Opinião GP: Ferrari erra e perde título para uma Mercedes que sabe ser campeã. Mas ao menos voltou à briga

O problema da vela de ignição, que tirou Sebastian Vettel do GP do Japão, não é a causa da muito possível perda do título da Ferrari em 2017. A verdade é que a equipe comete erros em momentos decisivos e não mostra mesma eficiência da Mercedes para virar o jogo em situações chave. E a história confirma os pecados da equipe italiana

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A TRANSIÇÃO DE CHEFIA, piloto e staff técnico pela qual a Ferrari passou entre o fim de 2014 e início de 2015 enfim surtiu efeito, dada a campanha nesta temporada. Por isso, antes de uma maior análise, é justo colocar isso. Muito bem, naquela época, Maurizio Arrivabene conduziu uma série de mudanças na maneira de trabalho dos italianos e trouxe o tetracampeão Sebastian Vettel para capitanear uma nova fase do time mais tradicional do grid da F1. O Mundial já vivia sob o domínio implacável da Mercedes, mas, mesmo assim, a equipe vermelha conseguiu três vitórias já no primeiro ano do alemão à frente do projeto. Não é que os homens de Maranello passaram a enfrentar os prateados, mas o carro realmente tinha potencial. Aí veio 2016 e um passo atrás, além do revés da perda do badalado engenheiro James Alisson primeiro para uma tragédia pessoal e depois para a concorrência. Mas isso não abateu a escuderia. Que soube, também é bom ressaltar, encontrar uma solução eficiente. 
 
A esquadra percebeu rapidamente os equívocos com o projeto e optou ainda muito cedo naquela temporada em trabalhar já para o carro de 2017, com todas as grandes mudanças sofridas no regulamento. O time também se voltou para si, promoveu seus engenheiros e criou um carro veloz e consistente. A pré-temporada revelou a força dos italianos, que seguiam trabalhando em silêncio em sua nova política. E o desempenho foi confirmado logo de cara. Sebastian venceu o GP da Austrália e assustou a Mercedes.
 
Só que a equipe alemã respondeu na sequência, com a um triunfo de Lewis Hamilton. E a partir daí o alemão e o inglês começaram a se colocar em um duelo, uma luta que a F1 pedia e precisava há muito tempo. Mas o cenário foi se desenhando mais a favor do primeiro. A constância de Vettel estava fazendo diferença maior. Enquanto Lewis se batia para entender o complexo e instável carro prateado, Seb ia acumulando vitórias, pódios e pontos importantes. Tanto é assim que Vettel encabeçou a tabela de classificação durante 12 etapas. Hamilton só conseguiu tomar a ponta na prova 13, depois de uma vitória maiúscula em Monza.
Sebastian Vettel (Foto: AFP)

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E não por acaso foi a partir daí que a equipe italiana começou a se perder. Na Itália, os carros vermelhos tiveram um inexplicável desempenho irregular tanto com pista seca (na corrida), como no asfalto molhado (na classificação). Foram presas fáceis, enquanto os rivais desfilaram em uma performance avassaladora. 
 
Aí a F1 foi a Singapura e lá, é justo mais uma vez dizer, a Ferrari ensaiou uma virada. Vettel conquistou uma pole espetacular, enquanto os rivais enfrentaram seus demônios. Mas a largada mudou tudo: Seb cometeu um erro de avaliação e se envolveu em um acidente com o próprio companheiro de time e Max Verstappen. Hamilton, que largava em quinto, passou ileso pela confusão e partiu para um triunfo inesperado. Duas semanas depois, o Mundial desembarcou na Malásia.
 
Em uma pista que, em tese, seria da Mercedes, Ferrari e Red Bull se agigantaram. Só que aí os italianos começaram a se deparar com a confiabilidade. Ou a falta dela. Falhas no motor dos carros tiraram a chance de uma vitória de Seb em Sepang. Já Hamilton minimizava o prejuízo. Só que aí os prateados trabalharam rápido. E, eficientes, fizeram os carros alemães chegarem em um nível de maior competitividade em Suzuka. 
 
A Ferrari não perdeu a chance de título no último domingo, no Japão, mas foi lá que ficaram mais evidentes as falhas do time e a diferença no trato com os problemas, especialmente na comparação com a Mercedes. Quando a equipe prata percebeu os problemas de confiabilidade e de acerto nas diferentes pistas, agiu de forma cirúrgica e apresentou soluções rápidas. Hamilton, por exemplo, nunca enfrentou questões semelhantes em corridas seguidas, e uma prova foi a avaliação feita com relação ao novo pacote aerodinâmico, que tinha falhas claras no circuito malaio, mas que funcionou perfeitamente em Suzuka. Além disso, os homens de Brackley trabalham bem as estratégias e raramente cometem equívocos. São meticulosos, como o próprio Lewis apontou. Ou seja, a Mercedes, apesar de sua pouca história, tem o caminho das pedras e sabe ser campeã.
Lewis Hamilton colocou um pá de cal nas chances da Ferrari (Foto: Mercedes)

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A esquadra italiana, por outro lado, peca por pequenos erros de operação e execução, como mostrou o episódio da vela. O time já sabia da falha desde que o momento em que o carro seguiu para o grid, mas não houve tempo para uma substituição. E a decisão tomada foi na pressa. O problema se agravou durante a corrida e provocou o abandono de seu principal piloto, mais um duro golpe. E difícil de digerir dado o cenário atual da disputa do título. Além disso, há o peso da história. A Ferrari não vence um título desde 2007, justamente com Kimi Räikkönen, que, na época, aproveitou a explosiva rivalidade entre Fernando Alonso e o mesmo Hamilton para faturas a taça.
 
Um ano depois, Maranello estava também na briga, mas decisões erradas tiraram Felipe Massa da disputa. Dois anos mais tarde, Alonso conduziu a escuderia a uma batalha pelo campeonato. De novo, erros táticos impediram a conquista. Quer dizer, novamente o time vermelho se vê às voltas com fantasmas do passado. E que agora são ainda mais assombrosos, dada a grande eficiência de seus concorrentes. 
 
Entretanto, não será o fim do mundo se a Ferrari perder o campeonato depois de um início tão forte. Assim como a história ferrarista mostra derrotas doloridas por erros e estratégias equivocadas, o retrospecto do time vermelho também revela vitórias importantes. Michael Schumacher, de onde certamente sai a inspiração de todos em Maranello, só faturou o Mundial de Pilotos na quinta temporada à frente dos vermelhos. Seb ainda está na sua terceira. É bem verdade que aquela estrutura formada ao redor do heptacampeão não existe atualmente, mas Vettel está cercado de um time que trabalha para ele. E tem capacidade suficiente para repetir os feitos de seu mentor. 

Ainda que com um erro não muito comum, a Ferrari está de volta à briga.

Opinião GP é o editorial do GRANDE PRÊMIO que expressa a visão dos jornalistas do site sobre um assunto de destaque, uma corrida específica ou o apanhado do fim de semana de automobilismo.
 
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