Fittipaldi aproveita caos alheio e transforma consistência em liderança na Indy NXT
Enzo Fittipaldi tem equipamento competitivo, mas longe de ser o melhor da Indy NXT. Oportunismo tem sido crucial para brasileiro se tornar líder da categoria
Enzo Fittipaldi assumiu a liderança da temporada 2026 da Indy NXT com a vitória na etapa de Detroit, a sétima do campeonato. Quem observa apenas a tabela de pontuação pode concluir que o brasileiro dispõe do melhor equipamento do grid e colhe os frutos dessa vantagem. No entanto, quem acompanha a categoria de perto sabe que a realidade é diferente. Longe de ter o carro mais competitivo, Fittipaldi vem extraindo praticamente tudo o que a HMD consegue oferecer, combinando consistência, inteligência estratégica e oportunismo em meio ao caos alheio para se consolidar como um dos principais candidatos ao título da principal categoria de acesso à Indy.
Em tempos de Copa do Mundo, é possível traçar um paralelo com aquele atacante oportunista que nem sempre participa das jogadas mais vistosas, mas está constantemente no lugar certo para transformar oportunidades em resultados. Desde os tempos de Caio Collet, a HMD possui um equipamento competitivo, capaz de brigar por pódios e vitórias, mas sem o desempenho dominante que tradicionalmente caracteriza a Andretti. Ainda assim, a diferença entre as equipes parece menor em 2026, permitindo que pilotos capazes de maximizar suas oportunidades permaneçam na disputa.
A única grande exceção na temporada foi a etapa de abertura, em St. Pete, quando Fittipaldi bateu durante a classificação e precisou largar do fundo do grid. Desde então, porém, o brasileiro praticamente não deixou pontos importantes pelo caminho.
Em Arlington, por exemplo, assumiu a liderança após a confusão da largada que eliminou o pole-position Alessandro de Tullio. Permaneceu na ponta durante boa parte da corrida, mas acabou superado por Max Taylor, cujo carro da Andretti apresentava um ritmo superior. Ainda assim, garantiu um resultado consistente e importante para a campanha.
Outra demonstração de maturidade veio na rodada dupla do Alabama. Sem velocidade suficiente para acompanhar os líderes, Fittipaldi apostou novamente na regularidade. Largando em quarto na corrida 1, avançou para a segunda posição. Na prova que encerrou o fim de semana, saiu de sexto e ganhou mais duas colocações, somando pontos valiosos em um cenário que, teoricamente, não era dos mais favoráveis.

Indianápolis marcou aquele que talvez tenha sido o melhor desempenho de sua carreira. Após largar apenas em décimo na corrida 1, Fittipaldi venceu pela primeira vez na Indy NXT. É verdade que acidentes entre os rivais contribuíram para abrir o caminho, mas o brasileiro também fez sua parte com uma atuação impecável, escapando das confusões e protagonizando ultrapassagens decisivas tanto no seco quanto no molhado. Na segunda corrida da rodada, repetiu a receita: largou em sétimo e cruzou a linha de chegada em terceiro.
Pouco antes de Detroit, comentei com Caio Cavalcante, companheiro de cobertura da Indy, que Fittipaldi talvez não tivesse o equipamento ideal para liderar a disputa pelo campeonato, mas possuía uma característica fundamental para permanecer vivo na luta pelo título: a capacidade de aproveitar oportunidades, especialmente em uma categoria de base marcada por erros, acidentes e oscilações de desempenho.
Entre opiniões mencionáveis e outras nem tanto, nossa conversa acabou antecipando alguns dos acontecimentos da etapa de Detroit, incluindo a possibilidade de incidentes na largada — embora não na proporção vista na corrida, que envolveu diversos pilotos. O próprio Fittipaldi foi um dos afetados e precisou completar toda a prova com o bico danificado, condição que comprometeu significativamente o equilíbrio e o ritmo do carro.
Mesmo assim, não desistiu. E foi justamente nesse cenário que sua leitura de corrida fez a diferença. Durante uma das relargadas, ocupando a terceira posição, Fittipaldi percebeu que Myles Rowe tentaria um ataque agressivo sobre Tymek Kucharczyk. Antecipando o movimento, preparou o carro para reagir à possível disputa. A previsão se confirmou quando Rowe espalhou na tentativa de ultrapassagem, abrindo espaço para que o brasileiro superasse ambos e assumisse a liderança da prova.

No fundo, a campanha de Fittipaldi em 2026 é fruto da combinação entre talento, experiência e maturidade. Depois de passar por diferentes categorias na Europa e nos Estados Unidos, o brasileiro parece ter encontrado na Indy NXT o equilíbrio necessário para transformar velocidade em resultados. Sem necessariamente possuir o melhor equipamento, vem construindo uma trajetória sólida e inteligente, baseada na maximização de cada oportunidade.
É justamente essa capacidade de extrair o máximo de cenários adversos que o coloca na liderança do campeonato. E, se mantiver esse nível de execução, Fittipaldi seguirá como um forte candidato ao título, conquista que, além do peso esportivo e curricular, pode representar o passo decisivo rumo à Indy. Afinal, em uma categoria em que velocidade costuma ser abundante, a diferença frequentemente está na capacidade de sobreviver ao caos — e, até aqui, ninguém tem feito isso melhor do que o brasileiro.
A Indy NXT retorna neste fim de semana com a etapa de Gateway, o primeiro oval da temporada. A largada está marcada para domingo (7), 22h (de Brasília, GMT -3).
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