Por que ação de ex-funcionária expõe escândalo e indica dono secreto na Williams
A demissão de Claudia Schwarz, ex-CMO da Williams, expõe uma batalha judicial com acusações de desvio de dinheiro, racismo contra artistas, homofobia e a probabilidade da equipe ter um dono secreto
A Williams vive uma disputa complexa entre a Dorilton Capital, grupo financeiro que gerencia o time desde 2020, e Claudia Schwarz, ex-executiva demitida em 2022. Em ação legal movida no estado americano da Flórida em agosto de 2023, Schwarz alega ter sido dispensada após expressar preocupações com sexismo e racismo direcionados a ela, com acusações que envolvem também a fundação de Lewis Hamilton e até cantores contratados para um show privado. O processo, que desembola um caso seríssimo por si só no que diz respeito à reclamante ainda indica algo totalmente desconhecido nos círculos da F1: a de que a Williams tem um dono misterioso que apenas utiliza a Dorilton como testa de ferro.
Claudia foi contratada como diretora de marketing da Williams em 2021, pelo antigo chefe de equipe Jost Capito, que buscou a agência Stilus, de Schwarz, para reformular a marca do time. Ambos trabalharam juntos na Volkswagen. Em novembro daquele ano, ela concordou em se tornar a diretora de marketing interina e mudou-se com sua família da Alemanha para as Bermudas, onde a Williams afirmou que estava alocando ativos em uma nova empresa, a Williams IP Holdings, e precisava de alguém para a equipe.
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De acordo com o processo, Schwarz alega que o relacionamento com a Dorilton se deteriorou depois de expressar preocupação com a forma como a empresa conduzia seus negócios nas Bermudas e questionou a legalidade dos contratos firmados.

Schwarz foi demitida em novembro de 2022. Segundo uma longa reportagem publicada pelo jornal inglês The Guardian, nenhuma razão foi dada para a dispensa da executiva, que pouco depois concordou com um acordo de indenização que afirma nunca ter sido cumprido. Meses depois, entrou com um processo por quebra de contrato.
Em maio de 2023, a Dorilton também abriu um processo em Nova York alegando que Schwarz se apropriou indevidamente de US$ 6,9 milhões (R$ 34 milhões, segundo a cotação atual) em despesas e taxas inflacionadas, e que Darren Fultz, CEO da holding, ignorou a suposta fraude. Esses custos incluíam reservas de voos e hotéis, além de taxas que ela cobrou da Dorilton por serviços prestados por sua própria agência, a Stilus
De acordo com a acusação, havia um “relacionamento impróprio” entre Schwarz e Fultz, que negaram as acusações, com Claudia argumentando que o então CEO sequer era seu chefe direto na época. A ex-executiva também nega as alegações de fraude, salientando que a acusação surgiu apenas depois de ela ter entrado com um processo por quebra de contrato.
Um dos capítulos mais escandalosos da história vem na sequência. Pouco após o processo movido pela Dorilton, a revista britânica Business F1 publicou uma matéria com a manchete “Uma raposa que se infiltrou na Williams”, com Claudia descrita como dona de “uma atratividade sedutora combinada a extrema confiança, que usa encantos femininos para conseguir uma oportunidade e, quando tem um homem em vista, é melhor que ele tome cuidado, porque quando está em modo charme, tem uma aura irresistível”.

Schwarz alega que, quando a Business F1 publicou as alegações, as consequências foram imediatas, perdendo um negócio construído por 25 anos e sendo forçada a demitir todos os funcionários de suas empresas. Em documentos judiciais, alega que a Dorilton estava por trás da matéria, num esforço clássico de assassinato de reputação. O grupo nega.
A Dorilton reiterou suas alegações de que Schwarz e Fultz mantinham um relacionamento impróprio. Durante depoimento, o advogado de Claudia perguntou a Matthew Savage, presidente da holding, como ele sabia que um relacionamento impróprio estava, de fato, em curso. Savage respondeu com evidências frágeis, como uso de emojis que, comprovadamente, a então diretor de marketing usava comumente em conversas via mensagens com outros membros da equipe. Sem mais a retrucar, Savage respondeu que não tinha conhecimento dessas correspondências, mas que era possível Schwarz ter “manipulado” Fultz.
Claudia e Fultz negam qualquer relacionamento impróprio e sexual. Em vez disso, alega no processo que foi demitida após desentendimentos com executivos da Dorilton e com um dos protagonistas da história. Um homem misterioso chamado Peter de Putron, bilionário que se faz presente na vida da equipe. A Dorilton garante que é um investidor, mas Schwarz alega se trata do verdadeiro dono do time na F1.
