Coluna Apex, por Andre Jung: La lucha sigue

Tivemos algumas provas memoráveis esse ano, ainda assim o campeonato chega ao fim com queda de audiência e equipes quebradas. Os arrogantes não recuam e dane-se a coletividade. F1 também é política.

A pista construída em Austin não é de se jogar fora, o traçado tem um relevo muito bacana e as rápidas trocas de direção no primeiro setor exigem capricho no acerto e na tocada.  A mais nova tentativa da F1 de emplacar nos Estados Unidos sem dúvida merecia um espetáculo melhor do que a modorrenta corrida de domingo.
 
Dezoito carros durante os treinos viraram 16 depois da vacilada do Sergio Pérez ainda na primeira volta. Poucos carros e poucas disputas, pobre da rica F1. As previsões que diziam que algumas equipes não iriam chegar ao final da temporada se confirmaram, para azar da organização americana, que deve estar as voltas com problemas pra justificar tanto investimento.
Me desculpem os acadêmicos, mas imortal é o Bernie Eclestone (Ilustração: Marta Oliveira)

É engraçado pensar em “luta de classes” na F1; os pequenos sufocados pela ambição desmedida dos que já tem muito. Num filme que se repete, lá se vão Caterham e Marussia pro vinagre, provocando um rebuliço danado com explícitas ameaças de rebelião dos próximos candidatos ao facão.

 
Os caminhos da categoria costumam ir pra qualquer lado, menos para o lado da economia. Cobra-se das equipes contenção de despesas, mas impõe-se milionárias “unidades de força” que custam uma pequena fortuna cada vez que rodam um punhado de quilômetros.
 
O homem da grana continua lá, octogenário, aumentando sua fortuna sem saber pra que, nem porque, um vício? Resiste a todos os dossiês, todos os desafetos, a todos os concorrentes e casamentos, me desculpem os acadêmicos, mas imortal é o Bernie Eclestone.
 
A F1 dos ricos é um clube bem fechado e impiedoso. Embora a Ferrari seja inquestionável, todos os demais podem sambar a qualquer momento, a Williams que o diga, uma das maiores na história, volta a respirar sem aparelhos depois de passar a frequentar a parte baixa da tabela, de onde poucas retornam.
 
Vijay Mallya e Monisha Kaltenborn estiveram nas manchetes. O milionário indu está chegando a conclusão que é difícil ganhar nessa brincadeira, e sua colega mal tem dinheiro para pagar o combustível. Toto Wolff, do alto de sua sabedoria neo-liberal, não se comove; quem não tem competência não se estabelece.
 
A Sauber já tem mais de 20 anos, tradição nas pistas, fez um campeonato decente em 2013, quando conseguiu evoluir um carro que começou mal, para fazer uma boa segunda metade da temporada. Sempre viveu com dinheiro contado, mas agora está na penúria. Não como a Marussia, fundada por um milionário aventureiro – nasceu Virgin! – ou a Caterham, idem. Mas isso não comove, Ferrari fora, qualquer um pode ficar pelo caminho, sem que ninguém verta uma lágrima.
 
O regulamento atual exige um carro de alta tecnologia, a lógica da produtividade entrou nas pistas, é preciso reciclar energia, é preciso um novo rumo, a questão é que as decisões são tomadas de acordo com o interesse dos fortes e os custos que estes podem arcar, se os fracos não acompanham, paciência.
 
Tivemos algumas provas memoráveis esse ano, ainda assim o campeonato chega ao fim com queda de audiência e equipes quebradas. Os arrogantes não recuam e dane-se a coletividade. F1 também é política.
 
Enquanto isso…
 
…com elegância Felipe Massa poupa a Williams (e Rob Smedley), por ter perdido o pódio nos EUA…
 
…Ricciardo mereceu, mas na pista não iria superar o brasileiro…
 
…triste ver Sutil fora nos primeiros metros, depois de ter colocado a Sauber no Q3 pela primeira vez no ano…
 
…e Vergne, que ainda luta por lugar em 2015, mesmo com uma especificação antiga do Renault voltou a pontuar e superar o promovido Kvyat.
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