Suzuka expõe novas regras em meio a duelo interno na Mercedes e esperança na McLaren

Embora rápido e instigante, o circuito de Suzuka ainda representa uma barreira às ultrapassagens na F1. Ou representava, porque a corrida deste domingo tende a responder perguntas importantes do novo regulamento. E isso tudo dentro de um cenário de uma disputa interna na Mercedes, enquanto a McLaren tenta se posicionar no jogo e enfrenta uma oscilante Ferrari

Depois de Austrália e China, a Fórmula 1 enfrenta neste fim de semana um desafio mais real no que diz respeito ao regulamento 2026. Primeiro, porque a sessão de classificação precisou ser ajustada com relação ao uso do sistema elétrico, mas pouca diferença fez neste sábado (28), e isso provocou uma nova onda de frustração entre os pilotos. É que, tradicionalmente, Suzuka é um dos traçados de mais difícil ultrapassagem do calendário. Além disso, a alta velocidade e a complexidade de suas curvas sempre foram os pontos fortes do autódromo japonês, mesmo em corridas mais monótonas e previsíveis. Agora, diante dos recursos para melhorar a disputa em pista, a sensação é de que o GP do Japão também será um divisor de águas desta nova era do Mundial — para o bem e para o mal. Tudo isso em um cenário em que a dominante Mercedes já se vê em um potencial enredo interno dos mais apimentados, enquanto as rivais buscam um lugar ao sol.

Antes de mais nada é preciso dizer: a classificação no Japão expôs novamente as medidas de 2026. O caso é que, por conta do gerenciamento da energia, os pilotos sentem que o desafio de alcançar o limite nas voltas lançadas foi reduzido drasticamente e que não há mais um elemento de risco neste ponto, porque os carros perdem velocidade e ação em curva. Até por isso a Federação Internacional de Automobilismo decidiu diminuir a recuperação máxima de energia em Suzuka. Mas a margem foi mínima, porque os competidores continuaram a perder potência nas retas, muito antes do ponto de freada, além de experimentarem uma performance errática em curvas. A situação é tão constrangedora que a F1 evita exibir imagens das onboards dos carros em trechos mais críticos, por causa da intensa queda de velocidade.

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“Ainda dói na alma ver a velocidade cair tanto, algo em torno de 56 km/h na reta”, reconheceu Lando Norris. Já Charles Leclerc foi mais enfático. “Sinceramente, não suporto a classificação, é uma puta de uma piada! Sou mais rápido nas curvas, acelero mais cedo e, porra, estou perdendo tudo nas retas!”, desabafou. “Isso é muito frustrante porque a classificação consiste em tentarmos encontrar o limite e jogar no limite, mas, no momento, sempre que você joga no limite, é destruído nas retas”, completou o monegasco.

Dito isso, o domingo será também outro ponto de atenção. Porque as novas regras criaram recursos para facilitar as trocas de posição, justamente neste trabalho de carregar e recarregar a energia/frenagens, mas Suzuka é uma pista menos óbvia deste pontos de vista, então a tendência é que muita gente enfrente problemas, o que deve provocar ultrapassagens. Mas se realmente for esse o caso é prudente colocar na balança também a razão, porque a frustração dos pilotos com a queda repentina de ritmo também será sentida.

E é em meio a esse cenário que a F1 caminha para mais uma corrida em que a Mercedes parte favorita. Mais uma vez, há uma dobradinha na primeira fila, com Kimi Antonelli à frente de George Russell. Enquanto o italiano navegou em águas mais calmas durante toda a classificação, para cravar a segunda pole consecutiva na temporada, o líder do campeonato enfrentou mais problemas, especialmente diante da configuração do W17, que perdeu aderência e velocidade — especialmente no trecho final do circuito. Ainda assim, o desempenho em condição de corrida das Flechas de Prata é invejável. Quase 1s melhor que a concorrência em cima dos pneus médios. O que chama atenção aqui é o potencial duelo entre os dois companheiros de equipe.

George segue favorito, mas Kimi tem se mostrado cada vez mais forte e em um lugar mais confortável. Ou seja, da posição livre de pressão. Então, a única ressalva é realmente a largada. Na China, o italiano saltou bem da pole, mas acabou perdendo posição para a Ferrari. Russell teve um início tumultuado, mas também pôde se recuperar, apesar de perder a batalha contra o colega de garagem. Agora, surge uma nova chance de embate.

Kimi Antonelli ficou com a pole-position no Japão (Foto: Mercedes)

Enquanto isso, a McLaren e a escuderia vermelha dividem as fila seguintes do grid e a tendência é também de uma briga intensa entre elas. A esquadra laranja renasceu em Suzuka e parece muito mais forte, especialmente nas curvas, onde ganha do carro vermelho. “Acho que há sinais de progresso em termos de desempenho e competitividade geral. Acredito que esse crescimento vem do fato de estarmos extraindo mais do chassi, graças ao trabalho feito no acerto. Mas, acima de tudo, estamos tirando mais da unidade de potência. Sempre dissemos como é difícil explorar totalmente essa nova geração de unidades de potência, mas estamos ganhando confiança”, admitiu Andrea Stella, chefão da McLaren.

“A Ferrari mostrou que tem um ritmo um pouco melhor na corrida. Então, ficaria muito surpreso se conseguíssemos brigar pelo pódio. Vimos uma evolução neste fim de semana, então certamente estaremos na disputa, mas ainda é uma corrida e tudo pode acontecer”, emendou.

Mas há um inimigo perigoso ali entre os papaias, que é a confiabilidade. Depois de abandonar com os dois carros em Xangai, há duas semanas, o time inglês viu Norris sofrer durante o fim de semana e vai largar em quinto, enquanto Oscar Piastri, em um dia mais livre de falhas, obteve a terceira posição. Já Leclerc vai largar de quarto, com Lewis Hamilton em sexto. E é aqui o time de Maranello leva vantagem. O apagar das luzes será crucial.

“Com esse regulamento, a largada é sempre caótica e, em corridas anteriores, isso nos permitiu brigar com a Mercedes durante parte da prova. No entanto, sempre tivemos mais dificuldades quando perdíamos a capacidade de usar o modo de ultrapassagem. Mesmo assim, o ritmo de corrida que mostramos ontem pareceu muito bom. Vamos esperar para ver em que condições estaremos e então veremos o que podemos fazer”, afirmou o chefe ferrarista, Frédéric Vasseur.

Charles Leclerc é o quarto no grid e prepara nova largada para pegar Mercedes (Foto: Ferrari)

Em termos de estratégia, o GP do Japão deve ser mesmo resolvido com uma parada apenas, mas os três compostos de pneus podem ser usados. “As duas combinações, médio-duro e macio-duro, são muito próximas em termos de tempo total de corrida, embora acreditemos que as equipes optarão pela primeira opção, mais conservadora”, revelou Mario Marrafuschi, diretor da Pirelli.

“O uso do pneu C3 proporciona maior aderência na largada e pode oferecer vantagem para aqueles que optarem por explorar a distância entre o grid e o primeiro ponto de frenagem para ganhar posições sobre os rivais. Nesse cenário, a janela de pit-stop vai da volta 13 à 19, duas voltas antes em comparação com a solução de mistura médios-duros.”

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