De Putron, de 62 anos, que construiu sua imensa fortuna através do quant trading — um método matemático baseado em algoritmos e inteligência computacional para prever flutuações e automatizar transações financeiras em frações de segundo. Avesso a qualquer tipo de exposição pública ou holofotes, De Putron distribui suas participações societárias no que o Guardian qualifica como “uma opaca rede de empresas de fachada, fundos e holdings sediados em paraísos fiscais de difícil rastreamento”. A Dorilton lutou obstinadamente na Justiça para impedir que o bilionário fosse intimado a depor, alegando que não possuía gerência direta sobre a equipe de Fórmula 1.
A tese de investidor passivo ruiu em outubro de 2025, contudo. Foi quando o juiz do caso, Andrew Borrok solicitou formalmente à Corte Real de Jersey a intimação de De Putron para depor. Até ali, nos primeiros quase dois anos de ação, o bilionário era implicado como terceira parte e até o nome dele podia ser escondido nos autos públicos do processo. Entretanto, na decisão do fim do ano passado, confirmada por unanimidade por um painel de cinco juízes em recurso de apelação, o tribunal destacou que o bilionário, que vive no paraíso fiscal de Jersey — território localizado no Canal da Mancha e que pertence ao Reino Unido —, estava íntima e diretamente envolvido na gestão diária da Williams e participou pessoalmente da demissão da diretora. “Está claro agora que é simplesmente inapropriado que os querelantes escondam o nome do Sr. De Putron tendo como base de que se trata dum mero investidor passivo”, decretou o juiz.

O depoimento juramentado de De Putron promete expor um homem que faz de tudo para apagar seus rastros digitais. Em depoimento de seu próprio processo trabalhista contra a Dorilton, o ex-CEO Darren Fultz revelou que não existem fotos de De Putron na internet e que os funcionários eram expressamente proibidos de pronunciar o nome do magnata nos escritórios e reuniões da Williams.
Nas comunicações criptografadas via aplicativo Signal e videoconferências de trabalho, era tratado apenas sob as misteriosas alcunhas de “A” ou “AA”. Entre a alta cúpula da Dorilton, no entanto, o apelido que corria de boca em boca era muito mais irônico e revelador: “Our Dear Leader” (Nosso Querido Líder, em tradução livre). Ou simplesmente ODL.
O nível de sigilo chegava a patamares quase cômicos. Fultz revelou em juízo que, em rara visita à sede da Dorilton em Nova York, o crachá de segurança confeccionado para De Putron entrar nos escritórios trazia a foto e o nome do famoso ator norte-americano Ralph Macchio, o eterno Daniel Larusso da franquia de cinema Karate Kid.
Quando resolveu entrar com o processo, em 2023, Schwarz ingressou com ação por difamação que implicava a Business F1, a Dorilton e a própria Fórmula 1, uma vez que licencia o nome para a revista acusada. A categoria posteriormente chegou a um acordo confidencial para encerrar sua participação no caso. Claudia concordou em retirar a ação contra a holding e desistiu do processo contra a revista.
No final de 2025, porém, voltou a carga e entrou com uma contra-ação no estado de Nova York contra a Dorilton por sua demissão e incluiu De Putron como réu, alegando que ele interferiu em seu contrato e supervisionou a matéria da Business F1 porque ela se recusou a cumprir ordens dele que considerava discriminatórias e continuou fazendo perguntas sobre as operações da Williams nas Bermudas. Há, em suma, dois processos em andamento no mesmo tribunal estadual de Nova York. Em um deles, a Dorilton processa Schwarz por quebra de contrato e fraude, alegando que ela cobrou indevidamente US$ 6,9 milhões. No outro, Schwarz processa a Dorilton, De Putron e a Williams IP Holdings por difamação e por reclamações decorrentes de sua demissão e da reportagem da Business F1.
No processo, alegou que “reclamou de diversas práticas comerciais da equipe Williams por meio de seu proprietário, Peter de Putron, no que diz respeito ao marketing. Isso incluía reclamações sobre a maneira como os contratos e as operações comerciais estavam sendo conduzidos no país das Bermudas, reclamações sobre a insistência do réu Peter de Putron em que a equipe Williams não fosse comercializada para o público preto e a comunidade LGBTQIA+ [e] reclamações sobre a proibição de participação em doações/apoio à UNICEF, juntamente com todas as outras equipes de F1, para as vítimas da guerra na Ucrânia.”

