito bom. O carro e o motor deles são a referência no momento. E, claro, ainda há Max no carro. Essa combinação é forte”, concluiu.

Agora vejamos o comparativo das voltas em série que Verstappen deu no primeiro dia com as do terceiro dia da Mercedes, que contou com as simulações de corrida tanto de Russell quanto de Antonelli.

Testes da F1 no Bahrein: comparativo de stints entre Red Bull (dia 1) e Mercedes (dia 3):

VERSTAPPEN (INTEGRAL, DIA 1)+ANTONELLI (TARDE)*RUSSELL (MANHÃ)¨
Médios+Duros+Macios+Macios+Macios*Duros*Macios¨Médios¨Duros¨
38.18437.42737.25237.09839.85338.46640.47138.68938.252
38.45837.73437.47637.80239.89338.67839.77038.87837.913
38.92638.06637.51137.51039.83738.37739.86439.78838.226
38.55137.86737.65137.92139.98138.42740.65139.08638.221
39.31837.84538.21437.87439.88138.39940.41439.68839.126
38.83837.86538.09537.73639.88838.42640.68639.46439.145
39.07938.05938.23937.70239.94738.17140.52239.82839.978
39.09438.14838.71837.66339.89038.87040.74439.48139.286
38.99138.32238.67539.77938.79840.81939.62139.040
39.59337.92638.88439.88638.56940.86239.69839.124
38.90338.07240.15138.71340.95639.83439.503
40.21538.67741.02539.93839.725
40.58838.54840.92240.00639.435
40.52441.17140.24239.389
40.02241.29040.05939.175
41.86040.53140.092
44.91840.57139.427
40.99739.73040.216
40.425
39.247
+ stints Verstappen/ *stints Antonelli/ ¨stints Russell

Os tempos mais altos da Mercedes também são completamente justificáveis considerando o número de voltas bem acima das completadas por Verstappen em cada stint — de forma bem simplista, é possível constatar que o carro estava mais pesado por causa da quantidade de combustível. Vejamos, então, o que a comparação com os long runs de Hadjar pode dizer:

Testes coletivos da F1 no Bahrein: comparativo de stints entre Red Bull (dia 2) e Mercedes (dia 3)

HADJAR (TARDE)+ANTONELLI (TARDE)*RUSSELL (MANHÃ)¨
Macios+Médios+Médios+Macios+Macios*Duros*Macios¨Médios¨Duros¨
40.45940.33138.88838.15439.85338.46640.47138.68938.252
40.34140.05340.38138.01839.89338.67839.77038.87837.913
40.87440.16039.68337.77439.83738.37739.86439.78838.226
40.01440.88039.60537.92239.98138.42740.65139.08638.221
43.34441.17639.94138.75239.88138.39940.41439.68839.126
41.00641.13840.26639.39439.88838.42640.68639.46439.145
41.39640.45138.70639.94738.17140.52239.82839.978
40.93940.03239.03339.89038.87040.74439.48139.286
40.77040.23039.02939.77938.79840.81939.62139.040
40.66041.91439.00539.88638.56940.86239.69839.124
41.28940.39939.65940.15138.71340.95639.83439.503
41.28640.49338.67740.21538.67741.02539.93839.725
41.65740.19040.58838.54840.92240.00639.435
41.23140.52441.17140.24239.389
41.14940.02241.29040.05939.175
43.57541.86040.53140.092
41.10644.91840.57139.427
40.99739.73040.216
40.425
39.247
+ stints Hadjar/ *stints Antonelli/ ¨stints Russell

Russell teve um desempenho sólido com os pneus médios, com voltas consistentes na casa de 1min39s, enquanto Hadjar completou um stint de 16 giros em 1min41s1 de média. Já o francês foi bem mais rápido de macios, ainda que em sequência menor de voltas. Mas, novamente, nem Red Bull e nem Mercedes usaram o motor na potência máxima no Bahrein, como bem destacou o diretor-técnico dos taurinos, Pierre Waché, em coletiva acompanhada pelo GRANDE PRÊMIO.

“É difícil afirmar com certeza que somos a referência. Vemos claramente as três melhores equipes, Ferrari, Mercedes e McLaren, à nossa frente. Pelo que analisamos, parece que estamos atrás, mas é onde nos encontramos no momento. Acho difícil falar sobre as outras equipes porque o plano de corrida de cada uma, o nível de combustível e a potência que utilizam são difíceis de entender. Mas não dedicamos muito tempo a isso. Apenas tentamos nos concentrar em como melhorar nosso trabalho”, disse, reconhecendo, por fim, o notável trabalho alcançado em menos de quatro anos.

“Estou surpreso com o trabalho fantástico que a equipe de motores fez, conseguindo montar um carro e rodar tantos quilômetros. Não vou dizer que somos a referência, porque acho que todos aqui sabem que é uma competição acirrada. Mas também precisamos reconhecer o trabalho fantástico que a equipe de motores fez e o fato de, sendo uma startup, com apenas três anos e meio de experiência com motores problemáticos, conseguir não cometer erros na pista é uma conquista enorme”, encerrou Waché.

Enquanto todos ainda escondem as cartas — até pela incerteza quanto ao que a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) vai decidir sobre a taxa de compressão do motor —, o jogo segue no campo psicológico, com trocas de gentilezas que claramente não têm a intenção de elevar a autoestima do adversário, mas sim jogar pressão até a Austrália.

Fórmula 1 volta de 18 a 20 de fevereiro, também no Bahrein, com a segunda e última bateria de testes coletivos da pré-temporada 2026. Depois, segue para a Austrália, palco da abertura do campeonato, em 8 de março.

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