A Dorilton argumentou. “Schwarz também alega que o presidente da Dorilton, Matthew Savage, disse a certos investidores e funcionários afiliados que ‘Schwarz estava tendo um caso com Darren Fultz’. Mesmo supondo que tais declarações tenham sido feitas (o que não aconteceu), elas não são passíveis de ação judicial”.
Há ainda mais uma ação, essa por quebra de contrato no tribunal federal dos EUA contra Williams e Savage, mas o caso está atualmente suspenso e aguardando o resultado dos processos no estado de Nova York.
Em janeiro deste ano, Dorilton e De Putron apresentaram primeira moção para arquivar o processo de Schwarz contra a empresa, argumentando que o processo dela é uma resposta frágil ao processo movido por eles. Os dois processos podem ser unificados, já que nenhuma data de julgamento foi definida para nenhum deles. Já em abril, Claudia reativou a ação contra a revista Business F1, entrando com um processo independente por difamação no estado da Flórida. O tribunal local agendou uma data de julgamento para junho de 2027.
A revista parece estar inativa e, em um documento judicial recente, a Dorilton descreveu a publicação como “agora extinta”. O site da Business F1 não registra publicações desde julho de 2025. O GRANDE PRÊMIO apurou que o Business F1 efetuou o registro de criação da companhia junto à Companies House, órgão do governo britânico responsável por legalizar e ordenar qualquer empresa no país, em 30 de junho de 2020, pouco menos de dois meses antes da oficialização da venda da Williams para a Dorilton Capital. Ainda de acordo com o governo britânico, a companhia encontra-se agora liquidada. Ou seja, passou pelo encerramento das operações e venda de ativos.
Em determinado trecho do processo, Schwarz afirma que “descobriu-se, eventualmente, que Peter de Putron havia estabelecido a operação nas Bermudas para obter benefícios fiscais pessoais. No entanto, essas operações não estavam sendo conduzidas de acordo com a lei das Bermudas.”

Já em moção para arquivar o processo de Schwarz, apresentada em abril deste ano, De Putron descreveu o caso como “pura ficção” e argumentou que, mesmo considerando os fatos apresentados, “a queixa não oferece nenhuma alegação factual que sustente a inferência de que esses supostos motivos tenham qualquer relação com a rescisão dos contratos em questão”, afirmou.
Outro incidente alegado por Schwarz nos autos do processo a levou a fazer reclamações que culminaram na demissão. A história da publicitária é corroborada por Fultz em depoimento ao tribunal, mas amplamente contestada por De Putron e Dorilton. Segundo Schwarz, o bilionário contestou firmemente a composição demográfica do evento e a presença de artistas negros no Paddock Club.
Fultz alega que De Putron queria que Wyclef Jean e Shaggy, os artistas que se apresentaram em evento na área de hospitalidade da Williams, fossem desconvidados do Paddock Club, o exclusivo espaço de convivência da Fórmula 1, durante o GP dos Estados Unidos de 2022. De Putron, segundo Fultz, opunha-se à presença de pessoas negras em eventos de hospitalidade. Afirma ainda que apresentou Schwarz a De Putron para que ela pudesse expressar suas preocupações sobre o que considerava instruções discriminatórias.
Schwarz, em sua queixa, alega que foi depois de reclamar das diretrizes de marketing na corrida de Austin que De Putron ordenou a demissão. Pouco depois da corrida, o CEO da Dorilton, Bjorn Bergabo, disse em videochamada com a equipe de hospitalidade e marketing de Schwarz, de acordo com o processo, que “o investidor estava furioso e deixou claro ‘que esse não é o tipo de pessoa que ele e o conselho querem ver no Paddock Club’. Ele ainda disse que era constrangedor que [Wyclef] Jean e Shaggy ousassem se aproximar da mesa dele, do Sr. Bergabo e do Sr. Savage, para agradecê-lo pelo convite.”
Peter de Putron, em sua petição para arquivar o processo de Schwarz, descreve as alegações como “afirmações incendiárias sobre as supostas opiniões ‘pessoais'”, “fabricadas” e “concebidas mais para distorcer o registro público do que para apresentar uma alegação viável”.
Claudia Schwarz alega que outro motivo para o relacionamento com a Dorilton ter desabado foi o fato de De Putron ter bloqueado os planos de marketing para a comunidade LGBTQ+, que incluíam a inclusão de símbolos do orgulho LGBTQ+ na pintura do carro, em parte devido a um possível patrocínio da petrolífera Gulf Oil — que conta com importantes investidores com origem na Arábia Saudita —, mas também devido a crenças pessoais.

“O Sr. De Putron instruiu a autora da ação… sobre as mudanças que desejava para o veículo, alegando que não poderiam ter nenhuma ativação voltada para a comunidade LGBTQ+, pois os sauditas não aceitariam e afirmavam que ‘ainda matam gays e lésbicas lá’ e que ‘de qualquer forma, não apoiaríamos essa bobagem LGBTQ+’”, alega. Claudia argumentou que isso era contraproducente. “Limitar o marketing com base em raça e orientação sexual limitaria as receitas em vez de aumentá-las.”
Schwarz também alega que expressou preocupação com a decisão de De Putron de impedir que a Williams se juntasse à Comissão Lewis Hamilton, que auxilia minorias que desejam trabalhar ou competir no automobilismo. Mais ainda: ter dito a Fultz e Capito que preferia “vender a equipe” a permitir que a Williams fizesse parte da comissão.
O magnata nega as alegações, mas defende que mesmo que fossem verdadeiras a reclamante admite que quaisquer decisões desse tipo foram “orientadas para os negócios” – portanto, não dão origem a nenhuma alegação válida de que se tratou de algo de cunho pessoal. Mesmo que o tribunal aceitasse suas alegações como verdadeiras, “De Putron agiu para proteger seu suposto interesse econômico no sucesso comercial da equipe”.
A Dorilton garante que decidiu pela demissão não apenas por causa do suposto desfalque e relacionamento ilícito, mas também por seu baixo desempenho. A empresa, que também acusa Claudia de criar um ambiente de trabalho hostil, encomendou um relatório de 132 páginas da empresa de marketing e publicidade Harper Litigation Consulting and Research LLC, que consta nos autos do processo. A Dorilton pagou US$ 750 — R$ 3,8 mil — por hora pelo trabalho.
O relatório alega que “Schwarz não desempenhou o papel de diretor de marketing (CMO) de forma adequada e eficaz”, não “desenvolveu profissionalmente a estratégia da marca Williams Racing” e “cobrou valores excessivos dos demandantes e apresentou faturas sem a documentação usual”. Harper acrescentou: “Como profissional experiente nas áreas de marketing e relações públicas, minha conclusão é que os réus [Schwarz] não chegaram nem perto de fornecer aos demandantes serviços de marketing e relações públicas que estivessem em conformidade com as melhores práticas do setor ou no nível de habilidade e cuidado razoáveis que se esperaria de um fornecedor competente e profissional de serviços de marketing e relações públicas.”
No entanto, a tese de incompetência técnica cai por terra diante do depoimento de Jost Capito. O experiente dirigente alemão, que comandou a Williams na época, saiu em defesa de sua ex-funcionária: “Acompanhávamos o desempenho semanalmente de todas as equipes e Claudia entregou absolutamente todos os KPIs dentro do orçamento. Baseado na minha experiência com ela, não acredito que nenhuma das acusações seja verdadeira.”
“A cultura lá parecia um clássico clube dos garotos, onde as mulheres eram tratadas como objetos. Eu fazia meu trabalho e entregava resultados, mas depois que fui demitida, alegaram que eu havia começado um caso com o CEO e ganhado milhões com isso. Na realidade, e confirmado por documentos judiciais, o Sr. Fultz nunca assinou meus contratos – eu nem o conhecia pessoalmente na época”, disse Claudia.
A Fórmula 1 volta neste fim de semana, de 5 a 7 de junho, com o GP de Mônaco, sexta etapa da temporada 2026. O GRANDE PRÊMIO acompanha todas as atividades AO VIVO E EM TEMPO REAL, além de classificação e corrida em SEGUNDA TELA no YouTube, em parceria com a Voz do Esporte. O Briefing chega para analisar após o fim de cada dia de atividades nas redes sociais e na GPTV.
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| Sessão | BRA* | CBV | POR ANG | MOZ |
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| Treino livre 2 | 12:00 | 14:00 | 16:00 | 17:00 |
| Treino livre 3 | 07:30 | 09:30 | 11:30 | 12:30 |
| Classificação | 11:00 | 13:00 | 15:00 | 16:00 |
| Corrida | 10:00 | 12:00 | 14:00 | 15:00 |
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